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Resistência não é terrorismo


Após o 11 de Setembro, os Estados Unidos redefiniram sua perspectiva do terrorismo. Inicialmente, invadiram o Afeganistão e logo após o Iraque, com consequências desastrosas. A Europa também abraçou a política adotada pela inteligência americana: qualquer um que pegue em armas para lutar contra um ocupante é automaticamente considerado terrorista e a guerra é vista como a melhor resposta ao terror.

Ao Ocidente não interessa distinguir entre terrorismo e resistência armada. O Hezbollah, o Hamas, a Jihad, a Frente Popular de Libertação da Palestina, as Brigadas Al-Aqsa da Fatah são movimentos de resistência, cujas ações são um esforço político – que só vai acabar quando Israel devolver os territórios que ocupa.

Americanos e israelenses deliberadamente se esforçam para associar resistência ao terrorismo, na tentativa de negar a legitimidade política dos palestinos para poderem usar a força e a propaganda para atingir os seus objetivos.

Os movimentos de resistência armada são mais que que uma força de combate. São uma necessidade política e social. Os acordos políticos no Oriente Médio têm sido sempre impostos pelas potências ocidentais a serviço de Israel, resultando na percepção – quase sempre acertada –  de capitulação por parte dos regimes locais, o que tem levado a opinião pública árabe a alinhar com os movimentos de resistência armada.

Americanos, europeus e israelenses não entendem a forma de pensar dos povos islâmicos  e como eles estão cansados de verem os seus governantes aceitarem as ordens de Washington ou se omitirem diante dos abusos de Tel Aviv. O que os Estados Unidos e Israel pretendiam com a chamada “Primavera Árabe” era fabricar uma nova elite nesta região, que se submeteria a todas as suas exigências, tal como muitos governos já fazem, o que é inaceitável.

Na verdade, as potências ocidentais são avessos ao único caminho que pode criar um ambiente político próprio á instauração de uma paz duradoura: a distribuição territorial justa e pacífica. Israel ataca os palestinos todos os dias. Recusa retirar-se dos territórios ocupados e continua a acreditar que a força e a arrogância são a via para a segurança. E diante da disparidade militar entre as potências invasoras e os movimentos de resistência, estes recorrem a métodos não-convencionais como único recurso possível para enfrentar a superioridade militar de seus inimigos.

Para entender um pouco mais o ponto de vista palestino reproduzimos abaixo partes de um texto escrito pela médica palestina Samah Jabr. Residente na Jerusalém ocupada, filha de um professor universitário e de uma diretora de colégio, Jarb foi cronista do Palestine Report (1999 a 2000) com a rubrica Fingerprints. Desde o princípio da Intifada contribui regularmente com o Washington Report on Middle East Affairs e com Palestine Times de Londres. Além disso recebeu o prêmio do Media Monitor’s Network pela sua contribuição sobre a Intifada, e alguns dos seus artigos foram publicados no International Herald Tribune, Philadephia Inquirer, Australian Options, The New Internationalists e outras publicações. A autora deu várias conferências no estrangeiro, nomeadamente na Universidade Fordham e no St. Peter’s College de Nova York, em Helsinque e em várias universidades, mesquitas e igrejas na África do Sul.

A Resistência Palestina: um direito legítimo e um dever moral

“Ainda hoje os palestinos continuam a viver sem dispor de um Estado, nem de forças armadas. Nossos ocupantes submetem-nos a toque de recolher, a expulsões, a demolições de casas, a tortura legalizada, e a toda uma panóplia altamente elaborada de violações dos direitos do homem”.
 
A imprensa americana chama “terrorismo” à nossa busca de liberdade, e assim o palestino é tido como o protótipo internacional do terrorista. Esta política moldou a opinião pública ocidental tendo por conseqüência, uma tomada da posição internacional concretizada na tendência a descrever as violências cometidas contra civis palestinos com uma linguagem neutra. As vítimas palestinas ficam reduzidas a simples estatísticas anônimas, ao passo que as vítimas israelenses são pintadas com palavras e imagens fortes”. 
 
“Muitos dos nossos esforços para desafiar o cruel domínio do ocupante, são reduzidos a “ameaça do terrorismo”, como se devêssemos desculpar-nos permanentemente, e nós próprios condenarmos a nossa legítima Resistência; e isso apesar da ausência de definição correta do termo “terrorismo”, e do fato de que o direito à autodeterminação pela luta armada é previsto e autorizado pelo artigo 51 da Carta das Nações Unidas, referente à autodefesa.
 
“Como é possível que a palavra “terrorismo” seja aplicada tão à vontade contra os indivíduos ou grupos que utilizam bombas artesanais, e não aos Estados que empregam armas nucleares (urânio empobrecido) e outras armas proibidas, assegurando a continuada dominação do opressor?”
 
Israel, EUA e Grã-Bretanha encontrar-se-iam, obviamente, à cabeça da lista dos Estados exportadores de terrorismo, devido às suas agressões militares contra a população civil na Palestina, no Iraque, no Sudão e alhures”.
 
“A negação implacável dos nossos direitos, junto à ausência de solução internacional eficaz, levou-nos a tomar consciência de que a autodefesa era a nossa única esperança”.
 
“O direito internacional concede a qualquer população combatendo uma ocupação ilegal, o direito de utilizar “todos os meios à sua disposição para se libertar, e os povos ocupados “têm o direito de procurar e de receber apoio” “
 
“Apesar de todas as injustiças de que são objeto, os palestinos continuam resolutamente a viver, a estudar, a orar, e a cultivar as suas terras num país ocupado. Em alguns casos, eles resistem ativamente e recorrem a atos violentos. Esta Resistência violenta pode ser, ou defensiva (e portanto, no meu íntimo, moralmente correto) como a defesa por exemplo, no campo de refugiados de Jenin pelos combatentes, face ao avanço das máquinas da morte israelenses; ou tomar a forma de atos ofensivos inaceitáveis, tal como o bombardeamento de civis israelenses a festejarem a páscoa judia”.
 
““Onde está o Gandhi palestino?”, perguntam-se alguns. Os nossos “Gandhis” estão ou na prisão, ou no exílio, ou enterrados. Nós não somos centenas de milhões. Um povo de 3,3 milhões e sem armas, fica vulnerável face aos 6 milhões de israelenses, todos virtualmente soldados ou reservistas. Não se trata de uma colonização econômica, os israelenses praticam a depuração étnica a fim de se apossar da terra dos palestinos para o único proveito dos judeus”.
 
“A Resistência violenta é o resultado de uma ocupação militar desumana que inflige arbitrariamente castigos cotidianos; que nega a possibilidade da própria existência dos meios de subsistência, e que destrói sistematicamente toda a perspectiva de futuro do povo palestino”.
 
“A segurança israelense é julgada mais importante do que os nossos direitos elementares de existência; as crianças israelenses são consideradas mais humanas do que as nossas; e a dor israelense mais inaceitável do que a nossa”.
 
“Quando nos rebelamos contra as condições desumanas que nos esmagam, nossos críticos comparam-nos a terroristas, inimigos da vida e da civilização”.
 
“Nós, palestinos, continuamos a enfrentar uma ocupação brutal expondo nossos peitos desarmados, e nossas mãos nuas. Creio no diálogo entre palestinos e israelenses, mas as negociações não bastam por si próprias: elas devem ser acompanhadas pela Resistência contra a ocupação”.
 
“Por quê deveríamos abandonar o nosso direito de resistir? Para continuarmos a viver sob o absurdo domínio do usurpador assassino?
Independentemente de qualquer opção estratégica ou pragmática, na Resistência reside a expressão da nossa dignidade humana.
A história da nossa Resistência deve ser olhada e avaliada do ponto de vista do direito internacional, da moralidade, da experiência e do aspecto político, tendo em conta acontecimentos cronológicos e contextuais, concedendo o seu justo lugar aos direitos do homem, às regras internacionais, e às normas de comportamento amplamente admitidas pela comunidade internacional.
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