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Catástrofes Humanitárias, Economia, Política Internacional, Síria

União Européia sob ataque! A agenda secreta nas crises de imigração


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A imagem do menino sírio morto numa praia da Turquia ganhou o mundo através dos principais veículos da imprensa internacional e das redes sociais, tornando-se rapidamente, nas palavras do americano Washington Post , “o mais trágico símbolo da crise de refugiados do Mediterrâneo”. Já o britânico “The Guardian”, disse que as fotos levaram para as casas das pessoas “todo o horror da tragédia humana que vem acontecendo no litoral da Europa”.

Tratados preferencialmente sob o ponto de vista humanitário e limitado seu entendimento às consequências de uma crise de imigração, os fatos em torno da tragédia que vitimou o jovem  Alan Kurdi (este era o nome do menino de apenas três anos)  estão encobertos por uma espessa névoa de desinformação que busca esconder os verdadeiros responsáveis, as verdadeiras causas e os verdadeiros objetivos por trás desta crise.

1 – A imigração em massa como estratégia em geopolítica: um caso contemporâneo.

Você já ouviu falar de Ion Mihai Pacepa? O tenente-general Pacepa notabilizou-se  por  ter sido o oficial de mais alta patente que desertou do bloco soviético, em 1978. No momento de sua deserção, ele detinha simultaneamente o posto de conselheiro de presidente Nicolae Ceauşescu, chefe do serviço de inteligência no estrangeiro e secretário do Ministério do Interior da Romenia. Após obter asilo político nos EUA, passou a colaborar com a Inteligência americana em várias operações contra o antigo Bloco Comunista. Quando se aposentou, a CIA descreveu sua colaboração como “uma contribuição importante e única para os Estados Unidos da América”.

O ditador da Romênia Comunista Nicolae Ceausescu (segundo da direita para a esquerda) e logo atrás o Ten. Gen. Ion Mihai Pacepa.

O ditador da Romênia Comunista Nicolae Ceausescu (segundo da direita para a esquerda, de chapéu e com as mãos nos bolsos) e logo atrás o Ten. Gen. Ion Mihai Pacepa.

Treinado e agindo segundo diretrizes traçadas pela KGB, Pacepa foi co-responsável pela operacionalização de uma ambiciosa operação secreta “cuja finalidade era transferir a lealdade da Europa Ocidental e de Israel para longe dos Estados Unidos e do capitalismo, direcionando-os para o bloco soviético e para o socialismo através da inundação do mundo ocidental com diversos imigrantes ao mesmo tempo em que camuflávamos este ataque sob a máscara de desinformação rotulada de “humanitarismo (…) “. (in Shocking, Hidden agenda behind border crisis, artigo escrito por Pacepa para a WordNetDaily e publicado em 24 de junho de 2014 – http://www.wnd.com/2014/06/shocking-hidden-agenda-behind-border-crisis/).

Essa ofensiva antiamericana por meio da imigração em massa, que hoje parece uma ideia esdrúxula, foi efetivamente levada a cabo entre os anos 50 e 80, como revela o próprio Pacepa no mesmo artigo: – “A Alemanha Ocidental tornou-se o meu alvo pessoal em 1956, quando fui indicado como chefe do escritório de espionagem naquele país. Minha diretiva operacional, escrita por conselheiros do KGB, (…) para transformar a Alemanha Ocidental num país socialista através da inundação do país com imigrantes de origem alemã. Moscou acreditava que um afluxo massivo de imigrantes oriundos do bloco soviético (…)  afogaria a burocracia governamental, encurralaria o tesouro nacional, provocando o caos econômico e influenciaria os alemães ocidentais a votar pela opção socialista. (…) A comunidade do KGB não conseguiu transformar a Alemanha Ocidental num país socialista, mas não foi por falta de tentativas (…) Alguns dos emigrados para a Alemanha Ocidental eram agentes de inteligência que haviam sido treinados para plantar as sementes do antiamericanismo (…).

Embora, como reconheceu o próprio Pacepa, as investidas imigratórias patrocinadas pela comunidade do KGB não tenham transformado a Alemanha numa República Socialista, a análise dos fatos históricos considerando a existência dessa “agenda secreta” mostra claramente como tal projeto pode ter contribuído significativamente para a formação de uma nova consciência européia, em contraposição ao alinhamento automático de cada um dos países da Europa Ocidental com a agenda norte-americana.

2 – Europa Ocidental: aliados incondicionais se tornam uma ameaça à hegemonia norte-americana – uma retrospectiva histórica

O continente europeu emerge da Segunda Guerra Mundial totalmente devastado, e já sob nova ameaça, agora pela agressiva presença soviética no Leste. Tendo ocupado a Polônia, Hungria, Checoslováquia, Romênia, Albânia e Bulgária ao final do conflito, a URSS rapidamente buscou consolidar seu domínio enviando numerosas tropas para garantir os governos estabelecidos por Moscou. A invasão da Hungria e a Primavera de Praga foram exemplos marcantes dessa política. Por outro lado, os EUA passaram a adotar um conjunto de práticas, em escala mundial, para conter a expansão do socialismo junto aos chamados ‘elos frágeis” do sistema capitalista, o que ficou conhecido pela expressão “Doutrina Truman” (1947). Estava inaugurada a Guerra Fria. E uma das primeiras medidas foi a efetiva colaboração financeira para a recuperação da economia dos países europeus, o que garantiu, tanto ao nível da política interna como nas relações econômicas e diplomáticas, um alinhamento automático dos países da Europa Ocidental aos EUA.

O financiamento norte-americano fez com que a Europa Ocidental experimentasse um rápido crescimento entre as décadas de 50 e 60, criando terreno fértil para o surgimento do pensamento social-democrata, que acreditava na transição para uma sociedade socialista através de meios democráticos e na formação de um “Estado de bem-estar social”. A Social-Democracia atingiria seu ápice no início dos anos 90, quando os Governos dos principais países da Europa Ocidental estavam nas mãos de partidos políticos auto-proclamados de esquerda (a França de François Mitterrand , a Alemanha de Helmut Kohl e Gerhard Schröder, a Espanha de Felipe González e a Itália de Bettino Craxi e Giuliano Amato, entre outros). Seria esta “guinada para a esquerda” o resultado esperado pelos idealizadores da “agenda secreta” da KGB?

É difícil dizer, mas o próprio Pacepa reforça essa tese: -“Após a morte de Stálin, sua teoria “imutável” para a revolução mundial proletária foi substituída pela “estrada parlamentarista para o poder” de Khrushchev. Insurgências comunistas caíram em desuso. Imigração em massa – de propagandistas do bloco soviético – entrou em voga. E funcionou.

Curiosamente, o período de ascensão da social-democracia na Europa Ocidental coincidiu com o início do colapso econômico da URSS até sua dissolução em dezembro de 1995. Com o fim da Guerra Fria, embora mantida a cooperação militar (materializada pela OTAN) e diplomática com os EUA, o fato é que a Europa passou a buscar o resgate de sua posição de protagonista hegemônico no cenário político e econômico mundial, perdida para os EUA após a Segunda Guerra Mundial.

Em sete de fevereiro de 1992 na cidade holandesa de Maastricht, foi assinado pelos doze países da Comunidade Europeia o Tratado de Maastricht, também conhecido como Tratado da União Europeia

Em sete de fevereiro de 1992 na cidade holandesa de Maastricht, foi assinado pelos doze países da Comunidade Europeia o Tratado de Maastricht, também conhecido como Tratado da União Europeia

O grande passo nesse sentido foi a instituição da União Européia e a criação do Euro (então chamado ECU – European Currency Unit) através do Tratado de Maastricht, em 1992.  Em 1998 foi criado o Banco Central Europeu (BCE) e em 1999 o Euro foi introduzido nos mercados financeiros mundias, tornando-se rapidamente uma importante moeda de reserva internacional. A União Européia havia, de fato, se tornado uma ameaça à hegemonia americana!

O “tiro de misericórdia” poderia ter sido dado em novembro de 2000, quando o Iraque anunciou que trocaria o dólar pelo euro como moeda de pagamento por suas exportações de petróleo, criando a expectativa de que a OPEP seguisse o mesmo caminho (esta teria sido a verdadeira razão para a invasão do Iraque em 2003 – Leia mais em Iraque: o Vietnã Mesopotâmico). Em 2002 o Irã acenou com a mesma medida, seguido pela inciativa venezuelana de pagar suas importações com óleo bruto, evitando assim o uso do dólar.

Para entender como a substituição do petrodólar pelo “petroeuro” poderia arruinar a economia americana é preciso conhecer como os EUA mantêm sua hegemonia através do dólar. No início deste século,  cerca de dois terços do comércio mundial era realizado em dólares, assim como dois terços das reservas cambiais dos bancos centrais eram realizadas na moeda americana, que continua a ser a única moeda usada por instituições internacionais, como o FMI e o Banco Mundial. Isso conferia, como ainda confere, aos EUA uma grande vantagem econômica: a capacidade de executar déficits comerciais ano após ano. E pode fazer isso porque os países estrangeiros precisam de dólares para pagar suas dívidas com o FMI, para realizar o comércio internacional e para constituir suas reservas de moeda. E só um país emite dólares — os EUA, que os fornece ao mundo através da compra de bens e serviços produzidos pelos países estrangeiros. Dessa forma, quanto mais dólares circulam fora dos EUA, ou são investidos em ativos americanos, mais o resto do mundo tem de fornecer aos EUA bens e serviços em troca destes dólares. Para os EUA, na prática, isso equivale a obter continuamente empréstimos maciços e sem juros do resto do mundo.

Esse “sistema” de dominação econômica tem um trunfo poderoso: o petróleo, precificado exclusivamente em dólares americanos. Ora, a grande maioria dos países do mundo são importadores de petróleo, e uma vez que o petróleo é uma commodity tão importante, a necessidade de pagar por ele em dólares obriga-os a manterem suas reservas de moeda estrangeira em dólares, não só para serem capazes de comprar óleo diretamente mas também para proteger o valor de suas próprias moedas. Isso porque uma súbita desvalorização da moeda de um país em relação ao dólar levaria a um salto nos preços do petróleo e a uma possível crise econômica, forçando o banco central de cada país a manter reservas em dólares, de modo que seja capaz de comprar a sua própria moeda nos mercados cambiais quando o seu valor precisar de ser sustentado. E esse era o maior obstáculo para que o Euro se tornasse a principal divisa de reserva: não há interesse em acumular euros se todas as vezes em que for preciso comprar petróleo fosse preciso trocá-los por dólares.

E se porventura isso ocorresse? E se os exportadores de petróleo substituíssem o petrodólar pelo “petroeuro”? Isso sem dúvida significaria uma catástrofe para a economia dos EUA, uma vez que os americanos perderiam uma grande parte do seu subsídio anual de bens e serviço. As importações começariam a custar de verdade, elevando a inflação e tornando o déficit insustentável, uma vez que o FED não mais poderia imprimir dinheiro para alimentar a bolha, porque, sem estrangeiros para absorvê-los, isto resultaria numa inflação ainda maior. Seria o pior dos mundos para os EUA.

Eis porque a reação dos EUA foi rápida e violenta. Ainda em 2000 os EUA anunciaram a “descoberta” do programa nuclear iraniano objetivando a produção de armas nucleares, e passaram a intensificar gradativamente as sanções contra o país persa, buscando o estrangulamento de sua economia; em  2002 a CIA patrocinou e orquestrou um golpe de estado fracassado contra o presidente da Venezuela, Hugo Chaves (o Governo americano foi o primeiro país a reconhecer o novo governo venezuelano); e em 2003 invadiram o Iraque e depuseram Saddam Hussein (e é muito significativo assinalar que a França e a Alemanha se opuseram enfaticamente à ação militar norte americana, e que quando as exportações de petróleo do Iraque foram retomadas, foi anunciado que o pagamento seria em unicamente em dólares – Carola Hoyos and Kevin Morrison, ‘Iraq returns to international oil market’, June 5 2003, Financial Times).

Mas apesar do claro recado de que os EUA defenderiam com unhas e dentes sua hegemonia, as pretensões europeias não cederam. Em outubro de 2003, durante uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro da Alemanha Gerhard Schroeder, o presidente russo, Vladimir Putin declarou que a Rússia estava pensando em vender seu gás e petróleo em euros. Poucos dias depois, o presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, revelou que a Rússia estava estudando ter suas importações e exportações denominadas em euros (in Lisa Jucca and Melissa Akin, ‘Europe Presses Russia on Euro’, October 20 2003, Moscow Times). O envolvimento da Rússia e a formação do “Eixo Eurasiano” (Paris – Berlim – Moscou) potencializou significativamente a ameaça aos interesses americanos.

Putin MerkelOra, a Europa consome cerca de 18% da energia mundial, e apesar de o petróleo ser ainda a principal fonte de energia primária (40%), o consumo de gás natural foi o que mais cresceu, chegando a duplicar nos últimos 20 anos. Especialistas preveem que até 2030 o gás natural será o principal combustível consumido na Europa. Hoje cerca de 25% das necessidades europeias de gás são supridas pela Rússia. O fracasso do Projeto Nabucco (desenvolvido pelos EUA para levar gás do Turcomenistão e Azerbaidjão através da Turquia) levou a União Européia a estreitar suas relações com a Rússia, que desenvolvia os projetos da North Stream (em operação desde 2011) e South Stream (lançado em 2012), para levar gás russo (até 60 bilhões de m3/ano) até a Alemanha, através do Mar Báltico; e até o norte da Itália, através de gasodutos que atravessarão a Bulgária, Grécia, Hungria e Áustria. Gás que seria pago em “petroeuros”!!!!

Diante de tais perspectivas, não surpreende que em 2007 o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, Banco Central dos EUA) Alan Greenspan, em declaração à revista alemã Stern, tenha dito acreditar ser possível a substituição do dólar pelo euro como principal moeda das reservas internacionais, enfatizando que o Banco Central Europeu tornara-se  “um fator sério para a economia global”.

3 – O Império Contra-Ataca. Da Crise Global de 2008 à Primavera Árabe

Em 2008 sobreveio a crise financeira global. que começou quando o Governo americano (que já havia gasto cerca de US$ 700 bilhões para socorrer bancos à beira da falência por conta de investimentos em títulos imobiliários podres) recusou-se a intervir para evitar a quebra do Lehman Brothers, o quarto maior banco de crédito dos Estados Unidos. Nos dias seguintes, as bolsas mundiais perderam US$ 4 trilhões e uma grande onda de incerteza e desconfiança contaminou os mercados, levando à venda de ativos financeiros em larga escala e à contração da oferta global de crédito. A “evaporação do crédito” resultou numa rápida e profunda queda da produção industrial e do comércio internacional em todo o mundo, e a recessão acabou por atingir em cheio o “Estado de bem-estar social”, pilar da social-democracia européia. Teria sido a crise financeira global mais um “round” na luta pela hegemonia do dólar? 

Talvez isso não passe de simples ilação, mas o fato é que a crise global trouxe consequências profundas aos países da Zona do Euro, tanto ao nível da política interna como em sua economia. Seguindo a fórmula ditada pelo Fed, o Banco Central Europeu apostou no uso de políticas fiscais e monetárias expansionistas para vencer a crise. Na Zona do Euro, os governos foram liberados das amarras fiscais do Tratado de Maastricht – que estabelecia que a relação entre dívida pública e produto interno bruto (PIB) não poderia ultrapassar o limite de 60% – e viram a dívida pública crescer a níveis alarmantes: na Grécia, o pior caso de ­descontrole das contas públicas na Zona do Euro, a dívida alcançou a marca de 148,6% do PIB em 2010, ficando na casa dos 340,2 bilhões de euros; na Itália a dívida chegou a atingir 118,4% do PIB, seguida pela Irlanda, com 94,9%; Portugal, 93,3%; e Espanha, 61,1%.

Isso representou um grande revés para o “Estado de bem-estar social” preconizado pela social-democracia, com sérias consequências eleitorais, o que determinou a ascensão de governos conservadores (O CDU de Angela Merkel na Alemanha, o Partido Conservador de Cameron no Reino Unido, a UMP de Sarkozy na França, o Partido Democrático de Enrico Letta, que apesar de centro-esquerda aliara-se ao PdL de Silvio Berlusconi na Itália e o PP de Mariano Rajoy na Espanha, apenas para citar os países de maior peso econômico e político) que em maior ou  menor grau, adotaram uma série de medidas de austeridade, envolvendo a a redução dos encargos salariais da administração pública e dos sistemas públicos de pensões; a redução das despesas de funcionamento do Estado e das prestações sociais; o congelamento do investimento público; a redução das transferências para o setor empresarial do estado e a ‘racionalização’ da rede de prestação de serviços públicos; a redução dos benefícios fiscais; o aumento das taxas de impostos diretos e indiretos e sobretaxas de imposto extraordinárias.

Dessa forma, o que começou como uma crise financeira transformou-se numa crise social com profundos impactos numa sociedade que há décadas não sabia sequer o que era uma crise.  Famílias mudaram de comportamentos, governos mudaram de hábitos e empresas mudaram de estratégias, redefinindo a Europa ao longo dos anos de austeridade e incertezas.

O auge da crise européia parecia ter sido atingido em julho deste ano (2015), quando a população grega disse não (61,31%) às condições impostas pela União Européia (entenda-se, Alemanha) para a liberação de mais um pacote de ajuda financeira. A expectativa que se criou em torno da ousada recusa era a expulsão da Grécia da Zona do Euro o que poderia representar o início do desmantelamento do bloco econômico. Interessante notar que a Alemanha, que sob o governo social-democrata de Gerard Schröder foi, ao lado da França, o grande entusiasta do euro, tenha sido sob o governo conservador de Merkel a razão da quase desintegração da Zona do Euro, ao dificultar ao extremo uma solução consensual para a crise grega.

Mas o fim do euro não seria bom para ninguém, nem mesmo para os EUA. Talvez fosse menos pior para a Alemanha…. Então não se tratava de destruir a moeda européia, mas de submetê-la à hegemonia do dólar, enterrando definitivamente as pretensões sociais-democratas de transforma-lo na principal moeda de reserva internacional. Um terceiro plano de resgate, de € 86 bilhões, foi então costurado com o Governo grego, prevendo a privatização de € 50 bilhões e um ajuste fiscal de € 13 bilhões, além de um programa duríssimo de austeridade, o que levou à renúncia do primeiro-ministro Alexis Tsipras (recém-eleito novamente, mas obrigado a compor seu governo com forças conservadoras).

Enquanto estes fatos se desenrolam na Europa, os EUA intensificavam suas ações no Oriente Médio e na África Subsaariana, dentro do escopo do “Projeto Novo Oriente Médio”. O que vimos acontecer no Egito e no Iêmen, naquilo que se convencionou chamar de “Primavera Árabe”, a destruição da Líbia, a guerra civil na Síria e os recentes acontecimentos no Iraque fazem parte dessa estratégia, que segundo o tenente-coronel Ralph Peters, ex-Vice-Chefe do Gabinete do Estado-Maior para Inteligência do Departamento de Defesa dos EUA, teria por finalidade consolidar a hegemonia americana na região com óbvios objetivos econômicos, estratégicos e militares: – “Embora a maioria dos estados localizados no Golfo Pérsico e no Oriente Médio sejam instáveis, o árbitro final na região é o poder americano. A região é, portanto, uma área de hegemonia de um poder único e é temperado por essa hegemonia. Os Balcãs Eurasianos (…) também são geopoliticamente significativos. (…) são infinitamente mais importantes como um potencial prêmio econômico: uma concentração enorme de gás natural e reservas de petróleo estão localizados na região (…). O consumo de energia do mundo vai aumentar consideravelmente nas próximas duas ou três décadas. (…) O acesso a esses recursos e a partilha de sua riqueza potencial representam objetivos que agitam ambições nacionais, motivam os interesses corporativos, reacendem reivindicações históricas, revivem aspirações imperiais e rivalidades internacionais”.

As coincidências com o que vem acontecendo hoje na região são assustadoras, em especial no que diz respeito à dissolução do Iraque, a criação de um Estado Islâmico (sunita) e o provável surgimento de um Curdistão independente, englobando territórios tomados do Iraque, da Síria e do Irã, que nesse caso perderia seu corredor estratégico até o Mar Mediterrâneo. Para atingir seus objetivos os estrategistas de Washington substituíram as intervenções militares diretas – de alto custo econômico, político e humano – pela potencialização das divisões sectárias e tensões étnicas, provocando conflitos armados em larga escala, e para isso, introduziu, armou e financiou organizações extremistas. Desde então as tentativas de criar intencionalmente animosidade entre os diferentes grupos étnico-culturais e religiosas do Oriente Médio têm sido sistemáticas, desde a guerra civil na Palestina em 2007, que culminou com a cisão entre o Hamas e o Al Fatah até a eclosão dos distúrbios que ficaram conhecidos como a “Primavera Árabe”, quatro anos depois, culminando com a guerra civil síria e a consolidação do poderio do Estado Islâmico.

4 – A Agenda Secreta nas Crises de Imigração

O fluxo imigratório entre a África, o Oriente Médio e a Europa através do Mediterrâneo não é algo novo. No decorrer das décadas de 1970 e 1980, houve um fluxo imigratório regular de pessoas oriundas das ex-colônias para o continente europeu, a maioria das quais fugindo de conflitos regionais ou em busca de melhores condições de vida.

Segundo o Eurostat Statistics Explained (orgão oficial de estatísticas da União Européia), historicamente sempre houve mais imigração para os 28 Estados-Membros do que emigração para países terceiros. Alguns dos maiores crescimentos demográficos derivados da migração ocorreram durante a década de 1990 e o início da década de 2000, tendo a migração líquida atingido cerca de 1,8 milhões de pessoas somente em 2003. Ainda segundo os dados do Eurostat, entre 1991 e 2000, os fluxos migratórios mundiais em direção à Europa norte-ocidental foram na ordem de 15 milhões de pessoas, sendo a metade delas vindas do antigo bloco soviético e, o restante, originários do Magreb, África e Ásia.

As coisas começaram a sair fora de controle a partir de 2011, a partir da invasão da Líbia e a deposição de Kadafi.  Envolta em caos e mergulhada em uma guerra entre as diversas facções de rebeldes, o país assistiu a uma autêntica limpeza étnica contra os mais de um milhão e duzentos mil imigrantes africanos que estavam trabalhando na Líbia (provenientes de países destruídos por guerras civis – Somália, Eritreia, Sudão – ou pela pobreza – Mali, Níger, Chade, Egito, Tunísia, Marrocos) acusados de apoiarem Kadaffi durante a revolta.

Desde janeiro de 2012 cerca de 400 mil destes africanos tentaram refúgio na Europa atravessando o Mediterrâneo em botes e velhos barcos de pesca superlotados até a costa italiana, criando e alimentando o negócio dos “traficantes de pessoas”. Este foi o “marco inaugural” da atual crise imigratória que vem assolando a Europa, situação que foi se tornando cada vez pior na medida em que a evolução da guerra civil na Síria não trouxe perspectiva de vitória tanto por parte das forças governamentais como pelos rebeldes apoiados pelos Estados Unidos. A introdução do Estado Islâmico tornou os fatos ainda mais caóticos, considerando a desintegração do Iraque e a instabilidade nas regiões dominadas pelos curdos, na fronteira com a Turquia.

Diante do impasse militar e político, o conflito segue nos moldes de uma “guerra de atrito” caracterizada por escaramuças constantes, altamente mortais, mas não decisivas, levando a um elevado número de baixas, destruição progressiva das cidades e infra-estrutura nas áreas em conflito e um excessivo prolongamento temporal, potencializando os efeitos destrutivos – materiais e imateriais – da guerra. E como em todas as guerras, é a população civil a maior vítima, alvos impotentes do fogo cruzado, que não poupa homens e mulheres, crianças e idosos.

Corpos do imigrantes líbios que morreram em naufrágio no Mar Mediterrâneo, quando se dirigiam à Itália. Foto colhida no Facebook.

Corpos de imigrantes líbios que morreram em naufrágio no Mar Mediterrâneo, quando se dirigiam à Itália. Foto colhida no Facebook.

Não surpreende portanto que mais de meio milhão de pessoas tenham atravessado o Mediterrâneo – pelos mais diversos meios e rotas – para buscar abrigo na Europa, protagonizando a tragédia humana que transformou o jovem Alan Kurdi no mais trágico símbolo desta crise de refugiados.

Uma imagem chocante, comovente, constrangedora, que acendeu em muitos uma chama de compaixão e solidariedade que, infelizmente, serve apenas ao propósito de desinformação, como pretendido pelos verdadeiros responsáveis por esta crise imigratória, que não é consequência de fatos fortuitos, mas a materialização de um pesadelo deliberadamente calculado, planejado e executado. Assim como foi pretendido pela KGB na segunda metade do século passado, hoje a crise imigratória tem sido usada como fator de desestabilização da Europa.

4.1 – A Agenda Secreta dos EUA

As razões e métodos dos EUA são claros. Os fatos falam por si. Para os americanos não interessa uma Europa unida, politica e economicamente estável e dona de uma moeda forte, capaz de rivalizar e até mesmo substituir o dólar como moeda de divisa internacional. Por esta razão sua estratégia militar no Oriente Médio não contempla uma solução definitiva na guerra contra o Estado Islâmico e o governo sírio de Bashar al-Assad. Sua estratégia na verdade é manter a guerra de atrito indefinidamente, aumentando cada vez mais o fluxo de refugiados e a pressão demográfica na Europa.

Nesse sentido nos parece bastante reveladora a declaração do presidente Barack Obama  durante um coletiva de imprensa após a cúpula do G7 na Baviera, sul da Alemanha, em 08 de junho, poucos dias depois que o Estado Islâmico ocupou a importante cidade de Ramadi, no Iraque. Na ocasião, o presidente americano afirmou que (sic) “Não temos, ainda, uma estratégia completa, porque requer compromissos por parte dos iraquianos, e um bom tempo para o recrutamento e treinamento [de novos soldados]”. De forma evasiva, deixou a entender que os EUA estão “criando uma novo plano de luta contra o Estado Islâmico”, que não abrange a execução de uma operação terrestre no país, limitando-se a intensificar o treino de militares iraquianos em vez de enviar suas tropas para lá.

Tais declarações provocaram desconforto e indignação entre alguns políticos iraquianos, como a deputada Aliya Nsaiyef, que ao comentar o assunto deixou claro a falta de credibilidade dos EUA no combate ao Estado Islâmico, lançando dúvidas sobre os objetivos americanos na região: – “Os Estados Unidos dizem que são o maior país no mundo, têm alta tecnologia, lideram a política unipolar no mundo… Depois eles anunciam que não têm uma estratégia para enfrentar o Estado Islâmico! O fato de que eles atacam posições falsas no Iraque mostra que não levam a sério a luta contra o EI. Podiam compartilhar a sua informação [da inteligência] para ajudar o Iraque a combater o inimigo. Esses indicadores mostram a falta de credibilidade na sua guerra contra o EI”.

Como antes tentado pelo Bloco Soviético, os EUA apostam que a pressão demográfica representada pelos milhares de imigrantes sírios, iraquianos e africanos será difícil de ser assimilada, provocando o “afogamento da burocracia governamental” e o caos econômico, além de expor as fragilidades do pacto político em torno da União Européia. Coincidência ou não, é exatamente isso que vem ocorrendo, na medida em que países como a Hungria, Grécia, Croácia, Romênia, Eslovênia, Bulgária e outros Estados-Membros menos abastados não tem – ou não se dispõem – como absorver o fluxo imigratório.

Outro aspecto relevante do problema é o efeito político em alguns setores das sociedades europeias. Em vários países a xenofobia ganhou força e alimenta partidos de extrema-direita e grupos anti-imigração, que coincidentemente ou não também têm se posicionado contra a integração européia.

4.2 – A Agenda Secreta da Alemanha

Ao contrário da França, que continua apostando numa maior integração européia, com as ideias que lançou sobre um governo da zona euro, com orçamento específico e um Parlamento (declarações do presidente François Hollande, publicado em julho deste ano no “Le Journal du Dimanche”), a Alemanha – dona da economia mais vigorosa da Europa – passou a impor um modelo que na prática transformou a União Européia num esquema supranacional europeu à sua mercê.

A Alemanha se beneficiou enormemente da criação do euro, sobretudo porque em seus primeiros anos a união monetária possibilitou que alguns países membros desfrutassem de ganhos de renda extraordinários, ampliando os mercados compradores de produtos alemães. Na onda do euro, enquanto a Alemanha ganhava competitividade, outros países embarcavam na canoa furada do crédito farto vinda dos Estados Unidos. Mas aí, em 2008, tudo mudou. A onda de choque da crise financeira vinda dos Estados Unidos expôs a fragilidade estrutural do euro, realçando as dessemelhanças entre os seus membros e sufocando os esforços no sentido de forjar economias cada vez mais parecidas. A contração mundial de crédito acabou com o mito de que era possível fixar a mesma taxa de juros para países tão díspares. O juro é o preço do dinheiro. E o dinheiro tem um preço na Alemanha e outro bem diferente na Grécia. Antes da crise, o euro mascarava a discrepância. Em 2008, a maquiagem derreteu.

Hoje, os enfraquecidos irmãos de moeda já não são mais mercados cobiçados pelos alemães. São, ao contrário, fonte de custos e dores de cabeça, uma vez que a união monetária se torna cada vez mais dependente da Alemanha. Para Berlim, porém, não se trata de acabar com a moeda comum, mas de submeter as economias da Zona do Euro às regras de austeridade e controle impostas pelo Deutsche Bundesbank, impondo uma profunda revisão dos tratados e das leis que regulam o acordo monetário. Um exemplo é a oposição da Alemanha à pretensão do Banco Central Europeu de adquirir as dívidas dos países sem crédito, “socializando” os desequilíbrios fiscais. A verdade é que a Alemanha se cansou de pagar a conta do euro e vem apostando suas fichas no impasse que levaria os países endividados a abandonarem o grupo. Do ponto de vista alemão, tal possibilidade é entendida não como um desastroso esfacelamento da moeda única, mas o seu fortalecimento, com um menor grupo de países, fiscalmente ajustados e sob liderança germânica. 

A aproximação com a Rússia e a formação do “Eixo Eurasiano” garante aos alemães o fornecimento de petróleo e gás natural – que pagarão com euros. E abre um novo e promissor mercado para seus produtos de exportação, que além da própria Rússia inclui ainda o Irã – potência hegemônica, ao lado de Israel, no Oriente Médio – seus parceiros do Brics – com ênfase espacial para a China e a Índia – e os países do Leste Europeu. Ademais, insistir no euro com parceiros pouco competitivos e  descapitalizados significaria apenas estar atado a um mecanismo permanente de transferência de recursos da Alemanha para o restante do grupo, algo que dificilmente seria aceito pelos germânicos.

Não é de se surpreender portanto que a Alemanha tenha dificultado um terceiro pacote de ajuda à Grécia, o que acabou agravando a crise. Uma ajuda que, entretanto, não contemplou uma redução da dívida grega (cujo maior credor é a Alemanha) e foi concedida sob condição de um severo programa de austeridade e de reforma econômica, seguindo o modelo alemão. A bem da verdade, a crise grega representou ganhos bilionários (na ordem de US 110 bilhões, segundo o Halle Institute for Economic Research (IWH)) para economia alemã, como explica o diretor do IWH, Reint Gropp:

– “Quando há turbulências financeiras, acontece uma fuga de investidores, que buscam outros lugares para investir, onde seja mais seguro e ofereça menor risco. Essa fugatratada por BE fez com que os investidores buscassem refúgio em títulos alemães. Com o aumento da demanda por seus títulos, os juros pagos pelo Estado alemão para emitir dívida baixaram. O resultado é que, com essa queda nas taxas de juros, a Alemanha economizou 100 bilhões de euros (US $ 110 bilhões de dólares) (…) os investidores não só fugiram da Grécia, como também fugiram da Espanha, de Portugal e até da Itália. (…)  ainda que acontecesse o temido calote grego, o saldo final para a Alemanha seria positivo em aproximadamente US$ 11 bilhões”.

Da mesma forma,  diante da crise de imigração, as ações da Alemanha têm tido um efeito nocivo sobre a União Europeia, minando a coesão do bloco e colocando sua existência em risco. Sob a retórica do “humanitarismo” abriu suas portas para o imenso número de pessoas que estão fugindo do Oriente Médio, acenando com a concessão de asilo para 800 mil pessoas (declaração da premier Angela Merkel) até o final do ano, mas não sem cobrar de seus parceiros europeus a obrigatoriedade de que todos os países do bloco aceitem refugiados. Tal plano, que estabelece cotas mínimas de acolhimento de refugiados para cada um dos 28 Estados-Membros, foi aprovado pela União Européia em 22/09, mas ficou longe de representar um entendimento capaz de apaziguar as tensões. Pelo contrário, evidenciou – como talvez seja conveniente para a Alemanha – a ruptura interna do bloco, com o voto contrário da Hungria, República Tcheca, Eslováquia e Romênia, além da abstenção da Finlândia.

– “Enquanto eu for primeiro-ministro, cotas obrigatórias não serão implementadas em território eslovaco“. A declaração do primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, num claro desafio à decisão do bloco europeu (entenda-se a Alemanha) demonstra claramente como a política alemã vem apostando na dissenção entre seus membros.

Muito além da retórica do humanitarismo ou das intenções ocultas de minar a coesão da União Européia em favor de seus interesses nacionalistas, é preciso destacar mais um item na “agenda secreta” de Berlim em relação à crise de imigração na Europa: o país de fato precisa de imigrantes. Atualmente, a taxa de desemprego da Alemanha é uma das mais baixas do mundo (4,6%), mas mesmo assim o país tem 600 mil vagas abertas. E esse cenário tende a piorar, uma vez que as estimativas oficiais dão conta de que a população alemã, hoje de 82 milhões de pessoas, estará entre 68 milhões e 73 milhões em 2060. Para que essa significativa queda não tenha impacto no mercado de trabalho e, portanto, no crescimento econômico, ela precisará ser compensada com a chegada de imigrantes, em um ritmo anual de até 491 mil pessoas por ano até 2050. Ou seja, como na crise grega, o que parecia ser algo ruim, é na verdade extremamente conveniente para a Alemanha…

Não há dúvida que a União Européia está sob ataque e corre o risco de naufragar, como naufragou o barco que transportava Alan Kurdi em sua viagem de esperança para um futuro melhor, como era visto a Europa. Seu corpo inerte nas areias de uma praia turca é a imagem mais comovente de uma crise humanitária que tem sido deliberadamente provocada e alimentada como instrumento de guerra para imposição de interesses hegemônicos. Uma imagem que vislumbrada sob a ótica das “agendas secretas” remete ao futuro incerto da União Européia.

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