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Política Internacional

Entenda a crise na Ucrânia e as razões da “invasão” russa. Uma abordagem além do que publica a grande mídia


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Desde o final da Segunda Guerra Mundial os EUA e seus aliados, reunidos na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), impuseram ao mundo um modelo geo-político baseado numa lógica dicotômica que opunha a democracia ocidental ao autoritarismo comunista, representado especialmente pela China e pela União Soviética. Foi com base neste modelo que os EUA apoiaram e financiaram as ditaduras sul-americanas e africanas, e foi para mantê-lo e justificá-lo que atuou militarmente – de forma direta ou não –  na Coréia, no Vietnã, na América Central (Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Granada e Panamá), e na África ao longo de mais de 50 anos, período que ficou historicamente conhecido por “Guerra Fria”.

Ao final dos anos 1980 a URSS passou por profundas mudanças políticas, econômicas e sociais. Comandado por Mikhail Gorbatchev, o país comunista adotou um conjunto de medidas que modernizou e dinamizou sua economia, assim como promoveu uma gradual diminuição da atuação do Estado nas questões civis. Por meio da “glasnost” foi dada liberdade de expressão individual e coletiva, os presos políticos foram soltos e permitiu-se a liberdade de imprensa, entre outras medidas. A abertura econômica e política refletiu-se também no âmbito da organização geo-política, com a independência das muitas repúblicas que formavam a União Soviética. Em 1991, quase todos os países já eram independentes, e em 21 de dezembro daquele ano o fim da URSS foi oficializado, com a criação da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), organização supranacional formada por Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Cazaquistão e Uzbequistão.

Entretanto, o fim da URSS e da “Guerra Fria” não representou um arrefecimento na política imperialista e intervencionista dos EUA, que passou a dirigir suas atenções estratégicas, militares e de inteligência para a consecução de objetivos econômicos, voltando suas ações para o Oriente Médio e o Leste Europeu, buscando ainda aumentar sua presença junto aos países que antes estavam sob a esfera de influência soviética. É dessa forma que se pode entender as intervenções militares no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, a intensa atuação da CIA nos eventos relacionados à “Primavera Árabe” e o apoio político, logístico e militar aos rebeldes na Síria.

Esta breve resenha foi necessária para que se compreenda a enorme pressão do Ocidente pela aproximação da Ucrânia ao bloco europeu, e a razão do apoio à oposição fascista que promoveu os protestos que levaram à deposição do presidente Viktor Ianukovich.

A Europa consome cerca de 18% da energia mundial, e apesar de o petróleo ser ainda a principal fonte de energia primária (40%), o consumo de gás natural foi o que mais cresceu, chegando a duplicar nos últimos 20 anos. Especialistas preveem que até 2030 o gás natural será o principal combustível consumido na Europa. Em 2000, um relatório da Direção-Geral de Energia e Transportes da Comissão Europeia, intitulado “Livro Verde, Para uma Estratégia Europeia de Segurança do Aprovisionamento Energético”, já chamava atenção para os riscos do alto grau de dependência energética externa, salientando que:

“Se nada se fizer, dentro de 20 a 30 anos a UE estará a cobrir 70% das suas necessidades energéticas com produtos importados, contra os actuais 50%. A dependência reflecte-se em todos os sectores da economia. Assim, os transportes, o sector residencial e a electricidade dependem largamente dos hidrocarbonetos e estão à mercê das variações erráticas dos preços internacionais. O alargamento irá acentuar estas tendências. As consequências da dependência são importantes em termos económicos. Representam, em 1999, 240 mil milhões de euros, isto é, 6% do total de importações e 1,2% do PIB. Em termos geopolíticos, 45% das importações de petróleo provêm do Médio Oriente e 40% das importações de gás natural da Rússia. Ora a União Europeia não dispõe ainda de todos os meios para modificar as tendências do mercado internacional”. (grifos nossos)

Mais adiante, o mesmo relatório analisa a política europeia para os hidrocarbonetos (petróleo e gás), “caracterizados por importações crescentes“, e sugere “prever um dispositivo reforçado de reservas estratégicas, bem como novas rotas de importação“.

Hoje cerca de 25% das necessidades europeias de gás são supridas pela Rússia através de gasodutos que atravessam o território ucraniano. Desde 2002 o fornecimento é realizado segundo os termos de um contrato assinado entre a companhia estatal russa Gazprom e a companhia estatal ucraniana Naftohaz Ukrain, segundo o qual o pagamento pelo transferência do gás natural russo através do sistema de gasodutos ucraniano deve ser feito na base da troca – uma certa quantidade do gás transportado pelo território ucraniano é tomada pela Ucrânia, ao invés do pagamento em dinheiro. Este contrato venceu no final de 2013 (curiosamente quando começaram os protestos em Kiev e a pressão da União Européia pela adesão da Ucrânia).

Em 2005 uma disputa comercial em torno do preço do gás natural levou ao corte das exportações de gás russo para a Ucrânia, o que passou a afetar vários países europeus. Em 2009, houve uma séria queda no abastecimento europeu por conta de dívidas acumuladas de Kiev com Moscou. Foi neste ano que, incitados pelos Estados Unidos, os europeus começaram a ter fantasias sobre a possibilidade de obter energia barata a partir de um gasoduto que ligasse as reservas do Turcomenistão e do Azerbaijão à Áustria, passando pela Turquia, Bulgária, Romênia e Hungria: o Projeto Nabucco. Para os EUA Nabucco tinha um elemento político, expresso com clareza no documento intitulado “O Grande Tabuleiro de Xadrez: Primazia Americana e seus Imperativos Geoestratégicos”, assinado pelo ex-conselheiro de Segurança Nacional, Zbigniew Brzezinski, que claramente orientava criar instabilidade em todos os países ao redor da Rússia, especialmente nos Estados da Ásia Central e a Ucrânia, para interromper o fluxo de petróleo e gás e isolar a Rússia, tirando de Moscou o título de grande potência. Nabucco era, segundo seus defensores, a chave para enfraquecer a influência russa sobre a Europa, reduzindo a dependência dos europeus em relação ao gás siberiano.

Mas tal pretensão foi um retumbante fracasso, que nunca saiu do papel. Em junho de 2013 o Azerbaijão retirou-se do projeto, enterrando definitivamente as pretensões americanas e europeias. Apenas como um adendo, gostaria de lembrar que a crise na Síria também está relacionada a estes eventos e à disputa pelo fornecimento de gás à Europa, uma vez que a inviabilidade do Projeto Nabucco impôs ao Ocidente sua substituição por mais recursos do Golfo Pérsico. E a Síria acabou sendo um elo fundamental nessa cadeia, e como ela se inclina em favor do Irã e da Rússia, o Ocidente e as monarquias do Golfo decidiram que era hora de mudar o governo sírio. A luta pela “democracia”, a defesa dos direitos humanos, as causas humanitárias, foram todas falsas bandeiras desfraldadas para encobrir objetivos bem menos nobres.

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O mesmo raciocínio se aplica à Ucrânia, um país virtualmente falido, com uma dívida externa de cerca de US$ 140 bilhões (equivalente a 80% do PIB), mas elo fundamental no abastecimento de gás russo para a Europa. Ao apoiar os protestos liderados pelos ultranacionalistas de orientação fascista do Pravy-Sector, que resultou num “golpe inconstitucional” e na deposição do presidente Viktor Yanukovych, o que se buscou realizar foi remover a Ucrânia da esfera de influência russa, acenando com favores econômicos e uma futura adesão à União Européia. A instalação de um Governo pró-ocidente e sua integração à  União Europeia reforçaria a posição da Ucrânia – hoje bastante dependente da Rússia – nas futuras negociações quanto ao preço e às condições de utilização dos gasodutos que atravessam seu território, passando a atuar como “parceiro confiável” dentro da mencionada “Estratégia Europeia de Segurança do Aprovisionamento Energético”. Em outras palavras, uma Ucrânia pró-ocidente e financiada pelo FMI estaria em melhores condições para negociar o fornecimento de gás pela Rússia e uma passagem segura pelos gasodutos que atravessam seu território em direção à Europa, garantindo estabilidade de preços e da entrega dos volumes contratados.

Essa foi a verdadeira motivação do Ocidente ao apoiar os protestos em Kiev. Para os EUA e os países europeus em nenhum momento foi importante avaliar que os líderes da oposição seguiam orientações fascistas, e que a todo momento ameaçavam as populações russófonas, predominantes no leste da Ucrânia. Utilizando-se da grande mídia para formar opiniões ao redor do mundo, apresentaram os distúrbios em Kiev como manifestações democráticas contra um Governo corrupto, autoritário e sem apoio popular. Seguindo a cartilha de Brzezinski, promoveram deliberadamente a instabilidade na Ucrânia por meio da exploração da diversidade étnica e religiosa na região. Esta afirmação encontra respaldo nas declarações do ex-oficial de inteligência dos EUA, Scott Rickard, que acusa os EUA e a União Européia de estarem preparando o Euromaidan (movimento pró-europeu) na capital da Ucrânia ao longo de vários anos. De acordo com ele, os gastos direitos do governo dos EUA para com os protestos em Kiev ultrapassam 5 bilhões de dólares. As ações dos EUA e da União Européia para trazer o caos a Kiev também foram reveladas através da divulgação de uma gravação com um diálogo entre Cathrine Ashton, alta representante da UE para as Relações Exteriores e o chefe da diplomacia estoniana, Urmas Paet, em que ambos trocam impressões sobre a situação na Ucrânia. Urmas Paet refere que os franco-atiradores foram contratados por dirigentes do Euromaidan, e que as provas disponíveis indicam que eles alvejaram tanto opositores envolvidos nos distúrbios nas ruas de Kiev como policiais. Agora se torna cada vez mais evidente que, por trás dos franco-atiradores, estava alguém da nova coalizão governamental e não o presidente Yanukovich, disse. A autenticidade da conversa gravada foi confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores da Estônia.

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Mas a deposição de Yanukovych e a formação de um novo Governo (contrariando até mesmo o acordo firmado em 21 de novembro do ano passado entre o Governo e a oposição, mediado pela Rússia e a União Européia, que previa a antecipação das eleições para dezembro de 2014, formação de um governo de coalizão e reforma constitucional) foi uma “vitória de Pirro”, pois desencadeou uma enorme revolta das populações russófonas em toda Ucrânia e especialmente na Crimeia, onde a população e suas lideranças políticas foram mais longe, inicialmente manifestando-se pela ampliação da autonomia em relação a Kiev e depois propondo a adesão à Rússia, proposta que deve ser aprovada por mais de 70% dos votos em referendo marcado para o próximo dia 16 de março.

A cronologia dos acontecimentos revela e ajuda a entender a verdade sobre a presença de forças russas na Ucrânia:

01/03 – Manifestantes na Carcóvia ocupam o prédio da prefeitura local após conflitos com partidários pró-Europa e hasteiam nele a bandeira russa; Milhares de pessoas participam de uma manifestação pró-russa em Simferopol; Em Moscou, o presidente russo, Vladimir Putin, pede ao Conselho da Federação autorização para enviar tropas à Crimeia; O Conselho da Federação autoriza o envio das tropas russas à Crimeia; Vitali Klitschko, líder do partido Udar, apela o parlamento da Ucrânia para mobilizar o exército do país, ameaçando intervir militarmente no leste do país, onde ocorrem manifestações pró-Rússia; Os deputados do Conselho municipal de Sevastopol votam a favor de não obedecer às decisões do novo governo da Ucrânia, e pela realização de um referendo sobre ampliação da autonomia; A bandeira ucraniana é trocada pela bandeira da região de Odessa, no prédio da Administração Estatal Regional de Odessa; Na cidade de Donetsk, ocorrem vários comícios pró-russos, organizados pelos moradores da região. Mais de mil pessoas se reuniram no centro da cidade e manifestantes hasteiam a bandeira russa no prédio da Administração Regional;

02/03 – O presidente interino da Ucrânia, Alexander Turchinov, coloca as forças armadas do país em estado de alerta máximo; O governo da Ucrânia anuncia que recomeçou os preparativos para assinatura de um acordo de associação à União Europeia, anulado a resolução de 21 de novembro de 2013 que os tinha suspenso; Denis Berezovsky, comandante das Forças Navais da Ucrânia, renuncia seu posto e jura fidelidade ao povo da Crimeia; O Comitê de Investigação da Rússia abre processo criminal contra o líder da organização nacionalista ucraniana Pravy-Sector, Dmitri Yarosh, por “incitação pública ao terrorismo e atividades extremistas”; O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, em uma sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, acusa o novo governo ucraniano de aproveitar os frutos de sua vitória para violar os direitos humanos e liberdades fundamentais, citando que “a Suprema Rada (Parlamento Ucraniano) aprovou decisões que limitam os direitos das minorias linguísticas, demitiu os juízes do Tribunal Constitucional e pretende iniciar processos criminais contra eles. Ouvem-se os apelos para punir pelo uso da língua russa, proibir os partidos políticos indesejáveis para o poder, realizar uma lustração. Tudo isso causou indignação nas regiões leste e sul da Ucrânia”; Cerca de 800 soldados e oficiais da 204ª brigada de caças da Força Aérea da Ucrânia, que conta com as aeronaves MiG-29 e L-39, passa para o lado das autoridades regionais e do “povo da Crimeia”; Intensifica-se o deslocamento das tropas russas para as fronteiras orientais da Ucrânia.

03/03 – Mais de três mil militares ucranianos juram “fidelidade ao povo da Crimeia”. Segundo representantes do poder local, até o dia 03/03 já tinham prestado juramente mais de 1500 soldados das forças internas e cerca de 1700 guardas fronteiriços, alojados no território da península; Tropas não identificadas tomam a maioria das instalações militares estratégicas da Crimeia e continuam a bloquear as unidades do exército e da marinha de guerra ucraniana. Segundo a mídia ocidental, seriam tropas russas, mas observadores locais atribuíram a ação aos militares da força de defesa da Criméia; A China declara apoio à Russia na crise ucraniana;

04/03 –  O representante permanente da Rússia na ONU, Vitali Churkin, declarou que Viktor Yanukovich enviou a Vladimir Putin uma carta solicitando por escrito utilizar as forças armadas russas a fim de defender a população da Ucrânia e restabelecer a legalidade e a paz no país; Representantes das cidades de Kherson, Nikolaev e Odessa declaram que desejam incorporar-se na república autônoma da Criméia caso seus poderes sejam ampliados em resultado do referendo; Três regimentos de mísseis antiaéreos das Forças Armadas da Ucrânia, com cerca de 700 soldados e oficiais, passaram para o lado das autoridades da Crimeia, declarando a sua disponibilidade para defender a população da Crimeia; O presidente russo, Vladimir Putin, carateriza os acontecimentos na Ucrânia como um golpe inconstitucional e tomada do poder pelas armas, dizendo ainda que um eventual uso das Forças Armadas da Federação Russa na Ucrânia será uma decisão legítima e em conformidade com o direito internacional e as obrigações da Rússia; 

Soldado russo na Criméia.

Soldado russo na Criméia.

05/03 – Manifestantes de um comício pró-russo tomam a sede do governo regional de Donetsk, no leste da Ucrânia, e penduram a bandeira tricolor russa no 11º andar. Eles exigem a realização de um referendo sobre futuro estatuto dessa importante região produtora de carvão e a demissão de dirigentes responsáveis pela segurança pública; Cerca de 5.000 pessoas se reunem junto à sede do governo local da Carcóvia, importante centro industrial da Ucrânia, exigindo a realização de um referendo sobre o estatuto da região. Os manifestantes – sob os gritos de “Rússia, vem ajudar-nos”, “Carcóvia é nossa” e “Apoiemos Sevastopol e a Crimeia” – insistiram ainda na demissão imediata do governador regional, nomeado pelo novo governo central; As autoridades da Crimeia procedem à criação dos Ministérios Público e do Interior, bem como de Serviços de Segurança;

06/03 – As autoridades de Sevastopol anunciaram que a Cidade não vai participar das eleições presidenciais, marcadas na Ucrânia para 25 de maio; As autoridades da Crimeia decidem realizar o referendo sobre o estatuto de autonomia em 16 de março; O Parlamento da Crimeia aprova unanimemente decisão de aderir à Rússia.

É dentro deste contexto que o Kremilin enviou suas tropas para a Ucrânia: para responder a um apelo do primeiro-ministro da Criméia, Serguei Aksenov, no intuito de assegurar a paz e a estabilidade no território da república autônoma e defender o povo da Criméia das ameaças de intervenção por parte de um governo ilegítimo, fruto de uma conspiração (Euromaiden) dos EUA e da União Européia. Não houve, como quer fazer acreditar a mídia ocidental, uma “invasão”. As tropas russas foram recebidas com alívio e carinho pela população da Criméia. Para que se compreenda o verdadeiro significado da presença das tropas russas na Criméia, vale a pena ler o artigo do correspondente do Público, de Portugal, que está na Ucrânia para cobrir os fatos. Leia, e depois tire suas próprias conclusões…:

Na Crimeia faz-se a festa à espera da guerra de Putin

De Paulo Moura, em Sinferopol

Os diplomatas conversaram, e no terreno as tropas russas foram-se instalando, sem se fossem disparados tiros. A população russa da Crimeia festeja e no resto da Ucrânia há mobilização para a guerra.

(…) Uma manifestação em frente ao parlamento da república autónoma da Crimeia agitava bandeiras russas enquanto ouvia nos altifalantes velhas canções soviéticas. Um activista pró-russo citava ao microfone as últimas declarações de Vladimir Putin.

À volta da estátua de Lenine, numa praça do centro da cidade, um cordão humano, com escudos de aço, protegia o líder da revolução de 1917, numa atitude de grande intensidade simbólica, como se ali estivesse o coração ameaçado da Crimeia.

Na rua Pushkin e adjacentes, a zona comercial da cidade voltou a ter animação, com lojas e cafés abertos, famílias passeando, jovens conversando nas esquinas. Nas áreas mais periféricas, as bancas dos mercados de rua voltaram a abrir, vendendo roupas, legumes, brinquedos, acessórios de telemóveis.

“Agora temos razões para ter esperança”, disse Vladimir Grigorechenko, 56 anos, comerciante. “Não acho que vá haver uma invasão. Mas o Presidente Putin já foi muito claro. Disse que vai proteger a população da Crimeia. Era isso que todos esperávamos ouvir. Ele só vai agir se houver uma provocação”.

Simferopol estava em festa.

Marinka, de 27 anos, que veio tomar um capuccino num café chique da rua Pushkin, disse que, nas últimas semanas, tem andado aterrorizada por causa do fascismo. “As pessoas que fizeram o golpe em Kiev são fascistas, pessoas intolerantes e más, que têm como objectivo aniquilar os russos da Ucrânia. Agora finalmente sinto-me protegida. Eu não acho que Putin queira invadir os anexar a Crimeia. Ele simplesmente disse que está do nosso lado. Não nos vai deixar sozinhos, à mercê dos fascistas”.

“Abaixo o fascismo”

Na rua, um cortejo de manifestantes passou a gritar “abaixo o fascismo”. Alguns rapazes corriam de um lado para o outro com bandeiras da Federação Russa. Polícias fardados cortavam o acesso automóvel em toda a zona do centro. Jornalistas montavam as câmaras nos tripés para captarem a atmosfera da cidade à espera da guerra. Duas raparigas de mini-saia e saltos altos distribuíam panfletos promovendo uma pizzaria. De um restaurante aberto, mas vazio, por ser demasiado caro, emanava música clássica.

Perto do Parlamento, bem como, segundo relatos de várias testemunhas, em Sebastopol, nos aeroportos e em várias estradas, estacionavam piquetes de militares fortemente armados, a quem todos chamam “os russos”, embora nada nos uniformes os identifique como tal.

Uma coluna de 13 veículos blindados deslocou-se de Sebastopol para Simferopol. Um grupo de soldados “russos” cercou uma base militar ucraniana, em Perevalne, pedindo-lhes que entregassem as armas. Os ucranianos, segundo relatos de jornalistas no local, não obedeceram. Os “russos” abandonaram o local, sem reacção. Há informações de que vários grupos destes “russos” percorreram as bases ucranianas pedindo-lhes, “a bem”, a rendição.

Na base militar ucraniana de Bachchiserai, a meio caminho entre Sebastopol e Simferopol, todo o pessoal recebeu ordem para estar em alerta máximo e não abandonar a base. Uma fonte deste quartel disse ao PÚBLICO, sob anonimato, que há lá dentro grande tensão, com os militares divididos entre os que se querem entregar aos russos e os dispostos a combater.

O chefe máximo da Marinha ucraniana, Denis Berezovski, anunciou a sua fidelidade ao novo governo pró-russo da república da Crimeia, o que levou o Governo de Kiev a considerá-lo um traidor e a demiti-lo.

Várias notícias não confirmadas dão conta de que muitas unidades militares ucranianas na península já se colocaram ao lado dos russos, no que parece ser uma guerra silenciosa e anónima que tornaria a eventual entrada final das forças russas num passeio sem violência por um território já conquistado e pacificado.

Os rumores e as informações duvidosas correm céleres por todo o território. As pessoas andam agarradas aos telemóveis, numa teia permanente de narrativas contraditórias e histórias incríveis.

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2 comentários sobre “Entenda a crise na Ucrânia e as razões da “invasão” russa. Uma abordagem além do que publica a grande mídia

  1. Poderia colocar mais fontes ao longo do texto? Não estou querendo derrubar a credibilidade de suas análises, mas é sempre bom deixar as referências. Um abraço.

    Publicado por Everton | 2017/02/11, 17:10

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  1. Pingback: A Independência da Crimeia, a (re)unificação com a Federação Russa e a hipocrisia do Ocidente. | Minhas Notas no Facebook - 2014/03/20

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