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Arábia Saudita, Qatar, Síria, Turquia

A conspiração de Doha: vazamento dos termos de um acordo secreto revela a identidade e as reais motivações dos inimigos do povo da Síria


BASHAR

Israel, Estados Unidos, Turquia e as monarquias do Golfo conspiram para derrubar o governo de Bashar al-Assad.

Em novembro de 2012 representantes de alguns grupos pró-ocidentais de oposição no exílio ao Governo de Bashar al-Assad reuniram-se em Doha, no Qatar, com o propósito declarado de buscar uma liderança de consenso que unificasse a atuação das várias facções rebeldes e a formação de um “governo provisório”, sob aval dos Estados Unidos e de Israel, para assim viabilizar uma intervenção militar do Ocidente no conflito sírio. Apesar da intensa pressão norte-americana, a tentativa de acordo fracassou, uma vez que um dos mais importantes grupos dissidentes, o Conselho Nacional Sírio, abandonou a mesa de negociações por ter sido preterido para o cargo de liderança da nova entidade criada, a auto-denominada “Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias”, que apesar de não contar com o apoio dos grupos rebeldes que combatem na Síria, foi reconhecida pela Turquia, Estados Unidos, Reino Unido e pela Liga Árabe como “representante legítimo do povo sírio”. Vale lembrar que os principais grupos armados que atuam na Síria, como a Frente Nusra, são ligados à Al Qaeda e considerados terroristas pelo governo americano, por isso, foram deixados ao largo das negociações.

Recentemente surgiram rumores de um acordo secreto realizado às margens da Conferência de Doha envolvendo o Primeiro-Ministro do Qatar e seu Ministro das Relações Exteriores na época, Hamad bin Jassim Al Thani; o primeiro-ministro turco, Ahmed Davutoglu, o ministro das Relações Exteriores dos Emirados Árabes, Abdullah bin Zayed Al Nahyan; o ex-embaixador dos EUA para a Síria, Robert Ford, o líder da então chamada coalizão de oposição da Síria, Riad Seif e o Presidente da Irmandade Muçulmana na Síria, Mohammed Riad Shaqfa.

Sem o conhecimento dos demais participantes da Conferência de Doha, os conspiradores firmaram um acordo com base em seis pontos, a serem implementados após a derrubada do presidente Bashar Al-Assad, tão logo fosse estabelecido um “novo” governo:

1. Redução do efetivo do Exército Sírio, para pouco mais da metade do que existe hoje, cerca de 110 mil.

Até o final da década de 60 a reputação do Exército sírio como força de combate era duvidosa. Suas fileiras estavam profundamente divididas por fatores étnicos e religiosos e apresentava um incrível recorde de fracassos militares, entre eles as derrotas frente a forças israelenses em 1948 e 1967. Mas a partir de 1970, quando o general Hafez al-Assad assumiu o Governo sírio, as forças armadas deste país árabe passaram por uma profunda transformação, profissionalizando-se e fortalecendo-se. Hoje o poderio militar da Síria é incontestável, sendo uma das maiores em pessoal e material bélico, não só no Oriente Médio mas também no mundo. Segundo o vice-diretor do Instituto de Análise Política e Militar da Russia, Aleksandr Khramchikhin, esta é a principal razão pela qual o Ocidente, apesar de sua retórica, não se arriscaria jamais numa intervenção militar direta contra Bashar al-Assad, uma vez que o custo – político, financeiro e militar – de uma campanha contra a Síria iria esgotar os países envolvidos, inviabilizando uma guerra contra o Irã por vários anos.
 

2. A assinatura de um tratado de paz definitivo entre Israel e a Síria, sob a supervisão de Washington, da União Européia e do Qatar, com a renúncia, pelo país árabe, de qualquer direito em relação às Colinas de Golan, que passariam a fazer parte do território israelense.

Em junho de 1967, Israel invadiu a Faixa de Gaza, a península do Sinai no Egito, a Cisjordânia e as Colinas de Golan, na Síria, no que ficou conhecido como a Guerra dos Seis Dias. Tendo neutralizado as forças árabes, o estado sionista ocupou militarmente as terras invadidas e, em relação à Síria, propôs um acordo de paz em troca da devolução das colinas de Golan. Esta proposta entretanto foi recusada, dentro do escopo da Resolução de Cartum, firmada em setembro daquele ano pelo mundo árabe. Após a Guerra do Yom Kippur em 1973 Israel devolveu cerca de 5% do território ao controle civil sírio. Esta parte foi incorporada a uma zona desmilitarizada ao longo da linha de cessar-fogo e se estende à leste, estando sob o controle militar das forças de paz da ONU, mantido porém o estado oficial de beligerância entre a Síria e Israel, que nunca assinaram um tratado de paz. Em 1981, Israel aprovou a Lei das Colinas de Golan, estendendo sua jurisdição ao território ocupado e inciou a construção de assentamentos. Esta atitude foi condenada pelo Conselho de Segurança da ONU na Resolução 497,  afirmando que “a decisão de Israel de impor suas leis, jurisdição e administração nas ocupadas colinas de Golã sírias é nula e sem efeito jurídico internacional”, rejeitando a ocupação e a posse ilegal de Israel sobre a área e considerando a região como um território soberano sírio.
 

3. O terceiro ponto, inserido entre as cláusulas deste “tratado de paz”, a exemplo do que foi imposto ao Egito no acordo de Camp David (1978) em relação ao fornecimento de gás, obrigaria a Síria a permitir a passagem das tubulações de água provenientes da Turquia para abastecimento de Israel.

O controle das águas da bacia do Jordão sempre esteve no cerne dos conflitos entre árabes e israelenses, e hoje tem sido utilizado por Israel para inviabilizar a criação de um Estado Palestino. Israel controla os suprimentos de água na Cisjordânia e na Faixa de Gaza desde o início da ocupação, em 1967. Segundo Yehezkel Lein, um expert em água do grupo de direitos humanos B’tselem, “há uma clara ligação entre a ocupação e a escassez de oferta de água. Israel tirou proveito de sua ocupação da Cisjordânia para se apropriar de mais fontes de água e impedir os palestinos de explorar novas fontes”, o que certamente impede a criação de um Estado viável, uma vez que mais de 80% de sua água dependeria da boa-vontade de Israel. É crescente a pressão da comunidade internacional para o fim da política de assentamentos em áreas ocupadas e para que o Estado sionista cumpra os termos do Acordo de Paz de Oslo (1993), dando aos palestinos maior controle sobre a água da região e mais acesso a recursos hídricos. Nesse caso, os especialistas prevem escassez crônica de água em Israel. Em 2002, Israel e Turquia firmaram um acordo de intenções que previu a venda de 50 bilhões de litros d’água por ano. O plano foi aprovado pelo gabinete israelense em janeiro de 2004 mas tem esbarrado no alto custo da operação, uma vez que a água captada no rio Manavgat, no sul da Turquia, deveria ser transportada até o porto de Ashkelon em Israel, distante cerca de 600 quilômetros, através de gigantescos navios-tanque especialmente projetados para tal fim. A alternativa mais viável seria a construção de um aqueduto que atravessasse o território da Síria, o que, desde aquela época, foi considerado “impossível politicamente”. A queda de Bashar al-Assad e a instalação de um governo subordinado aos interesses ocidentais removeria tal ‘impossibilidade”.
 

4. O novo regime sírio, sob a supervisão e apoio de Washington, estaria obrigado a se livrar de todas as chamadas “armas de destruição em massa”, o que inclui seu arsenal químico e biológico, além de mísseis de médio e longo alcance.

Mais uma vez, outro dos pontos “acordados” refere-se ao desmantelamento da capacidade militar da Síria, no sentido de neutralizá-la no caso de um ataque ao Irã. Mais do que as armas químicas e biológicas – cujo cuidado especial prevê a “supervisão e apoio de Washington”, para que não caia em mãos erradas, ou seja, jihadistas ligados à Al Qaeda – o objetivo maior refere-se às baterias de mísseis de longo alcance, capazes de atingir alvos em Israel e bases da OTAN, e ao armamento voltado para defesa anti-aérea. A Síria possui um poderoso arsenal balístico, que vão desde os mísseis Scud C (500 km de alcance) e Scud D (700 km), adquiridos na década de 90 até os modernos Yakhonts, que apesar de ter menor alcance (289 km) possui recursos de última geração, como o controle por sistemas de radar de longo alcance, e localizador autônomo que permite um sistema autônomo de radar que ajuda a burlar as defesas de navios de guerra para conseguir atingir seu alvo. Segundo analistas do governo americano, o poder de fogo desta arma faz com que as tropas de Assad possam manter o controle do país, mesmo se criada uma zona de exclusão aérea ou um embargo a navios militares. Além dos Yakhonts, a Síria conta com baterias de defesas anti-aéreas Pantsir S1E, mísseis táticos de longo alcance (400 km) Iskander e recentemente recebeu os sofisticados mísseis anti-aéreos S300 da Rússia. Considerando que o controle do espaço aéreo da Síria reveste-se de importância estratégica para qualquer ataque israelense contra o Irã, explica-se a necessidade de neutralizar seu fabuloso poder de defesa, sem esquecer que este mesmo espaço aéreo possibilita uma rota de retaliação segura para a aviação iraniana.
 

5. O novo regime sírio assumiria o compromisso de rechaçar as iniciativas separatistas da Brigada Iskenderun, além de ceder à Turquia partes de seu território na fronteira com o país otomano, onde existem aldeias habitadas por turcomanos nas províncias de Aleppo e Idlib. Neste ponto também consta a expulsão de todos os combatentes do PKK e sua extradição, e a inclusão do partido em sua lista de organizações terroristas.

 
http://www.dailymotion.com/video/xz5zjp_popular-front-for-the-liberation-of-iskenderun-brigade-syria-17-april-2013_news
  
A província de Hatay, situada no sul da Turquia é um enclave entre o Mediterrâneo e a Síria, a quem pertencia até 1918, quando o governo francês a cedeu para a Turquia (a Síria era protetorado francês), a fim de garantir a aliança franco-turca diante da eminente guerra contra a Alemanha. Nessa época, a região era denominada Sandzaki de Alexandreta, e foi então rebatizada de Iskenderun pelos turcos. Nesta região vive hoje uma importante minoria árabe, com forte percentual de cristãos ortodoxos, que vêm se opondo firmemente ao apoio de Ankara aos terroristas que combatem contra Bashar al-Assad. Desde fevereiro de 2013, ativistas pró-Síria vêm organizando manifestações através das redes sociais, que tem evoluído de simples protestos contra o Governo turco para um viés separatista. Segundo o movimento, denominado Frente de Libertação Popular Brigada Iskenderun, a motivação dos protestos são “os contínuos ataques à Síria pelo governo de Erdogan”, acrescentando que “temos estado sob ocupação há mais de oito décadas, e queremos nos separar da Turquia e voltarmos para nossa Pátria-Mãe Síria”. Segundo os ativistas, o movimento já conta com números capazes de “dominar as forças do governo turco e que já estão prontos para enfrentar uma reação violenta como já aconteceu em outras manifestações contra o governo Erdogan”. Outro ponto sensível tratado pelos conspiradores de Doha refere-se aos curdos. Os curdos são grupo étnico homogêneo nativo de uma região frequentemente referida como Curdistão, que inclui partes adjacentes do Irã, Iraque, Síria , Turquia , Armênia e Georgia. Aproximadamente 55% dos curdos no mundo vivem na Turquia, compondo cerca de 20% da população do país otomano. A partir de meados do século XX, ocorreram rebeliões separatistas curdas na Turquia e no Iraque, sempre reprimidas com violência. Em 1984 o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PPK) inicia uma luta armada contra o governo turco, contando com o apoio da Síria, o que quase provocou uma guerra entre estes países, no final de 1998. Embora a relação entre o governo sírio e a minoria curda nem sempre tenha sido amena, o fato é que a queda de Bashar al-Assad e a constituição de um novo governo alinhado com os interesses turcos poderia desencadear uma limpeza étnica na região, não apenas contra os curdos mas também contra outras minorias.
 

6. Finalmente, o sexto ponto trata do cancelamento de todos os contratos com empresas russas e chinesas nas áreas de exploração de recursos subterrâneos (gás e petróleo) e comércio bilateral de armas.

PipelineSe a primeira vista este ponto trata simplesmente de uma retaliação contra o apoio russo a Bashar al-Assad, a verdade é que envolve questões bem mais complexas, e que explicam o interesse do Qatar e da Arábia Saudita na deposição do Governo sírio. O consumo de gás liquefeito na Europa é de 500 bilhões de metros cúbicos por ano, adquiridos principalmente da Rússia e do Qatar, que possuem respectivamente a primeira e o terceira maiores reservas de gás natural do mundo. Especialistas preveem que até 2030 o gás natural será o principal combustível consumido na Europa, e revela que os interesses sobre a exploração e o transporte do gás estão no cerne do conflito na Síria, colocando em lados antagônicos dois grupos de países: Rússia, China, Irã e Síria de um lado, e EUA, Europa, Turquia, Arábia Saudita, Qatar e Israel do outro. Explica-se: Até antes do conflito na Síria, haviam cinco novos projetos para o abastecimento do mercado europeu. North Stream e South Stream, ambos desenvolvidos pela Rússia, que levariam gás russo até a Alemanha, através do Mar Báltico; e até o norte da Itália, através de gasodutos que atravessariam a Bulgária, Grécia, Hungria e Áustria. Juntos poderiam fornecer à Europa cerca de 60 bilhões de m3/ano. O terceiro projeto é o Nabucco, dos EUA/União Européia, que tenciona trazer o gás do Turcomenistão e Azerbaidjão através da Turquia, Bulgária, Romênia, Hungria, República Checa, Eslováquia e Itália, com capacidade para transportar 31 bilhões de m3/ano. O quarto projeto resultou da assinatura de  um memorando de entendimento entre o Irã, Iraque e Síria em 2011 para fornecimento de gás iraniano à Síria através do Iraque, com um gasoduto de terra de cerca de 1500 km. Em seguida, o pipeline iria atravessar o Mar Mediterrâneo até a Grécia (“saltando” assim a Turquia). A capacidade estimada de fornecimento seria de cerca de 40 bilhões de m3/ano. Curioso perceber que a revolta na Síria começou a crescer há dois anos, quase ao mesmo tempo da assinatura deste memorando sobre a construção de um novo gasoduto Irã-Iraque-Síria. Finalmente, o quinto projeto, desenvolvido pelo Qatar, com a participação da Turquia e de Israel, levaria o gás produzido no Qatar através da Arábia Saudita e Jordânia até a Síria. A partir do território sírio, continuaria em três direções: o porto de Latakia, na Síria, o porto de Tripoli, no Líbano e a Turquia, de onde seria levado até a Europa. Para o Qatar e a Arábia Saudita esta via é de especial importância, uma vez que um conflito entre Israel e seus aliados ocidentais contra o Irã provocaria o bloqueio do Estreito de Ormuz, inabilitando suas exportações de gás e petróleo para a Europa. Por isso o “Projeto Qatar” tem recebido o aval dos Estados Unidos, da Europa e de Israel, o que explica o apoio dado aos terroristas que tentam derrubar Bashar al-Assad. 
 

Entende-se então claramente que o gás natural foi a razão pela qual o Ocidente e a Turquia se aliaram às monarquias do Golfo para insuflar a revolução na Síria. Uma guerra que está sendo travada pelos lucros bilionários de um novo canal de abastecimento de gás para a Europa. Tendo percebido que o gasoduto Nabucco, e na verdade, todo o Corredor Meridional, são apoiados apenas por reservas do Azerbaijão e nunca se igualarão aos fornecimentos russos para a Europa, o Ocidente está com pressa para substituí-los com os recursos do Golfo Pérsico. E a Síria acaba sendo um elo fundamental nessa cadeia, e como ele se inclina em favor do Irã e da Rússia, o Ocidente e as monarquias do Golfo decidiram que era hora de mudar o governo sírio. A luta pela “democracia”, a defesa dos direitos humanos, as causas humanitárias, são todas falsas bandeiras desfraldadas para encobrir objetivos bem menos nobres.

Para saber mais:

http://www.strategic-culture.org/news/2013/05/31/the-geopolitics-of-gas-and-the-syrian-crisis.html
https://mkninomiya.wordpress.com/2012/02/15/o-que-de-fato-vem-acontecendo-na-siria/
https://mkninomiya.wordpress.com/2012/04/08/deixem-a-siria-em-paz/
https://mkninomiya.wordpress.com/2012/05/06/cristaos-da-siria-defendem-assad-e-atacam-franca-e-eua/
https://mkninomiya.wordpress.com/2012/05/19/eua-coordenam-envio-de-armas-a-oposicao-siria/
https://mkninomiya.wordpress.com/2012/06/06/assad-nao-e-o-vilao-que-o-ocidente-pinta-ele-modernizou-a-siria-a-industrializou-levou-tecnologia-para-o-pais-e-agora-moleques-radicais-sunitas-que-acreditam-que-se-morrerem-vao-direto-para-o-c/
https://mkninomiya.wordpress.com/2012/06/07/conflito-na-siria-uma-avaliacao-independente-entrevista-com-a-jornalista-anhar-kochneva/
https://mkninomiya.wordpress.com/2013/05/08/conflito-na-siria-o-verdadeiro-inimigo-mostra-a-sua-face/
https://mkninomiya.wordpress.com/2013/05/31/conflito-na-siria-chega-ao-seu-momento-critico-consolidando-se-a-vitoria-de-bashar-al-assad-sobre-os-terroristas-asseclas-de-israel-e-do-ocidente/
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