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Oriente Médio, Política Internacional

Iraque: o Vietnam mesopotâmico


A retirada das tropas dos Estados Unidos foi comemorada por milhares de iraquianos na cidade de Fallujah, um dos principais focos de resistência após a invasão do país, em 2003.

O governo dos Estados Unidos anunciou na primeira quinzena de dezembro o encerramento formal da Guerra do Iraque, com a retirada dos últimos soldados do país e o final das operações que duraram quase nove anos, custaram trilhões de dólares e milhares de vidas. Guerra que começou com uma mentira – a suposta existência de armas de destruição em massa pelo regime de Sadam Hussein – e termina de forma melancólica, sem que o Império Yankee tenha alcançado qualquer dos seus reais objetivos, numa derrota que já vem sendo comparada à aquela sofrida no Vietnam.

As Verdadeiras Razões da Guerra do Iraque

Deflagrada em 2003, o motivo declarado para a invasão do Iraque foi a suposta existência de armas de destruição em massa pelo regime de Sadam Hussein, que jamais foram encontradas simplemente porque o Iraque não as possuia. Mas porque então tanta insistência em invadir e ocupar o Iraque, mesmo sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU? A resposta óbvia, os interesses em torno do petróleo, é apenas uma parte da explicação….

Na verdade, o que estava em jogo era o próprio modelo de dominação imposto pelos EUA desde o Tratado de Bretton Woods (1944), que tornou o dólar americano a moeda forte do sistema financeiro mundial sob a vigilância do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial. O tratado fez do dólar americano a moeda de reserva do mundo: hoje mais de 80% de todas as transações internacionais e 50% de todas as exportações mundiais são em dólares. Além disso, 100% dos empréstimos do FMI são em dólares. Dessa forma, quanto mais dólares circulam fora dos EUA, ou são investidos em ativos americanos, mais o resto do mundo tem de fornecer aos EUA bens e serviços em troca destes dólares. Para os EUA, na prática, isso equivale a obter continuamente empréstimos maciços e sem juros do resto do mundo, o que explica sua capacidade de manter um enorme déficit comercial sem maiores conseqüências.

Em janeiro de 1999 os países  da União Européia adotaram o euro como moeda unificada,  tendo por objetivo declarado convertê-lo numa divisa de reserva a fim de desafiar o dólar, de modo a que a Europa também pudesse obter alguma coisa em troca de nada. Isso seria uma ameaça à hegemonia econômica dos EUA, uma vez que perderiam uma grande parte do seu subsídio anual de bens e serviços com a mudança dos países com reservas em dólar para reservas em euros, o que desvalorizaria o valor da sua moeda. As importações começariam a custar de verdade aos americanos. Uma vez que os países e os agentes convertessem os seus ativos em dólares para ativos em euros, a bolha imobiliária e o mercado de ações cederiam. O FED não mais poderia imprimir dinheiro para alimentar a bolha, porque, sem estrangeiros para absorvê-los, isto resultaria numa inflação maior.

Há no entanto um grande obstáculo para que isto aconteça: o petróleo. O petróleo é a mais importante mercadoria (commodity) comercializada internacionalmente. Quando não se tem petróleo, há que se comprá-lo, e o preço do petróleo é fixado exclusivamente em dólares. Por isso, sempre foi improvável que o euro se tornasse a principal divisa de reserva: não há interesse em acumular euros se todas as vezes em que for preciso comprar petróleo for preciso trocá-los por dólares. Isso também significa que os EUA efetivamente controlam todo o mercado mundial do petróleo: só se pode comprar petróleo se tiver dólares, e só um país emite dólares — os EUA.

Em novembro de 2000, o Iraque, que possui a segunda maior reserva de petróleo do mundo, trocou o dólar pelo euro, criando a expectativa de que a OPEP seguisse o mesmo caminho. Caso isso ocorresse, os EUA teriam de comprar euros para importar petróleo, vendendo maciças quantias de dólares no mercado internacional, derrubando a cotação de sua moeda e valorizando drasticamente o euro. Os bancos centrais dos diversos países seriam também obrigados a converter suas reservas internacionais em euros para poder importar petróleo, e o mito do dólar forte cairia completamente por terra.

Mas os problemas não param por aí. Atualmente, se o dólar se desvaloriza frente a outras moedas, os EUA continuam pagando o mesmo por um barril de petróleo, já que o preço do produto está cotado em dólares. Porém, se for adotado o padrão euro para o preço deste combustível, qualquer desvalorização do dólar fará com que os americanos tenham de se comportar como qualquer outro país: teriam que pagar mais pelo produto.

Estes foram os verdadeiros motivos para a invasão do Iraque. E no rastro desta motivação, os objetivos primários da guerra seriam, na seqüência, a invasão e ocupação militar do Iraque e a deposição de Sadam Hussein; instalação e consolidação de um governo títere alinhado com os EUA num prazo entre 6 meses a um ano; manutenção da ocupação militar por tempo indeterminado e a implantação de bases capazes de entrar em operação caso outros países da OPEP (em especial o Irã, que desde 1999 cogita converter suas reservas em euros) quisessem seguir o exemplo do Iraque; e o principal objetivo: minar o poder da OPEP, debilitando seu controle sobre a produção mundial do petróleo através do aumento da capacidade produtiva do Iraque para além de 7 milhões de barris por dia (eram 2 milhões em 2002), o que derrubaria o preço do petróleo no mercado internacional.

A Derrota Militar

A invasão teve início em 20 de março de 2003, quando 150 mil soldados americanos e outros 30 mil de outras nacionalidades atravessaram a fronteira iraquiana a partir do Kuwait. Enfrentando tropas bem melhor preparadas e equipadas, o exército de Saddam Hussein foi rapidamente vencido, apesar de efetivos paramilitares (Fedayin) oferecerem uma resistência desafiadora. Em 09 de abril os invasores tomaram Bagdad, mas apesar da derrota das forças convencionais iraquianas, a resistência no interior do país começou a aumentar. Em 21 de abril foi criado um “governo de transição” controlado pelos EUA. Em 1 de setembro, o então presidente Bush proferiu o famoso discurso da “Missão Cumprida”, quando declarou a vitória dos EUA no Iraque. No entanto, Saddam Hussein continuava em paradeiro incerto e mantinham-se bolsas de resistência, inicialmente formada pelos Fedayin e grupos leais ao Partido Baath, mas que foram aumentando com a adesão de outros grupos contrários à ocupação. A captura e assasinato de Saddam Hussein, em dezembro de 2003, não acabou com a resistência, como esperava a inteligência americana.

Utilizando táticas de guerrilha que incluiam morteiros, mísseis, ataques suicídas, atiradores furtivos, dispositivos explosivos improvisados, carros bomba, armas de fogo ligeiras e lança granadas, assim como sabotagem contra infraestruturas de água, petróleo e eletricidade, a resistência iraquiana se fez presente durante todo período da ocupação, provocando enormes baixas entre os invasores e impedindo o controle político e administrativo do território iraquiano pelo governo de transição, frustrando os objetivos americanos, que a cada ano viam aumentar o custo em vidas na guerra, que deveria durar apenas 6 meses.

Segundo dados do Departamento Defesa dos Estados Unidos, os americanos perderam 4.487 militares desde o início da operação no Iraque. No dia 31 de agosto de 2010, quando as últimas divisões de combate americanos saíram do Iraque, 4.421 soldados tinham morrido, dos quais, 3.492 em ação. Quase 32 mil tinham sido feridos em operações no país. Desde então, no que foi chamado Operação Novo Amanhecer, 66 morreram, dos quais 38 em ação. Outros 305 foram feridos em combate desde 1º de setembro de 2010.

A Derrota Moral

Em abril de 2004 a revelação dos abusos de prisioneiros em Abu Ghraib, que recebeu a atenção dos meios de comunicação mundiais, causaram grande abalo nas justificativas morais da guerra aos olhos dos americanos e da comunidade internacional. Os primeiros relatos, assim como as primeiras imagens de soldados americanos sujeitando prisioneiros a abusos foram divulgados num relatório de notícias do programa “60 minutes II”, em 28 de abril, e num artigo do The New Yorker, divulgado em 30 de abril.

uso de armas proibidas também abalou as justificativas morais da ação norte-americana. Já está comprovado que durante a segunda batalha de Falluja, descrita pelo exército americano como “os combates urbanos mais duros desde a batalha da cidade de Hue, no Vietnã”, os invasores utilizaram fósforo branco como arma incendiária, causando protestos em todo mundo.

Massacres e assassinatos de civis inocentes foram perpetrados pelas forças de ocupação, fatos amplamente divulgados pela imprensa mundial: o assassinato de 24 civis em Haditha, incluindo mulheres e crianças; o incidente de Ishaqi (assassinato de 24 civis, incluindo 5 crianças); o incidente de Hamadiya (rapto e assassinato de um iraquiano chamado Hasshim Ibrahim Awad); o estupro e assassinato de uma menina de quatorze anos e o assassinato da sua família, em Mahmudiya; o massacre de Mukaradib, onde aviões americanos bombardearam uma festa de casamento, matando 42 civis; e os falsos informes do exército americano, que atribuiam a qualquer civil aprisionado ou morto a qualificação de “combatente inimigo”. Sobre isso, veja o que foi publicado no livro “The Other War: Iraq Vets Bear Witness:

“Vários entrevistados disseram, nessa ocasião, que esses assassinatos eram justificados pela classificação de inocentes como terroristas, tipicamente em seguimento de disparos das forças norte-americanas sobre multidões de iraquianos desarmados. As tropas detinham os sobreviventes, acusavam-nos de ser insurgentes e colocavam AK-47 junto dos corpos dos mortos para fazer parecer que os civis mortos eram combatentes. (…) O soldado de cavalaria Joe Hatcher, de 26 anos, de S. Diego, disse que eram ainda usadas pistolas de 9 milímetros e até pás para dar a impressão de que os não combatentes estavam a cavar um buraco para colocar explosivos” (…) “Se se mata alguém que esteja desarmado, só tem de se deixar uma das armas perto dele”. Os que sobreviveram a esses tiroteios foram presos e acusados de serem insurgentes”

Mas o ponto mais profundo da degradação moral americana foi o tratamento dado aos corpos de seus próprios soldados. Segundo reportagem publicada no Washington Post, a Força Aérea dos EUA confessou ter jogado os restos mortais de pelo menos 274 soldados americanos em um lixão no Estado de Virgínia. O número é muito maior do que as Forças Armadas haviam reconhecido há três anos, quando interromperam a aplicação do método, usado até então em sigilo. Entre 2004 e 2008, teriam sido levados ao depósito 976 fragmentos de 274 militares. Outro grupo de 1.762 restos mortais não identificados foi recolhido no campo de batalha e teve o mesmo destino.  A pergunta que fica é: qual moral terá as forças armadas americanas para continuar recrutando soldados, geralmente com argumento de “lutar pela pátria”, se essa “pátria” te joga no lixo, mesmo após sacrificar seu bem mais valioso em nome dela, sua vida?

Veja o vídeo:
 Corpos de soldados mortos no Iraque atirados em lixão no Estado de Virgínia
 

A Derrota Econômica

Quando candidato a presidente, o senador Barack Obama chamou atenção para a existência de uma relação direta entre a guerra no Iraque e a crise econômica que os EUA atravessavam: “Num momento em que estamos na beira de uma crise, o americano médio paga o preço da guerra no Iraque. As pessoas que estão gastando mais de 50 dólares para encher o tanque (de gasolina), ou seja, quatro vezes mais do que antes do início do conflito, estão pagando o preço desta guerra”, prosseguiu, considerando que a guerra custa em média 100 dólares por mês a cada família americana. “Por quanto mais tempo vamos pedir às nossas famílias e comunidades para suportar o custo desta guerra?”, questionou o candidato democrata durante um comício eleitoral, no dia em que se assinalava o quinto aniversário da invasão.

De fato, a guerra contra o Iraque custou aos EUA muito mais do que os americanos podiam pagar. Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso, até o final do ano fiscal de 2011, os EUA terão gasto quase US$ 802 bilhões para financiar a guerra. No entanto, o economista e vencedor do prêmio Nobel Joseph Stiglitz, e a professora de Harvard Linda Bilmes, afirmam que o custo real chega a US$ 3 trilhões se os impactos adicionais no orçamento e na economia dos Estados Unidos forem levados em conta.

Não se pode afirmar que a Guerra do Iraque foi a única causa da grande crise econômica que vem abalando as estruturas do capitalismo desde 2008, mas é certo que os trilhões de dólares gastos pelos americanos para financiar a agressão contra o Iraque fizeram falta no orçamento. Os elementos fundamentais da crise encontram-se nos desequilíbrios estruturais da economia, a conjugação da valorização imobiliária, da subida da bolsa, do agravamento do deficit de pagamentos externos, e do aumento da dívida pública e do deficit público, acompanhados de um forte crescimento da produtividade e do PIB, que acabou por esconder os efeitos negativos desses desequilíbrios. Por outro lado, o FED foi inundando os mercados de dinheiro barato para compensar e ajudar a pagar as despesas com a guerra no Iraque, o que causou um forte agravamento do deficit e da dívida pública, levando ao colapso da economia.

Eis o que diz Joseph Stiglitz, em entrevista à agência EFE (2008):

(Sobre o programa de intervenção nos mercados financeiros, no início da crise de 2008): 
“Acho que não é suficiente, nem foi feito de forma correta, nem aborda o problema fundamental, que é a grande quantidade de execuções de hipotecas. O sistema está debilitado pelo peso da dívida, e parte desta se deve à guerra do Iraque“.
 
(Sobre o vínculo entre a Guerra do Iraque e a crise financeira):
A guerra contribuiu para o enfraquecimento da economia. Em 2008-2009 está previsto que tenhamos o maior déficit fiscal de nossa história. A guerra também contribuiu para a alta do preço do petróleo. Drenamos nossa economia para comprar petróleo. Isso foi o motivo da ampla liquidez (fornecida pelo Fed antes da crise): diminuir os efeitos de uma despesa tão alta no Iraque. Mas certamente se criou um problema para o futuro com isso”.
 

Existe outro país da OPEP com reservas e produção relevantes que tem o mesmo discurso de conversão. Chama-se Irã. Os Estados Unidos mais uma vez vem recorrendo à mentira, acusando Teerã de tentar produzir armas nucleraes, para justificar uma intervenção militar. Pode ser o prenúncio de mais uma guerra que certamente terminará com outra inevitável derrota dos yankees.

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