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Arábia Saudita, Extremismo Islâmico, Irã, Oriente Médio

A guerra no Iêmen e o colapso saudita. Viverá o Oriente Médio uma nova era, com o ocaso do wahhabismo e a consolidação da hegemonia persa?


Soldados do Exército iemenita

Forças populares e soldados do exército iemenita comemoram mais uma vitória contra os agressores sauditas

 

Muito longe dos holofotes da mídia ocidental, uma sequencia de fatos preocupantes indica o início de uma reviravolta no equilíbrio de poder no Oriente Médio, com consequências globais. Algumas notícias sobre a atuação das forças aeroespaciais russas na Síria; poucas referências quanto aos crimes diariamente cometidos pelos ocupantes sionistas na Palestina, e quase nada sobre as significativas vitórias do Exército Árabe da Síria, que apoiado pelo Hezbollah já libertou grande parte do território sírio das mãos dos terroristas a soldo do Ocidente e do Estado Islâmico. Mas NADA, nenhuma palavra, nenhuma nota digna de credibilidade a respeito de uma guerra – tão cruel quanto à que chega ao fim na Síria – que pode redefinir o equilíbrio estratégico e a geopolítica do Oriente Médio.

Trata-se da agressão perpetrada por um dos regimes mais despóticos e anacrônicos do mundo contra o país mais pobre do Oriente Médio.  E hoje, como na história de Davi e Golias (Alcorão 2:249-251), o pequeno país está fazendo o gigante sangrar.

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Em 25 de março do ano passado a Arábia Saudita deu início à agressão ao país iemenita, sob pretexto de restaurar o poder ao presidente Abdu Rabu Mansour Hadi, que se refugiou em Riad, capital do reino árabe, depois que foi derrubado por uma revolta conduzida pela minoria houti. A agressão que começou com uma campanha aérea acabou desdobrando-se numa incursão terrestre e, depois de 11 meses de guerra e mais de 35 mil vítimas, os sauditas não conseguiram alcançar nenhum de seus objetivos. Pelo contrário, assistem estarrecidos o avanço das forças iemenitas – que eliminaram grande parte dos terroristas e mercenários apoiados por Riad e, vitória após vitória, ameaçam levar a guerra ao território do Reino.

A humilhação saudita passa pelo crescente número de baixas, perda de equipamento militar como tanques, aeronaves e navios de guerra, a destruição de bases em seu próprio território, até a morte em combate de um príncipe real da Casa de Saud, Mohammad bin Amir bin Jalawi Mosaed. A inépcia das forças sauditas ficou evidente após a divulgação de um documento secreto emitido pelo Ministério da Guarda Nacional Saudita que ameaçou levar a justiça militar soldados que fugiam dos combates com o exército iemenita: “Infelizmente, temos visto recentemente alguns soldados abandonaram seus postos e bases sobre as fronteiras meridionais da Arábia Saudita e Iêmen, este fato é um crime e soldados desertores serão julgados em tribunais militares”.

Para compreender porque e como esta guerra descaradamente “ignorada” pelo Ocidente insere-se numa trama maior que pode culminar no colapso do reino da Arábia Saudita, é preciso conhecer as razões e os antecedentes históricos e políticos que levaram a “casa de Saud” a apostar seu futuro numa guerra insana para a qual não estava preparada.

 

O vídeo, produzido pela TV iemenita, é longo (59 minutos), mas mostra o que a grande mídia procura esconder: os agressores do país mais rico do Oriente Médio sendo destroçado pelo exército iemenita.

 

A Arábia Saudita, ao contrário do que se pensa, é um país novo, formado em 1932 após um longo processo de conflitos tribais e sectários que se aceleraram com o fim da I Guerra Mundial. Mas a história da Casa de Saud como dinastia reinante remonta ao século   XVIII, quando Ibn Saud deu refúgio a Muhammad ibn al-Wahhab’Abd, fundador de uma doutrina (wahabismo) que tinha entre seus dogmas a exigência de que todos os muçulmanos deveriam prometer individualmente sua fidelidade a um único líder muçulmano (Califa). Aqueles que não estivessem de acordo com esse ponto de vista seriam considerados apóstatas, podendo ser mortos, suas esposas e filhas violadas, e os seus bens confiscados.

Ora, a doutrina takfiri apregoada pelo wahabismo era extremamente conveniente às pretensões de poder do clã de Ibn Saud, um pretexto perfeito para continuar fazendo o que sempre havia feito – invadir tribos vizinhas e roubar-lhes os bens – e mais, impor-lhes uma autoridade soberana, não com âmbito apenas na tradição árabe, mas sob a bandeira da jihad: um governante, uma autoridade, uma mesquita, referindo-se ao rei saudita, ao wahabismo e o seu controle da “palavra”. Os três pilares sobre os quais toda a autoridade sunita repousa atualmente.

Em 1790, os Saud já controlavam a maior parte da Península Arábica. Em 1801 atacaram a cidade santa de Karbala, no Iraque, massacrando milhares de xiitas, incluindo mulheres e crianças. Em 1803, o então rei Abdul Aziz entrou na cidade santa de Meca, que se rendeu sob o impacto do terror e pânico. Mas em novembro daquele mesmo ano, um assassino xiita matou o rei Abdul Aziz, e o ímpeto das conquistas sauditas foi refreado. Em 1812, o exército otomano (então a grande potência regional da época) começou a expulsar os exércitos sauditas de seu território, até que em 1818 os otomanos capturaram e destruíram capital wahhabi de Dariyah. O primeiro reino da Arábia Saudita não existia mais e os poucos wahhabis restantes retiraram-se para o deserto, e ali permaneceram durante a maior parte do século 19.

No início do século XX o Império Otomano entra em colapso, e liderados por Abdul Aziz Ibn Saud os sauditas wahabi retomaram seus planos de poder, e com o apoio de outras tribos árabes (cuja aliança muitas vezes foi comprada com casamentos arranjados) deu início a uma série de conquistas. Em 1902 Riad, a capital ancestral da dinastia de Al-Saud, foi retomada. Entre 1913 e 1926, os sauditas haviam reconquistado Meca, Medina e Jidá, e em 1927 o Reino Unido reconheceu a independência do reino de Ibn Saud, que em 1932 unificou os territórios conquistados e fundou o Reino da Arábia Saudita.

Os anos seguintes foram marcados pela descoberta da imensa reserva petrolífera do Reino (1938) e pelo temor saudita de que a Grã-Bretanha viesse a apoiar as pretensões de Sharif Husain (líder da Revolta Árabe de 1916) como único governante legítimo da Arábia. Esta foi uma das razões pelas quais o rei Ibn Saud promoveu uma gradual alteração ideológica, substituindo a idéia wahabista de purificação takfiri através da jihad por um movimento conservador de da’wa social, político, teológico e religioso (chamada islâmica) sem perder a justificativa teológica que defendia a lealdade à família da realeza saudita e do poder absoluto do Rei. Por essa razão também se aproximou dos Estados Unidos (vistos então como uma potência não imperialista, que agia na região sem objetivo de controle político – e isso se explica devido ao fato que, diferentemente da Grã-Bretanha, que dominava politicamente alguns Estados, os americanos faziam sentir sua presença por meio de suas empresas privadas), buscando no apoio de Washington uma “garantia” à sua independência e soberania política. Ibn Saud temia que as lutas pelo poder no interior do mundo árabe pudessem abalar e até mesmo derrubar o poder saudita na Península Arábica, e se via ameaçado em especial pelos hachemitas que governavam a Transjordânia e o Iraque, ambos com fortes laços com a Grã-Bretanha.

Os EUA, que ao fim da Primeira Guerra já haviam percebido a importância militar do petróleo, e evidentemente, sua extrema importância econômica, aspiravam obter um parceiro regional que estivesse fora da influência britânica e a Arábia Saudita havia se mostrado um candidato ideal. Em 1933 os EUA estabeleceram relações diplomáticas com o país árabe. No mesmo ano uma empresa norte-americana (a Standard Oil of California – SOCAL) receberia uma concessão de extração de petróleo, quebrando o monopólio britânico sobre os carboidratos da Península Arábica.

Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o consequente aumento da demanda por petróleo, os EUA aprofundaram suas relações com o Reino Saudita. Em 1943, quando ia expirar a concessão de extração de petróleo conferida à SOCAL, Roosevelt declarou a Arábia Saudita área vital para a segurança dos Estados Unidos e concordou em fornecer auxílio econômico para este país. Em 1944, a SOCAL se uniu à Texas Oil Company (TEXACO), para fundar uma subsidiária na Arábia Saudita, com o nome de Arabian-American Company (ARAMCO), que se tornaria um dos principais vetores nas relações entre os dois países.

“Os vastos recursos petrolíferos da Arábia Saudita, agora em mãos americanas sob uma concessão controlada por cidadãos americanos [ARAMCO], devem ser protegidos e desenvolvidos para completar as reservas de petróleo no Hemisfério Ocidental como uma fonte de abastecimento mundial” (Memorando do Secretário de Estado Edward Stettinius Jr. ao Presidente Franklin Roosevelt, 22 de dezembro de 1944.)

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, a importância do Reino da Arábia Saudita para os EUA extrapolou os interesses econômicos, estendendo-se para a geopolítica. Para os Estados Unidos, a expansão soviética no Oriente Médio deveria ser contida a qualquer custo. E dentro do pensamento estratégico de correlação de forças global, a Arábia Saudita, país onde estão localizados os dois mais importantes santuários muçulmanos, Meca e Medina, e governada por uma família que se intitula a guardiã desses lugares sagrados, era o parceiro ideal no combate aos “comunistas ateus”. Assim, Washington não somente se viu obrigado a garantir a existência da monarquia saudita como também projetá-la como potência regional, ao lado de Israel e contra os nacionalistas árabes que relutantemente recebiam alguma ajuda de Moscou.

E foi nesse momento que o wahabismo jihadista, reprimido, mas cuidadosamente cultivado, foi chamado a se manifestar, dessa vez para atender aos interesses de seus aliados ocidentais. Desde quando foi criado a Arábia Saudita nunca deixou de “exportar” sua versão do Islã. Empregou bilhões de petrodólares na construção de mesquitas, escolas corânicas, concessão de bolsas de estudo e todo tipo de apoio a organizações muçulmanas e na formação de clérigos para espalhar o credo wahabista. Segundo Giles Kepel, o objetivo dos sauditas era “estender a mão e espalhar o wahhabismo em todo o mundo muçulmano (…) reduzindo a “multidão de vozes dentro da religião” a um credo único, controlado pela Casa dos Saud”.

Estes bilhões de dólares foram responsáveis pela multiplicação em todo mundo muçulmano de movimentos inspirados no wahabismo “militante” (takfiri), que passaram a se opor não apenas aos xiitas, mas, primeiro, contra os sunitas esclarecidos (nacionalistas árabes), depois contra todas as outras religiões (ismaelitas, zaiditas, alevitas, alauítas, drusos, siques, católicos, ortodoxos, sabateus, yazidis, zoroastristas, hindus, etc.).

Em janeiro de 1979 uma revolta popular no Irã derrubou o governo do Xá Reza Pahlevi, transformando uma monarquia pró-ocidental e reformista que caminhava a largos passos para o secularismo (inibindo e muitas vezes reprimindo violentamente as lideranças religiosas) numa república teocrática, persa, islâmica e xiita. Pela primeira vez na história moderna os xiitas (corrente minoritária no Islã) estavam no controle de um Estado, uma República (nada mais perigoso para as crenças monárquicas do wahabismo), tão grande quanto o reino de Saud, porém mais densamente povoada e igualmente dotada de imensas reservas de petróleo. Uma revolução que desencadearia uma competição global entre o Irã xiita e a Arábia Saudita sunita pela liderança do mundo muçulmano. Nunca antes em sua breve história os Saud se sentiram tão ameaçados, e temendo a influência que o triunfo da revolução iraniana poderia exercer sobre a região, Riad tratou logo de intensificar seus laços com Washington e com o regime sionista de Israel.

Nada mais conveniente para os yankees, que imediatamente alçaram o Irã dos aiatolás à posição de inimigo número um da América. Nada mais conveniente, porque naquele mesmo ano o acidente nuclear de Three Mile Island pôs fim à construção de usinas nucleares nos EUA, tornando o país mais dependente dos combustíveis fósseis. E nada mais conveniente, porque ainda em 1979 a URSS cometeu a estupidez de intervir militarmente no Afeganistão, uma ação que foi – corretamente – interpretada pelos estrategistas de Washington como uma janela de oportunidade para minar politica, militar e economicamente seu arqui-inimigo.

Ora, o que os sauditas desejavam era tudo o que os americanos estavam dispostos a oferecer: respaldo militar e político para intimidar os inimigos de Riad, em troca de petróleo em abundância e um exército de jihadistas takfiris – financiados pelos petrodólares sauditas e doutrinados no wahabismo – para combater os comunistas no Afeganistão. Não é de se surpreender que o homem encarregado de recrutar e canalizar recursos para tal exército – que viria a ser conhecido por Al Qaeda – tenha sido um saudita cuja família gozava estreitos laços com a Casa de Saud: Osama bin Laden, também agente da CIA sob o codinome de “Tim Osman”. (https://mkninomiya.wordpress.com/2013/10/08/a-verdade-sobre-a-origem-e-os-propositos-da-al-qaeda-invencao-da-cia-para-justificar-a-guerra-global-contra-o-terrorismo-e-o-intervencionismo-yankee-no-mundo-islamico/)

Veja o que diz o jornalista e especialista em Oriente Médio do “The New York Times”, Ali Ahmed, em artigo publicado no dia 5 de janeiro passado, referindo-se ao papel desempenhado pela Arábia Saudita na luta contra a União Soviética no Afeganistão: – “(…) depois que a Arábia Saudita gastou bilhões de dólares e enviou milhares de cidadãos sauditas para lutar contra o exército soviético no Afeganistão, os EUA ficou tão agradecido que deu à Arábia Saudita tudo o que eles pediram.”

Foi dessa forma que logo no ano seguinte (1980) os EUA induziram e apoiaram o Iraque de Saddam Hussein (nesta época um aliado do Ocidente) a deflagrar uma sangrenta guerra de agressão contra o Irã, cujo objetivo era destruir a revolução iraniana. Mas as coisas não saíram como o previsto, e a guerra que os iraquianos e seus patrocinadores (EUA, Europa e Arábia Saudita) esperavam ser rápida e decisiva acabou por se tornar uma guerra de atrito, arrastando-se por 10 longos anos, colocando a economia mundial – dependente do petróleo – em nova e grave crise.  Em 1988, o Ocidente retiraria seu apoio ao Iraque, que debilitado econômica e militarmente é forçado a aceitar um armistício “status quo ante bellum“, no que foi considerado uma vitória iraniana.

Entretanto, mesmo durante a guerra com o Iraque, o Irã já estava redesenhando o mapa geopolítico do Oriente Médio. Tendo-lhe sido atribuído a condição de inimigo número um dos Estados Unidos e de Israel, o Irã desenvolveu uma estratégia geopolítica complexa, buscando atrair para sua esfera de influência dois protagonistas importantes: a Síria e o Líbano.

A Síria interessava pelo poderio militar, sendo considerada campeã do arabismo e, aos olhos das massas árabes, um país na vanguarda na luta contra Israel. Isso anulou a propaganda iraquiana e de outros países árabes que tentavam transformar o conflito com o Irã em um velho acerto de contas entre árabes e persas. No Líbano, seu apoio à minoria xiita acabou rendendo frutos após a invasão israelense em 1982, quando os xiitas libaneses – até então apáticos no que se referia ao conflito palestino-israelense – destacaram-se na luta contra o invasor sionista, tornando-se os mais ferozes e perigosos rivais de Israel e aliados incondicionais do Irã. Dessa forma, ao integrar a Síria e a comunidade xiita libanesa à sua esfera de influência, o Irã passou a dispor de bases concretas para ocupar um novo papel aos olhos da comunidade muçulmana, xiita e sunita, de defensor da causa palestina e principal adversário de Israel. Esse prestigioso status contrastava fortemente com a imagem projetada pela Arábia Saudita, tido como aliada do Ocidente e indiferente à causa palestina.

E como a “guerra por procuração” via Saddam Hussein havia falhado, os EUA intensificaram as pressões sobre a economia iraniana, através de sanções unilaterais que buscavam estrangular sua indústria petrolífera, seu sistema financeiro e bancário e a indústria de energia e tecnologia da informação, entre outras. Utilizando-se de acusações genéricas como as de “proliferar armas de destruição em massa” e “apoio ao terrorismo”, os EUA lograram estender as sanções impostas ao Irã a todo mundo Ocidental, especialmente após a “descoberta” do programa nuclear iraniano, que segundo seus detratores teria por objetivo a produção de armas nucleares. E dessa forma, mais uma vez, atendiam às demandas sauditas para conter o Irã.

Mas algo começaria a mudar após a queda de Saddam Hussein em 2003, o que transformou o Iraque (de maioria xiita) numa terra de ninguém, ocupada militarmente pelos americanos que assistiam impassíveis a destruição de toda sua estrutura política e social a um nível de violência incontrolável, tornando o país um palco de massacres sectários mútuos. Após a retirada norte-americana, o Iraque passou a ser um ponto de convergência para o jihadismo wahabista, de onde surgiria o Estado Islâmico.

E com o surgimento do Estado Islâmico e sua crescente expansão através da Síria, onde combateu não apenas as forças leais ao Governo, mas principalmente contra os chamados “terroristas moderados” a soldo dos EUA, ficou evidente que o radicalismo exportado pela Arábia Saudita, implícito do sunismo wahabita, estava fora de controle. E se os movimentos islâmicos radicais foram no passado percebidos pela inteligência ocidental como sendo eficazes em derrubar a União Soviética no Afeganistão e no Cáucaso soviético, estava claro naquele momento que as forças e ideologias radicais liberadas nesses processos tornaram-se livres para criar suas próprias agendas do “jihad” global, representando uma séria ameaça aos interesses de Washington na região (a implantação do chamado Projeto Novo Oriente Médio).

E a Arábia Saudita, tida como principal aliado dos EUA no Oriente Médio ao lado de Israel, começa a perder seu status para se tornar um fardo cada vez mais pesado a ser carregado. Segundo Ali Ahmed, um especialista em relações dos EUA com a Arábia Saudita, o foco norte-americano deixou de ser a garantia do fornecimento de petróleo (uma vez que sua dependência do petróleo do Oriente Médio havia diminuido consideravelmente) para centrar-se na “contenção do extremismo e assegurar uma estabilidade regional. E os sauditas não tem respeitado ou apoiado essas necessidades”. Ainda segundo Ahmed, “nos últimos anos os sauditas têm se tornado um fardo para os EUA em razão de sua política externa errática e às vezes infantil, exigindo a intervenção dos Estados Unidos para promover seus interesses na Síria, Iraque e Egito (…) enquanto continua a apoiar organizações terroristas”.

Um documento (chamado Documento nr. 242073), enviado pela ex-secretária de Estado do EUA, Hillary Clinton em 2010 para suas suas embaixadas em Riyadh, Abu Dhabi, Doha, Kuwait e Islamabad confirma o envolvimento da Arábia Saudita na formação e financiamento de grupos terroristas takfiríes: “doadores na Arábia Saudita constituem a fonte mais significativa de financiamento dos grupos terroristas sunitas ao redor o mundo … embora a Arábia Saudita leve muito a sério a ameaça do terrorismo doméstico … este país continua a ser uma base de apoio fundamental para a al-Qaeda, o Taleban, o Lashkar-e-Tayba e outros grupos terroristas, que, provavelmente, levantam milhões de dólares anualmente a partir de fontes sauditas, muitas vezes durante o Hajj e Ramadan “.

Por outro lado, o Irã acabou consolidando uma posição geopolítica invejável no Oriente Médio, muito em razão do caos provocado pelas sucessivas e desastrosas intervenções ocidentais nos países árabes. Hoje, sobretudo, o Irã assumiu o protagonismo na luta direta contra os radicais do Estado Islâmico e congêneres, subprodutos do regime saudita e das intervenções estrangeiras na região. Na Síria, o Irã tem garantido a sobrevivência do regime de Damasco, vital para a estratégia de manter o apoio ao Hezbollah, e aproveita a situação para expandir sua presença, abrindo uma nova frente, na fronteira litigiosa com Israel das Colinas de Golã. Em Gaza, a despeito das discordâncias teológicas, o Irã apoia politicamente e logisticamente o Hamas sunita, completando, dessa maneira, um “cerco” estratégico ao regime israelense. No Iraque, os iranianos têm logrado êxito em trazer o regime de Bagdá à esfera de influência de Teerã. Mesmo no “quintal saudita”, que na realidade são zonas de influências historicamente contestadas por árabes e persas, o Irã atua ativamente, apoiando a maioria xiita no Bahrein, sob jugo sunita, e, no Iêmen, onde uma considerável minoria xiita, como em outros países da região, se mobiliza em um despertar xiita deflagrado pela Revolução Islâmica.

No plano internacional Teerã conquistou recentemente uma enorme vitória, tendo chegado a um acordo, assinado em julho com o chamado grupo P5+1 (formado por Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, China e Rússia mais a Alemanha), que determinou o fim das sanções econômicas e multilaterais financeiras relacionadas ao seu programa nuclear, liberando bilhões de dólares em bens do Irã em outros países e permitindo que o petróleo iraniano volte a ser vendido nos mercados globais. O desfecho das negociações, que foram severamente contestadas pela Arábia Saudita e Israel, elevou o prestígio persa e terá por efeito imediato a melhora econômica de suas capacidades produtivas e tecnológicas e o reforço de seu papel como potência regional. Só para que se possa entender o que significou o fim das sanções, estima-se que desde 2012 elas custaram ao Irã mais de US$ 160 bilhões (R$ 646 bilhões) em rendimentos do petróleo.

E para a surpresa de muitos, Washington não apenas parece aceitar a expansão iraniana como também vem dando sinais de que não estão mais dispostos a bancar o “guarda-costas” incondicionais dos sauditas.  Se no tempo da Guerra Fria o petróleo e os exércitos jihadistas financiados pelos petrodólares eram convenientes, hoje a conveniência passa pela necessidade de uma estabilização regional que permita aos EUA reconfigurar sua estratégia para o Oriente Médio. Sua última cartada para tentar impor ao mundo o ”Novo Oriente Médio” através de seus “exércitos por procuração” jihadistas fracassou fragorosamente após a intervenção russa na Síria. (https://mkninomiya.wordpress.com/2015/10/12/zugzwang-checkmate-game-over-intervencao-russa-na-siria-desmascara-a-politica-dos-eua-e-alca-moscou-a-posicao-de-protagonista-principal-no-tabuleiro-de-xadrez-do-oriente-medio-e-no-mundo-arabe/).

Dispostos a recuperar algo da influência que constumeiramente exerceu na área, Washington se mostra disposto a “construir pontes” com seus desafetos iranianos – cujas políticas são mais estáveis e maduras, propensas a soluções diplomáticas negociadas – ao invés de continuar tendo sua credibilidade arranhada por aliados lunáticos como a Arábia Saudita, Turquia e Israel.Não seria melhor um Irã nuclear, assim como Israel, Paquistão, Índia, China e Coréia do Norte, e cercado de todo o controle internacional em vez de, quem sabe, arriscar as consequências de futuras armas atômicas sauditas caírem em mãos de grupos jihadistas ?

Dessa forma, nos parece, o colapso saudita se pode presumir não apenas como consequência de sua política externa “errática e infantil” – nas palavras de Ali Ahmed – como também pela aparente disposição de Washington em resgatar o chamado Plano de Laurent Murawiec, um conjunto de idéias apresentadas na reunião trimestral do Comitê Consultivo da Política de Defesa dos EUA, em 10 de julho de 2002, que previa a dissolução do reino saudita e a criação de cinco novos Estados. Segundo as idéias expostas por Murawiec, a família real saudita mostrou-se incapaz de controlar os acontecimentos. Exportou sua ideologia wahabbista por todo mundo e financiou o jihadismo takfiri – o que foi muito conveniente para lutar contra o comunismo e a revolução iraniana – mas hoje não controla o que eles criaram.

Conscientes de que eles são o próximo alvo, os governantes sauditas já devem ter concluído que agora sua sobrevivência depende de si mesmos, e de que nada valeu ter sido aliado incondicional dos EUA no passado se hoje sua existência é contrária às políticas hegemônicas dos yankees.

É dentro desse contexto que se pode entender os recentes acontecimentos envolvendo o reino saudita: a política de baixos preços para o petróleo, a intervenção militar no Bahrein (2011), a agressão contra o Iêmen (2015), e o o anúncio, em dezembro passado, da criação de uma “aliança islâmica antiterrorista”, liderada pelos Saud e formada por 34 países, algo que, entretanto, ainda não saiu do papel. Essa também a motivação para o assassinato do proeminente clérigo xiita Nimr al-Nimr, que causou revolta e protestos em comunidades xiitas por todo mundo.

Mais preocupantes, porém são as notícias de que a Arábia Saudita pretende se unir à Turquia para lançar uma operação terrestre na Síria, a pretexto de combater o Estado Islâmico. Se assim acontecer, é certo que Damasco irá rechaçar a ofensiva, que será tida como uma agressão ao país, desenhando um cenário caótico na região, uma vez que não se pode descartar o envolvimento de forças russas (presentes na Síria a pedido de Bashar al-Assad) e do próprio Irã na defesa da integridade territorial do aliado sírio.

Como parte ou não dessa insensatez, neste último domingo (14/02) chegaram em Riad tropas de 19 países aliados dos sauditas para participarem de exercícios militares conjuntos, chamados “Trovão do Norte”, no complexo militar do Rei Khaled, situado na cidade de Hafr al Batin, no nordeste do reino, próximo à fronteira com o Iraque.

Diante do colapso que parece inevitável, a Arábia Saudita está agindo como uma criança voluntariosa, buscando criar um ambiente de instabilidade geral para forçar uma intervenção de seus antigos aliados e o atendimento de suas demandas. Tudo o que tem conseguido são palmadas na bunda!

A política de preços baixos para o petróleo vem corroendo suas finanças; no plano militar os sauditas amargam sucessivos reveses na luta contra as forças do exército iemenita e o Ansarolá, correndo inclusive o risco real de que a guerra seja transferida para o solo saudita.

Internamente, Riad vive sob crescente pressão política de uma população cujo descontentamento extrapola as minorias xiitas para atingir os jovens sunitas que convivem com uma elevada taxa de desemprego. Internacionalmente potencializam-se as tensões decorrentes da ação de grupos takfiri, criaturas da monarquia saudita, que mais cedo ou mais tarde terá de enfrentar as suas responsabilidades.

Na pior das hipóteses, o país estará falido nos próximos dois anos e será mergulhado numa crise que envolverá de revoltas tribais a revoluções sociais, que serão muito mais mortíferas que os precedentes conflitos da Primavera Árabe. Com suas forças armadas sendo desintegradas no Iêmen, na Síria e no Bahrein, os sauditas deverão recorrer aos aliados do Golfo Pérsico, mas poucos responderiam ao chamado, eles mesmos – monarquias tão anacrônicas quanto à saudita – enfrentando seus próprios problemas. E dessa vez, longe de se oporem a este fim trágico, seus ex-protetores norte-americanos aguardam-no com flagrante impaciência….

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