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Combate ao terrorismo, Estado Islâmico, Extremismo Islâmico, Oriente Médio, Síria

Zugzwang! Checkmate! Game Over! Intervenção russa na Síria desmascara a política dos EUA e alça Moscou à posição de protagonista principal no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio e no mundo árabe.


Putin-Master-Chess-PlayerHá pouco mais de um ano, mais precisamente na madrugada do dia 23 de setembro de 2014, aviões da coalizão militar liderada pelos EUA iniciaram as missões de bombardeio contra os militantes do Estado Islâmico em território sírio, como já vinham fazendo no Iraque desde agosto do mesmo ano. Segundo o Pentágono, até o final de setembro de 2015 os americanos realizaram mais de 7 mil bombardeios, dos quais 4.500 contra as forças do EI no Iraque.

Apesar do impressionante número de missões (ao custo médio de US$ 9 milhões por dia, segundo balanço divulgado pelo Pentágono em junho de 2015), os ataques americanos não surtiram efeito em conter o avanço do EI, que seguiu conquistando territórios. A ineficácia, ou inexistência de uma “estratégia completa” para vencer o EI foi reconhecida pelo próprio presidente Barack Obama em coletiva de imprensa após a cúpula do G7 na Alemanha, em 08 de junho, poucos dias após a ocupação da importante cidade iraquiana de Ramadi pelo Estado Islâmico.

Suas declarações provocaram indignação entre políticos iraquianos, como a deputada Aliya Nsaiyef, que ao comentar o assunto deixou claro a falta de credibilidade dos EUA no combate ao Estado Islâmico, lançando dúvidas sobre seus objetivos na região: – “Os Estados Unidos dizem que são o maior país no mundo, têm alta tecnologia, lideram a política unipolar no mundo… Depois eles anunciam que não têm uma estratégia para enfrentar o Estado Islâmico! O fato de que eles atacam posições falsas no Iraque mostra que não levam a sério a luta contra o EI. Podiam compartilhar a sua informação [da inteligência] para ajudar o Iraque a combater o inimigo. Esses indicadores mostram a falta de credibilidade na sua guerra contra o EI”.

Mais do que isso, toda operação norte-americana no Iraque e na Síria já começava a ser percebida como uma grande farsa, uma vez que nem mesmo eles eram capazes de precisar exatamente o impacto de suas missões de bombardeio contra o EI. Uma incapacidade que foi admitida (e menosprezada) pelas autoridades militares dos EUA, a exemplo da secretária da Força Aérea norte-americana, Deborah Lee James, para quem esses números “não existem” porque a degradação causada pelos ataques “não é quantificável”. A ineficiência dos ataques aéreos da coalizão também foram denunciados por seus “aliados” em solo: em outubro de 2014, soldados curdos relataram que os bombardeios não estavam contendo o EI em Kobani, ao norte da Síria.

Entretanto, essa aparente incapacidade e ineficiência em lidar com o Estado Islâmico, o que a princípio poderia ser entendido como um fracasso da política de Washington – era, ao contrário, a consolidação de uma perversa estratégia para promover o reordenamento geopolítico do Oriente Médio, com a finalidade de garantir a hegemonia americana na região. O plano, desde o início, era levantar uma força expedicionária extremista para provocar um banho de sangue sectário, seguido por intervenções militares pontuais e o estabelecimento de governos alinhados e simpáticos aos EUA. O que vimos acontecer no Egito e no Iêmen, naquilo que se convencionou chamar de “Primavera Árabe”, a destruição da Líbia, a guerra civil na Síria e os recentes acontecimentos no Iraque fazem parte deste projeto, visando especialmente reduzir o arco de influência do Irã, além da criação – em territórios da Síria e do Iraque – de três estados sectários e não cooperantes entre si, controlados respectivamente por sunitas, xiitas e curdos. Eis o que o tenente-coronel Ralph Peters, ex-Vice-Chefe do Gabinete do Estado-Maior para Inteligência do Departamento de Defesa dos EUA, chamava de “balcanização do Oriente Médio. (Leia mais em “Semeando vento, colhendo tempestade. Iraque 2003-2014: o fracasso da geopolítica yankee para o Oriente Médio”)

Veja o que diz o especialista Michel Chossudovsky, em The Engineered Destruction and Political Fragmentation of Iraq. Towards the Creation of a US Sponsored Islamist Caliphate,  Junho/2014:

– “O Estado Islâmico do Iraque e o projeto do califado sunita de al-Sham coincide com uma agenda de longa data dos EUA para esculpir o Iraque e a Síria em três territórios distintos: um califado sunita, uma República Árabe xiita e uma República do Curdistão.  Sob a bandeira de uma guerra civil, uma guerra de agressão está sendo travada para destruir ainda mais todo um país, suas instituições, sua economia. A operação secreta é parte de uma agenda de inteligência, de um processo de engenharia que consiste em transformar o Iraque em um território aberto. Enquanto isso, a opinião pública é levado a acreditar que o que está em jogo é o confronto entre xiitas e sunitas. “

Mas algo daria errado. Ao contrário do pouco que tiveram que enfrentar na Líbia, a Síria de Bashar al-Assad possui uma das mais poderosas e bem equipadas Forças Armadas do mundo árabe, o que levou os americanos a descartarem uma ação militar direta. Dessa forma, a aposta dos estrategistas de Washington foi concentrar seus recursos – políticos, financeiros e militares – no apoio ao seu “exército por procuração”, inicialmente dirigidos ao “Exército Livre da Síria” e à “Coalizão Nacional Síria”, mas que passariam a ser canalizados para os grupos extremistas ligados à Al Qaeda.

E em meados de abril de 2013, diante do fracasso do Exército Livre da Síria em bater as forças de Assad, os Estados Unidos, através de seus aliados regionais – Arábia Saudita, Qatar e Turquia – recrutaram, armaram e introduziram no conflito sírio jihadistas estrangeiros de países árabes – particularmente do Iraque, mas também da Líbia, Tunísia e Arábia Saudita – do norte do Cáucaso, da Rússia e da Europa fornecendo-lhes recursos que tornaram o Estado Islâmico a força de combate mais poderosa e eficaz entre os grupos da oposição. Coincidentemente, a expansão do EI acontece no momento em que a “ajuda” americana à insurgência contra Bashar al-Assad atinge seu ponto culminante, como revelam reportagens do “The New York Times” e do “Washington Post” publicadas à época, cujos trechos reproduzimos:


“Com a ajuda da CIA, os governos árabes e Turquia têm aumentado drasticamente sua ajuda militar aos combatentes de oposição da Síria nos últimos meses, a expansão de uma ponte aérea secreta de armas e equipamentos para a revolta contra o presidente Bashar al-Assad, de acordo com dados do tráfego aéreo, as entrevistas com funcionários em vários países e as contas dos comandantes rebeldes” (Arms Airlift to Syria Rebels Expands, With Aid From C.I.A. – The New York Times, 24/03/2013).


“A CIA começou a entregar armas a rebeldes na Síria, encerrando meses de atraso na ajuda letal que havia sido prometido pela administração Obama, de acordo com autoridades norte-americanas e figuras sírias. Os embarques começaram a fluir para o país ao longo das últimas duas semanas, juntamente com entregas separadas pelo Departamento Estadual de veículos e outros equipamentos – um fluxo de material que marca uma grande escalada do papel dos EUA na guerra civil da Síria”. (CIA begins weapons delivery to Syrian rebels – The Washington Post, 11/09/2013)


Explorando sua superioridade tática, o Exército Islâmico expandiu suas atividades e passou a atacar e tomar pela força áreas então controladas pelos remanescentes do “Exército Livre da Síria” e outros grupos “moderados” da oposição, dominando uma ampla faixa no noroeste da Síria, entre a fronteira com a Turquia até a fronteira com o Iraque, onde já estava estabelecido.

Uma coisa foi recrutar, armar e financiar terroristas para manipulá-los na forma de um “exército por procuração”; outra era mantê-los sob controle, para que suas ações não extrapolassem os interesses de seus criadores. A criatura, porém, fez despertar sua própria consciência e a extensão de seu poder, voltando-se contra o seu criador para buscar – paradoxalmente – aquilo que é justamente o oposto dos objetivos americanos no Oriente Médio: “a unidade política do mundo islâmico, extinguindo as falsas fronteiras impostas pelo colonialismo ocidental, criando (ou resgatando) a identidade árabe acima da ideia de pertencimento nacional, mas agora sob os ditames da sharia, a lei islâmica” (in Fundamentalismo e Estado Islamico: o conto do golem americano). De um momento para outro, Washington havia se deparado com uma situação de blowback – termo utilizado pela CIA para descrever os efeitos inesperados ou indesejados das operações secretas ou encobertas realizadas por seus agentes em outros países (Blowback: the cost and consequences of American Empire, Chalmers Johnson, 2007).

Dessa forma, quando os terroristas do EI começaram a investir contra os curdos, ameaçando um dos alicerces fundamentais do Projeto Novo Oriente Médio – a formação de um Curdistão independente, pró-americano/israelense – os EUA foram forçados a agir militarmente, iniciando as missões de bombardeamento no Iraque, e posteriormente na Síria. Não se tratava porém de destruir o Estado Islâmico, como oficialmente declarado, mas de conter suas ambições em território curdo, enquanto consolidaria o conflito sírio na forma de uma guerra de atrito, buscando ganhar tempo para que a “oposição moderada”, apoiada pela CIA, obtivesse ganhos relevantes contra as forças de Bashar al-Assad, justificando assim uma eventual ação militar em apoio aos rebeldes.

O plano americano poderia dar certo; estava dando certo, coroado ainda por um efeito colateral talvez não inicialmente previsto, mas bastante conveniente aos interesses de Washington – uma imensa onda de refugiados que passou a exercer uma poderosa pressão demográfica nos países da Zona do Euro, agravando suas instabilidades internas (consequência ainda da crise financeira) e tornando seus governos suscetíveis a endossar qualquer “plano de paz” proposto pelos EUA para dar fim ao conflito na Síria, até mesmo uma intervenção militar direta contra Bashar al-Assad, como já se anunciava nos corredores do Pentágono. Mas a Rússia se antecipou e com apenas alguns rápidos movimentos – como numa brilhante partida de xadrez – destruiu a estratégia norte americana com um ataque avassalador – preciso e eficiente – imobilizando o rei negro e forçando-o a abandonar o jogo (para os que entendem de enxadrismo, faço um paralelo com o Jogo Immortal, disputado por Adolf Anderssen e Lionel Kieseritzky em Junho de 1851).

russianasiriaNo dia 30 de setembro Moscou anunciou que o presidente sírio, Bashar al Assad, pediu oficialmente ajuda à Rússia para lutar contra a organização terrorista Estado Islâmico. No mesmo dia, o presidente Vladimir Putin, pediu e obteve do Parlamento  russo a autorização para o uso de força militar em solo estrangeiro. Horas depois, caças Su-24M e Su-25 da Força Aeroespacial da Rússia decolaram da base em Latakia para a primeira missão de ataque na Síria, obtendo sucesso em destruir equipamentos militares, de comunicações e depósitos de armas, munição e combustível do EI. Naquele momento, a Rússia era o primeiro país a intervir na Síria de forma legítima, como viria a afirmar o porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov: – “A utilização das Forças Armadas no território de um país terceiro só é possível com base numa resolução da ONU ou a pedido do Governo legítimo desse país. Neste caso, a Rússia será de fato o único país que vai atuar com uma base legítima: o pedido do presidente da Síria”.

Nos dias seguintes a aviação russa, reforçada com os modernos SU-34 (reconhecido por especialistas como o melhor caça-bombardeiro da atualidade), continuou suas missões de bombardeamento à ordem de 20 ataques por dia, e ao final da primeira semana estimativas oficiais indicavam que o Estado Islâmico havia perdido quase metade (40%) de sua infraestrutura na Síria, além de contabilizar centenas de mortos e deserções, forçando-os a recuar na direção da fronteira com a Turquia.

Nas palavras do chefe da Direção Principal de Operações do Estado Maior das Forças Armadas russas, coronel-general Andrei Kartapólov: “a inteligência informa que militantes (do Estado Islâmico) estão deixando as áreas sob o seu controle”. (…) “Em suas fileiras há pânico e deserções. Cerca de 600 mercenários abandonaram suas posições e estão tentando fugir para a Europa”. Por sua vez,  o embaixador da Síria em Moscou, Riad Haddad, ressaltou que o principal resultado dos bombardeios russos é que muitos extremistas entregaram suas armas voluntariamente e se renderam. “Em um dos casos, uns 400 terroristas renderam suas posições com medo de serem aniquilados“.

Não tardaram os protestos e críticas dos EUA e seus aliados à ação russa. Mas teria sido melhor se ficassem calados. Ao acusarem a Rússia de estar bombardeando posições da “oposição moderada”, os americanos tornaram claro um fato extremamente significativo: que a reação “raivosa” dos EUA, Arábia Saudita, Turquia e outros países da aliança é prova irrefutável de que seus interesses e os do jihadismo radical são, na verdade, fortemente entrelaçados. E que suas relações vão muito além da crise síria.

Nas palavras de Michel Chossudovsky : – “Em primeiro lugar, é importante sublinhar o fato de que todas estas organizações terroristas são suportados pela inteligência americana. Na verdade a grande mídia já reconheceu que esses rebeldes são apoiados pela CIA. O Wall Street Journal diz que os alvos dos ataques aéreos russos na Síria são rebeldes apoiados pela CIA. (…) Estes rebeldes são terroristas, incluindo a Frente al-Nusra. O que eu acho que está em jogo aqui é que a força aérea russa está agora empreendendo ataques direcionados contra a al-Nusra em coordenação com o governo sírio e o que os EUA estão dizendo é que a Rússia está indo atrás dos “bons terroristas” (good-guy) da América em vez dos maus terroristas (bad-guy). Eles estão fazendo uma distinção entre o ISIL e outras organizações terroristas, os quais são secretamente apoiados por os EUA “.

De fato, o que os russos estão desenvolvendo na Síria é bastante diferente daquilo que os americanos e sua “aliança anti-terror” vinham fazendo. Moscou possui uma estratégia completa para a questão síria, e tal estratégia passa pela cooperação com o Governo legítimo do presidente Bashar al-Assad. Portanto, ao estabelecer seus objetivos militares, todas as decisões foram baseadas em considerações especificamente militares e da situação do terreno, e não para atender uma visão americana do futuro da “democracia na Síria”. Nesse caso, não cabe mesmo distinguir entre Estado Islâmico dos outros grupos rebeldes. São todos terroristas, basicamente mercenários que foram recrutados desde o início pela OTAN e pelo alto comando turco, com a cumplicidade da Arábia Saudita, Jordânia e Israel.”

E a situação tática, considerando a disposição das forças em conflito na Síria é bastante clara. Para alcançar as posições hoje dominadas pelo Estado Islâmico, Damasco deve levantar o bloqueio das cidades de Idlib, Homs e Hama, além de assumir o controle das rotas terrestres em direção à fronteira com a Turquia, de onde são provenientes as armas e equipamentos que abastecem os terroristas. E é justamente nesse sentido que o Exército Árabe da Síria começou uma grande contra-ofensiva a partir dos bombardeios realizados pelos russos, que reduziram significativamente a capacidade de combate dos terroristas, destruindo depósitos de armas e munições, centros de comando, estruturas de comunicação, sistemas de abastecimento e bases operacionais, tudo em perfeita coordenação com as unidades de combate do Exército Sírio, às quais proporcionam inteligência e apoio aéreo.

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Ao contrário dos Estados Unidos, que passaram um ano bombardeando posições aleatórias no deserto, na maioria das vezes direcionados para infra-estrutura civil, a ação das Forças de Defesa Aeroespacial da Rússia segue uma lógica estritamente militar, bastante pragmática e precisa, assim como são os resultados obtidos. Segundo informe do canal de notícias Al-Mayadeen do Líbano em 08/10, o Exército Sírio já havia conseguido libertar cerca de 70 quilômetros quadrados de território no norte de Hama. E na noite do mesmo dia, em um raro discurso televisionado, o General Ali Ayoub – comandante das operações em Hama do Exército Árabe da Síria – afirmou que “os ataques russos tem facilitado a expansão de nossas operações militares para eliminar os terroristas“, acrescentando: – “Hoje, o Exército Árabe da Síria começou uma ampla ofensiva o objetivo de eliminar os grupos terroristas e libertar as áreas e cidades que sofreram de seu flagelo e crimes.”

Ou seja, em pouco mais de uma semana os russos já fizeram o que os EUA e sua aliança não foram capazes (ou não quiseram) de fazer em dois anos, reconfigurando o equilíbrio de poder na Síria e no próprio Oriente Médio, desmascarando e desmoralizando as políticas de Washington, que pregavam a deposição de Bashar al-Assad como única via para dar fim ao conflito e criavam a expectativa de uma longa e custosa guerra contra o Estado Islâmico.  As conquistas russas – reconhecidas até mesmo pelos meios de comunicação ocidentais, como o britânico ‘Express’, que publicou um artigo intitulado: “Putin atinge o Estado islâmico” – não apenas jogaram por terra os bilhões de dólares gastos pelos EUA, Turquia e as monarquias do Golfo em sua tentativa de derrubar Bashar al-Assad como também provaram efetivamente que os EUA nunca fizeram um esforço real para livrar a Síria de grupos terroristas, causando constrangimento, incômodo e desconfiança entre seus aliados e até mesmo em seu próprio país.

Afinal, como entender que Washington não tenha sido capaz de alcançar o objetivo declarado de “degradar e destruir” o Estado Islâmico quando a ação russa mostrou claramente o que acontece ao se contrapor uma força aérea equipada com armas e tecnologia de ponta contra tropas de infantaria. Segundo palavras do presidente da Comissão dos Assuntos da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Ed Royce, citado pelo The Washington Times, “Putin tem feito mais em duas semanas na Síria Obama  em dois anos (…) e minou a influência dos EUA na região (Oriente Médio)”. “Nosso secretário de Defesa está criticando a estratégia da Rússia, mas onde está a nossa? O povo americano, o Congresso e nossos aliados estão esperando”, disse ele.

Os EUA sempre enxergaram o Oriente Médio como o “quintal” de seu “Império”, como ficou bem expresso na afirmação do tenente-coronel Ralph Peters: – “Embora a maioria dos estados localizados no Golfo Pérsico e no Oriente Médio sejam instáveis, o árbitro final na região é o poder americano. A região é, portanto, uma área de hegemonia de um poder único e é temperado por essa hegemonia. 

Pois essa hegemonia vai chegando ao fim! Em razão de sua própria arrogância e pelos erros que cometeu ao tentar impor seu projeto de reordenamento para o Oriente Médio, os EUA deparam-se agora com o desprezo de seus inimigos e a desconfiança de seus aliados. Uma avaliação bastante sombria – e realista – das atuais circunstâncias partiu do ex-embaixador americano no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano e Paquistão, Ryan Crocker: – “Se olharmos para o coração do Oriente Médio, que já pertenceu antes aos EUA, veremos que em nosso lugar estão o Irã, os representantes xiitas do Irã, o Estado Islâmico e agora a Rússia. Nós demos aos nossos adversários o lugar que antes pertencia unicamente aos Estados Unidos”.

De fato, desde o início da crise síria, Moscou vinha empreendendo sucessivas iniciativas para pôr em andamento um processo de paz entre os próprios sírios, esforço este diligentemente minado por Washington, que buscava relegar à Russia um papel secundário no Oriente Médio. Mas o firme movimento militar russo na Síria surpreendeu os americanos, alçando Moscou à posição de protagonista principal no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio e no mundo árabe.

A menos que queira enfrentar um confronto direto com as forças russas, Washington não tem como impedir que Moscou continue e até mesmo venha e expandir sua opção militar. Poderiam ter feito isso na Criméia e não o fizeram. Certamente não farão na Síria. Além das aeronaves que hoje bombardeiam as posições terroristas em apoio à infantaria de Assad, os russos – apesar das negativas do Kremilin – já preparam uma intervenção armada em solo. Segundo fontes do Exército americano, mais de 600 soldados russos já estariam em território sírio. E mais de 2 mil estariam sendo esperados na base próxima a Lataki, no noroeste sírio, perto da fronteira com a Turquia. Uma mobilização que – como um pesadelo para os EUA – iria mais longe que um simples apoio às tropas do presidente Bashar al-Assad, envolvendo a formação de uma aliança sem precedentes entre os aliados xiitas do Oriente Médio, com participação do Irã, Iraque e do Hezbollah (aos quais também poderá se juntar a China).

A rapidez com que os bombardeios russos degradaram a capacidade de combate dos terroristas, abrindo a perspectiva de um encurtamento do conflito sírio, vem forçando os europeus –  obrigados a lidar com a questão dos refugiados – a repensarem seu apoio à política americana para região. Afinal, que sentido faz continuar agarrado  à estratégia dos EUA de fomentar e insuflar uma infindável guerra civil para derrubar o governo estável e democrático do presidente Bashar Al-Assad na Síria se os efeitos colaterais – a crise imigratória – estão sendo sentidos somente pelos aliados europeus?! Nesse sentido, é bastante sintomático a conclamação feita pela chanceler alemã, Angela Merkel, no sentido de que a Europa deve cooperar com a Rússia no caso da Síria.

E, finalmente, os EUA vem amargando o distanciamento do Governo do Iraque – posto lá pelos próprios americanos após uma intervenção militar que durou uma década ao custo de US$ 3 trilhões – e sua perigosa (para os americanos) aproximação com o Irã e a Rússia. Assim que iniciaram os bombardeios russos, representantes das  forças armadas do Iraque anunciaram a assinatura de um acordo sobre o intercâmbio de dados de inteligência com o Irã, a Rússia e a Síria. Dias depois, o Primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi disse que “não excluia a possibilidade de que o Iraque venha a se voltar para a Rússia para obter mais ajuda”.

Dos demais aliados regionais os EUA não podem esperar muito, no sentido de apoiar uma ação política e militar coordenada para contrapor a iniciativa russa e encaminhar uma solução para crise síria, o que na verdade seria a única forma de recuperar o prestígio e a credibilidade dos EUA na região. Isso porque os interesses da Arábia Saudita e das monarquias do Golfo não contemplam uma saída política sem que o presidente Assad seja deposto (como lhes prometeram os americanos…). E a Turquia não está disposta a negociar qualquer autonomia curda, ainda que em território iraquiano ou sírio,  frustrando a criação do “Curdistão” pretendido pelos estrategistas de Washington. E porque preferem o Estado Islâmico em detrimento à Assad e aos curdos, sauditas e turcos não irão facilitar a vida dos americanos caso estes resolvam negociar os termos para uma solução política para crise síria com a Rússia e o Irã mandando no jogo.

Assim, o único movimento possível para os EUA seria levar a sério seu discurso da “guerra contra o terrorismo”, investindo militarmente – e de verdade – contra o Estado Islâmico. E isso significa mais que um punhado de caças-bombardeiros despejando bombas no deserto. Para recuperar sua credibilidade e o papel de potência hegemônica será necessário que se ponham coturnos norte-americanos em solo sírio e iraquiano, algo que remete aos fantasmas das campanhas no Afeganistão (desde 2001) e do Iraque (2003 a 2011), ao custo de trilhões de dólares e milhares de vidas americanas perdidas.

Enquanto isso, a Rússia continua fincando suas bandeiras ao longo de todo o Oriente Médio, deslocando os EUA para uma posição secundária e impondo-se como poder hegemônico para a futura gestão do período pós-guerra. E tudo isso feito às claras, sem manipulação da opinião pública, sem utilização de subterfúgios e sem ter que disfarçar uma guerra aberta por trás de conceitos eufemistas, como a “guerra contra o terrorismo”. Zugzwang! 

Mais uma vez recorrendo ao enxadrismo, a situação americana é paralela àquela encontrada no xadrez, quando um jogador é obrigado a fazer uma jogada, e a obrigação de jogar torna sua situação pior no jogo. Zugzwang! Cheque-Mate! The Game is Over!

PS: Enquanto escrevo estas linhas os acontecimentos na Síria continuam sucedendo velozmente. Acabo de receber a notícia de que o Exército Árabe da Síria libertou seis cidades na província de Hama; Washington anunciou que está desistindo do programa de treinamento oficial para agentes de “mudança de regime” na Síria, notícia acompanhada de análises que convergem no entendimento de que os EUA não mais se empenharão em combates mais intensos contra o Estado Islâmico; em 11 de outubro os EUA anunciaram que o  porta-aviões Theodore Roosevelt foi removido do Golfo Pérsico para reparos. Aparentemente, os EUA estão abandonando o jogo….

 E aí, vai encarar, Obama? (Forças Eurasianas desfilam no Dia da Vitória, Moscou, 09/05/2015).

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Discussão

4 comentários sobre “Zugzwang! Checkmate! Game Over! Intervenção russa na Síria desmascara a política dos EUA e alça Moscou à posição de protagonista principal no tabuleiro de xadrez do Oriente Médio e no mundo árabe.

  1. Excelente postagem, excelente blog!!! Vou seguí-lo. Parabéns!!!

    Publicado por Maurício Porto | 2015/11/20, 18:22

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