Você está lendo...
Oriente Médio

Israel: Estado racista e discriminatório. O drama das comunidades árabes que vivem dentro do Estado de Israel


Casa demolida na aldeia beduína não reconhecida de Al-Araqeeb. Poucos dias depois de todas as casas da vila foram demolidas por imposição da lei de Israel (Foto por Eman)

Depois de décadas de resistência a Israel, o sofrimento dos palestinos nos Territórios Ocupados é relativamente bem conhecido. Mas bem menos conhecido no Ocidente é a situação da população árabe que vive dentro do Estado de Israel. Este grupo é constituído pelos descendentes de palestinos que conseguiram permanecer dentro das fronteiras impostas pelos israelenses em 1948.

Hoje eles respondem por cerca de 21 por cento da população de Israel. Esta percentagem continua a crescer, fato que preocupa as autoridades sionistas, que vêem nos palestinos uma “ameaça existencial” para seu estado. Dessa forma, a destruição das aldeias palestinas dentro de Israel faz parte de um plano deliberado e sistemático para dispersar as populações árabes, expulsando-os de suas terras a fim de certificar-se de a população de judeus supere a dos árabes em cada parte do Estado de Israel.

Um caso emblemático é a da aldeia de Al Araqueeb, com cerca de 40 casas e 500 residentes, localizada no sul do deserto de Negev, que já foi demolida 38 vezes pelas autoridades israelenses sob alegação de as pessoas da aldeia não têm licenças de construção.

Seus moradores, da tribo beduína de Al-Turi, afirmam que estão sendo expulsos de sua própria terra, cujos direitos remontam à Era Otomana (século XIII).  – “Temos documentos de propriedade que remontam a era otomana,” afirma o chefe do Comitê de Defesa de Al-Araqueeb, Awad Abu Farih.

Desde que Israel foi criado as autoridades israelenses têm desconsiderado os documentos antigos e acionado as equipes de demolição sempre que os beduínos tentam reconstruir sua aldeia. Apesar dos incessantes atos governamentais de destruição, os moradores insistem em permanecer firmes, continuando a resistir às autoridades israelenses.

– “Cada vez que demolirem nossas casas, vamos reconstruí-las e vamos continuar fazendo isso, mesmo que as demolições cheguem a 99. Nós nunca deixaremos nossa terra“, disse Abu Farih.

Aldeias beduínas não reconhecidas, tais como Al-Araqueeb, não recebem os serviços do Estado de Israel. Isto significa que não há água, eletricidade, transporte, estradas pavimentadas, escolas ou serviços sociais. As crianças têm que andar quilômetros em clima frio, bem como terrível e perigosa estações quentes para obter a sua educação. Sua ligação com a terra é palpável. Sua terra é a sua identidade. No entanto, esta terra e tudo o que foi construído sobre ele foi destruído e demolido 38 vezes. A mais recente demolição aconteceu em 23 de maio passado. Todos os bens que estavam dentro das casas foram confiscados e os moradores tiveram que fugir para Rahat, um vilarejo beduíno nas proximidades ou se mantiveram firmes, reunindo-se no cemitério local, que possui sepulturas que datam de até 100 anos, forte evidência de seus direitos históricos.

– “A nossa aldeia tornou-se um exemplo vivo das flagrantes violações cometidas pelas autoridades israelenses contra a população árabe“, declarou Awad Abu Farih.

A orientação racista do estado sionista ficou evidente na década de 70, quando um documento confidencial israelense vazou para a imprensa. O chamado Relatório Koenig apresentava uma série de objetivos estratégicos e as etapas táticas que objetivavam reduzir o número e a influência de cidadãos árabes em Israel. Descrevendo um “pensamento objetivo que asseguraria os interesses nacionais judeus a longo prazo”, Koenig sublinhou a necessidade de “examinar a possibilidade de diluir concentrações populacionais árabes existentes”.

A primeira seção do relatório de Koenig é intitulado, “o problema demográfico e as manifestações de nacionalismo árabe”. Nesta seção, Koenig afirma que o aumento da população árabe na região da Galiléia  e seus “sentimentos nacionalistas” colocariam em risco o controle judeu dessa área. Em seu livro, “The fate of the Jews : a people torn between Israeli power and Jewish ethics“, Roberta Strauss Feuerlicht resume alguns dos grandes objetivos estratégicos e os passos táticos aprovados pelo Relatório Koenig:

– Para evitar qualquer possibilidade de uma união política entre as lideranças árabes, Koenig recomenda a construção de assentamentos judaicos em áreas predominantemente árabes.
Líderes árabes hostis deveriam ser substituídos por outros compatíveis, “criados” por Israel. Koenig queria que o número de intelectuais árabes fosse reduzido, encorajando a “canalização de alunos de ascendência árabe para as profissões técnicas, as ciências físicas e naturais. “Estes estudos deixam menos tempo para se interessarem pelo nacionalismo e a taxa de abandono é maior.” Koenig queria tornar mais fácil para os árabes estudar no exterior e mais difícil para eles retornarem e encontrarem empregos. Graduados que tivessem permanecido em Israel deveriam ser cooptados.
– Koenig também propôs a montagem de uma campanha de difamação contra ativistas árabes, diminuindo os fundos disponíveis na comunidade árabe para apoiar causas políticas, e reduzindo a eficácia das organizações de estudantes árabes.
 

Embora o Governo de Israel não reconheça oficialmente que as políticas oficiais do governo foram guiados por este plano, algumas das recomendações Koenig foram integralmente implementadas, particularmente aquelas sobre a expansão de expropriações de terras de proprietários árabes e o estabelecimento de novos assentamentos judaicos na área, a fim de fragmentar e conter a população árabe e palestina em Israel.

É por isso que o Governo israelense incentiva qualquer judeu em qualquer lugar do mundo para vir e fixar residência em Israel, ao mesmo tempo em que nega sistematicamente aos palestinos o direito de retornar às suas terras; é por isso que os líderes políticos israelenses rotineiramente referem-se à crescente população árabe como uma “ameaça demográfica”; é por isso que desde que Israel foi fundado, mais de mil novas cidades e aldeias judaicas foram criadas, mas a nenhuma cidade ou vila árabe foi dada permissão legal para construir.

No caso da aldeia de Al Araqueeb seus moradores agora buscam uma solução no mínimo inusitada. Depois de recorrer aos tribunais israelenses durante anos e anos sem conseguir o reconhecimento de seus direitos, eles estão solicitando o registro deste triste recorde – 38  demolições – no Livro Guinness de Recordes Mundiais como forma de chamar a atenção internacional para o seu caso.

Eles acreditam que a atenção do mundo é o último recurso dos moradores desta aldeia para pressionar o governo israelense através da opinião pública e do direito internacional a reconhecer seus direitos de propriedade.

Mas aconteça o que acontecer, pessoas como Ismail Mohamed Salem não vão se render, nem desistir de suas terras. Ele já está reconstruindo a sua casa em Al Araqueeb, após a última demolição. “Esta é a minha terra“, diz o velho de 70 anos. “Por que eu deveria sair?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Estatísticas

  • 42,466 visitas
%d blogueiros gostam disto: