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Invasão do Afeganistão, Política Internacional

Resistência não é terrorismo II – A Resistência Afegã: talebans lançam ofensiva de Primavera


Em outubro de 2001 os EUA, à revelia das Nações Unidas, invadiu o Afeganistão com o objetivo declarado de encontrar Osama Bin Laden e outros líderes da Al-Quaeda e remover do poder o regime tabeban, que alegadamente lhe dera apoio. O ataque inicial removeu o Taleban do poder, mas as forças do antigo regime recuperaram sua força, obrigando os invasores a aumentarem a presença militar no país, envolvendo-se num verdadeiro atoleiro militar.

Após 11 anos de ocupação, a guerra do Afeganistão já é o mais longo conflito da história dos Estados Unidos, e seu custo é calculado em 345 bilhões de dólares, além de 1.600 militares americanos mortos. Em junho de 2011, Barack Obama iniciou a retirada sistemática das tropas americanas, que espera concluir em 2014.

No último dia 15 de abril, militantes talebans realizaram um ataque coordenado contra diversos alvos no Afeganistão, atingindo o prédio do Parlamento, o quartel-general da OTAN e as embaixadas da Alemanha e do Reino Unido. Outros ataques foram registrados no mesmo dia em outras três províncias afegãs, numa amostra da capacidade da resistência afegã mesmo depois de mais de dez anos de guerra.

O porta-voz da resistência afegã, Zabihullah Mujahid, afirmou que os ataques são o início de uma ofensiva de Primavera que vem sendo planejada a meses e que novos ataques ocorrerão. Segundo Mujahid, as ações do Taleban são resposta a uma série de incidentes recentes envolvendo tropas americanas no país: em janeiro, foi divulgado um vídeo (http://tvig.ig.com.br/id/8a49800e343e2ae60134d282df910c1b.html) no qual fuzileiros americanos urinam em cadáveres de combatentes afegãos; em fevereiro, soldados da base da OTAN em Bagram queimaram exemplares do Alcorão, gerando protestos furiosos no Afeganistão que provocou a morte de 20 pessoas, incluindo sete funcionários da ONU (Organizações das Nações Unidas); em março, um militar americano matou 17 civis em Kandahar. Dentre os assassinados estavam nove crianças e três mulheres. Investigações independentes comprovam que o massacre teve a participação de outros soldados americanos; em abril, o “Los Angeles Times” publicou fotos de soldados americanos posando com cadáveres e pedaços de corpos de talebans mortos.

Apesar dos esforços do governo americano em minimizar as ocorrências, atribuindo-as a ações individuais que tentam dissociar dos “padrões militares americanos”, a verdade que crimes de guerra e desrespeito aos direitos humanos e aos valores da população local tem sido uma prática comum das forças armadas norte-americanas em qualquer lugar do mundo.

No Afeganistão, o primeiro caso foi o massacre de Dasht-i-Leili, em dezembro de 2001, apenas dois meses depois da invasão, que provocou a morte de cerca de três mil prisioneiros talibãs, assassinados sumariamente quando eram transportados para a prisão. Em 2005, cinco soldados norte-americanos promoveram outro massacre, dessa vez na região de Kandahar, que ficou marcado pelo fato de que eles esquartejaram os cadáveres das vítimas e guardaram seus ossos e crânios como “troféus de guerra”. Em agosto de 2008, na aldeia de Azizabad, província de Herat, um ataque aéreo das forças de ocupação matou mais de 90 civis, a maioria deles crianças. Outros “erros” que ocasionaram a morte de civis também incluem o dia em que soldados franceses bombardearam um ônibus cheio de crianças, em 2008, matando oito; uma ronda feita pelas tropas norte-americanas que matou 15 passageiros e o extermínio de uma vila inteira durante uma festa de casamento, incluindo uma mulher grávida e várias crianças.

Documentos militares norte-americanos divulgados pelo Wikileaks trazem evidências contundentes de crimes de guerra cometidos no Afeganistão e revelam episódios muito mais violentos do que aqueles que são anunciados oficialmente pelos militares. Inúmeras irregularidades cometidas pelos Estados Unidos, tais como assassinatos de civis e operações secretas contra rebeldes, não constam dos relatórios oficiais. Entre as informações divulgadas pelo Wikieaks estão documentos que afirmam que centenas de civis foram mortos, sem conhecimento público e oficial, pelas tropas norte-americanas e aliadas, planos secretos para exterminar líderes rebeldes, bem como a discussão do suposto envolvimento do Irã e do Paquistão no apoio à resistência. (Veja mais em: http://www.guardian.co.uk/world/datablog/interactive/2010/jul/25/afghanistan-war-logs-events)

Em 2011, de acordo com a missão da ONU no Afeganistão (Unama), mais de 12 mil civis morreram durante a invasão, contra um total de 2.753 soldados da Força Internacional de Assistência na Segurança (Isaf) mortos, revelando com clareza a crueldade e a covardia dessa guerra. “Há muito tempo civis afegãos vêm pagando o preço mais alto da guerra”, disse Jan Kubis, representante especial do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

Passados 11 anos desde o início da invasão, a expectativa de vida no país diminuiu drasticamente, enquanto a mortalidade infantil, a pobreza e a desigualdade social estão entre as maiores do mundo: 36% da população vive abaixo da linha da miséria e 35% da população adulta está desempregada. A maioria da população afegã não tem acesso à água potável e ao saneamento básico, e apenas 10% possuem energia elétrica. O país tem também a segunda pior taxa de mortalidade materna do mundo, atrás apenas de Serra Leoa, fazendo com que, para cada 10 mil nascimentos, 1.600 mulheres morram durante o parto e, segundo relatório da agência da ONU para crimes e drogas, cerca de 1 milhão de afegãos entre 15 e 64 anos são viciados, ou seja, 8% da população.

Essa situação é resultado de uma década de uma guerra injusta e covarde promovida pelos maiores potências do mundo contra um dos países mais atrasados e indefesos do planeta. O resultado é que hoje o Afeganistão é um país literalmente arrasado, sua economia está praticamente destruída, não há liberdade para o povo e, como vimos, o desemprego, a violência e a pobreza são maiores do que antes da guerra.

Como o Ocidente pode questionar o direito do povo afegão de resistir á ocupação armada, se todas as consequências desta invasão foram nefastas ao Afeganistão e ao seu povo?

– “Desrespeitar a religião e a tradição não é aceitável. Não é muito diferente do que as tropas estrangeiras fazem com nosso povo e é isso que leva muitos às montanhas, para se juntar ao Taleban” (declaração de Hamidullah Tokhi, deputado afegão pela província de Zabul).

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