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Combate ao terrorismo, Estado Islâmico, Extremismo Islâmico, Líbia

O Estado Islâmico na Líbia faz parte da herança maldita deixada pela conspiração que derrubou Muammar al Gaddafi em 2011. O Ocidente tem o que temer!


estado islamico libia

O assassinato de 21 trabalhadores egípcios – todos da minoria copta (cristãos) – no último dia 15 de fevereiro, abriu os olhos do Ocidente em relação à ameaça do Estado Islâmico na Líbia

Foi no dia 18 de fevereiro de 2011 que aconteceu o chamado “dia da fúria”, quando no rastro da “Primavera Árabe” a oposição líbia convocou protestos por todo país, que foram duramente reprimidos pelas forças de segurança e deram início à  conspiração orquestrada pelas potências ocidentais que resultou na deposição de Muammar al Gaddafi.

Hoje, exatamente quatro anos depois, não há o que comemorar. Não há democracia, não há segurança, não há direitos humanos, não há produção de petróleo, não há prosperidade, nada do que os conspiradores prometeram ao povo líbio. “Os líbios deveriam chorar”, dizia Gaddafi quando se referia à revolta. E suas palavras ainda ressoam proféticas: a Líbia vive, seguramente, o pior momento de sua história desde a sua queda em 2011. As principais cidades do país, inclusive a capital Trípoli, vem sendo diariamente acossadas por furiosos combates entre milícias armadas, que bloqueiam a vida econômica do país e levam terror e medo à população. Tudo é caótico, instável, imprevisível, uma realidade anárquica e mortal, um terreno perfeito para a proliferação de extremistas que agora ameaçam tomar parte do país e transformá-lo numa “porta de entrada estratégica” para “ações operacionais na Europa”.

O assassinato de 21 trabalhadores egípcios – todos da minoria copta (cristãos) – no último dia 15 de fevereiro, abriu os olhos do Ocidente em relação à ameaça do Estado Islâmico na Líbia, embora este não tenha sido sua primeira grande ação midiática no país. Em janeiro militantes do EI atacaram o hotel Corinthia, no coração da capital Trípoli, que terminou com a morte de nove pessoas, entre elas cinco estrangeiros. Segundo o coronel Ahmed al-Mesmari, porta-voz do Exército Líbio, “há células adormecidas em cada cidade, que mantêm relação direta com (o líder do EI, Abu Bakr) al-Bagdadi. Irão ocorrer outras operações terroristas contra os líbios ou os estrangeiros residentes na Líbia”.

Segundo analistas, a execução dos cristãos egípcios foi um recado direto do Estado Islâmico para demonstrar ao público jihadista que seu braço na Líbia já está desenvolvido e que é a mais potente de todas as filiais do grupo fora do território sírio-iraquiano. E essa realidade está apavorando as potências ocidentais, até porque uma intervenção nesse país não poderia se processar como hoje acontece no Iraque, cujo Governo colabora com as ações militares, nem ter o apoio tácito de um governo constituído que também faz frente contra o Estado Islâmico, como na Síria de Bashar al-Assad. O fato é que qualquer intervenção estrangeira para conter o Estado Islâmico deve levar em consideração que a emergência dos extremistas islâmicos em meio ao caos e à violência que tomaram conta do país desde a queda de Muammar Gaddafi é decorrência de uma das situações políticas mais complexas no Oriente Médio, que não pode ser explicada através da simples dicotomia que contrapõe islamitas e secularistas, ou partidários e inimigos do regime deposto.

king of the kings

Reunião de líderes tribais leais a Gaddafi em março de 2011. Trípoli.

Para entender a situação é preciso compreender que ao depor Gaddafi as potências ocidentais não derrubaram apenas o Chefe de Estado de uma nação livre e soberana, mas o líder de 140 nações, tribos (qabila) que existiam antes mesmo da própria Líbia e que a partir de 1969 passaram a constituir a Jamahiriya ou “Estado das massas”, onde o poder, numa forma bastante peculiar de democracia direta, era exercido através de conselhos populares locais, que na prática eram uma extensão das estruturas tribais, sendo o poder central responsável pelas políticas de Estado, a segurança nacional e a condução da economia e das relações exteriores. Nunca houve partidos políticos na Líbia, onde os postos da administração eram distribuídos por afiliação tribal e a política interna funcionava em torno das alianças e disputas entre as tribos.

Com a vitória dos conspiradores e o fim da Jamahiriya houve também a implosão de toda estrutura social líbia, baseada neste complexo equilíbrio de forças entre as tribos mais influentes, que somente se mantinha estável pelo poder exercido por Gaddafi. Hoje a Líbia encontra-se à mercê do separatismo das diversas facções que a constituem. A deposição de Muammar Gaddafi transformou a ordem, até então reinante, num caos em que ninguém sabe quem manda. O poder está disperso pelas ruas e regiões do país, que assiste os ataques perpetrados por milícias armadas, um pouco por todo o lado.

Neste cenário, que ainda tem como um dos principais protagonistas o grupo islamista radical Ansar al-Sharia, era só uma simples questão de tempo até que o Estado Islâmico estabelecesse bases na Líbia, com o consentimento e até mesmo o apoio das lideranças tribais, cada qual agindo apenas segundo suas conveniências e interesses. Um exemplo é a cidade de Derna – controlada pelas tribos Warfallah e Misrata, os quais se juntaram a grupos extremistas islâmicos, como o Ansar al- Sharia e a Al Qaeda – que há muito tempo é centro de recrutamento de islamistas radicais, e que segundo seus habitantes é a cidade, em todo o mundo, que mandou mais “combatentes da liberdade” para o Iraque e a Síria.

Dessa forma, qualquer intervenção estrangeira poderá encontrar apoio ou oposição por parte de cada uma destas tribos – que novamente agirão somente de acordo com suas conveniências e interesses – o que só aprofundará os conflitos internos e a escalada de violência no país.

Omar al Mokhtar foi o líder do povo líbio em sua revolta contra as forças coloniais italianas. Foi preso e enforcado em setembro de 1931.

Omar al Mokhtar foi o líder do povo líbio em sua revolta contra as forças coloniais italianas. Foi preso e enforcado em setembro de 1931. Em 2008 a Itália finalmente reconheceu os crimes de guerra cometidos durante a Pacificação da Líbia, assinando  um acordo de compensação. Na ocasião, o líder líbio Muammar al Gaddafi portou esta foto ao lado de suas insígnias militares.

O Ocidente tem realmente o que temer. A Itália tem o que temer, não pelo fato de serem cristãos, mas pelos bárbaros crimes cometidos durante o período colonial, em especial durante a chamada “Pacificação da Líbia”, quando as forças armadas italianas cometeram inúmeros crimes de guerra contra o povo líbio, como o bombardeio deliberado de civis, a matança de crianças desarmadas, mulheres e idosos, violação de mulheres, execuções diárias regulares de civis e o uso de gás mostarda em bombardeios de aldeias tribais, além da limpeza étnica através da expulsão forçada de aproximadamente 100.000 beduínos na Cirenaica, para distribuição das terras a colonos italianos. 

 Em tempo: O  reconhecimento formal dos crimes de guerra e contra a humanidade praticados contra o povo líbio aconteceu em 2008, quando foi assinado um acordo de compensação pelos danos causados à Líbia durante o domínio colonial italiano. Na cerimônia de assinatura do documento, o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi declarou: “Neste documento histórico, Itália pede desculpas pela morte, destruição e repressão do povo líbio durante o período de domínio colonial.”

Apêndice:  A Líbia e suas Tribos, uma resenha histórica

A tribo – com os seus clãs e subdivisões – foi a única instituição que ao longo de séculos organizou a sociedade dos árabes que habitam as regiões colonizadas por italianos no início do século XX, chamadas Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan, que unificadas pelo europeu colonizador, deram origem à atual Líbia.

A Tripolitânia era uma colônia fenícia desde o século VII a.C. e depois de passar pela ocupação romana (46 a.C.), foi colonizada pelos árabes no século VII e pelos otomanos no século XVI, quando então foi reunida à Cirenaica. No entanto, num período nos séculos 18 e 19 a Tripolitânia se tornou um país independente. Em 1835, voltou ao domínio otomano, de novo reunida à Cirenaica.

A Cirenaica foi colonizada inicialmente pelos gregos em torno do século VII a.C., pelos romanos, a partir do século I a.C.. e pelos árabes no século VII, sendo unida à Tripolitânia quando da ocupação pelos otomanos no século XVI.

O Fezzan, habitado imemorialmente por tribos berberes, só entrou na História no século I a.C., quando foi ocupado pelos romanos, sucedidos igualmente pelos árabes no século VII. Os otomanos só chegaram no século XIX, nos anos 1840, quando o Fezzan foi reunido numa unidade administrativa com a Tripolitânia e a Cirenaica.

Em 1912 a Itália derrotou o Império Otomano e ocupou as três regiões, a que deu o nome de Líbia. Não por mórbida coincidência, o pretexto italiano para iniciar a guerra contra o Império Otomano foi o de proteger cidadãos italianos na Tripolitânia e Cirenaica devido a supostas ameaças de extremistas muçulmanos. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, com a vitória dos Aliados, o domínio italiano é sucedido por uma ocupação militar por parte da Grã Bretanha (região da Cirenaica e Tripolitania) e França (Fezzan). Em 1949, sob pressão soviética (que preconizava uma tutela coletiva para a região) a ONU aprovou uma Resolução que previa a Líbia como Estado independente até 1952. Em junho daquele mesmo ano a Cirenaica foi declarada independente e em 1951, após difíceis negociações com as lideranças tribais da Tripolitânia e Fezzan, toda Líbia tornou-se independente, uma federação formada por estas três províncias sob o governo do emir da Cirenaica, o rei Muhammad Idris Io al-Sanusi.

Ocorre porém que a independência da Líbia havia sido uma farsa orquestrada pela Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, que almejavam controlar o petróleo, que já se sabia, era abundante na região. Na prática pouca coisa havia mudado: as potências ocidentais é quem davam as ordens e controlavam a economia. O direito à exploração de seus recursos naturais foram concedidas a empresas americanas, britânicas, francesas e italianas, que controlavam nada menos que 75% da economia do país, subsidiando e dando apoio militar (americanos e britânicos mantinham tropas no país desde 1954) à Monarquia, que entretanto, e apesar dos recursos provenientes do petróleo, nunca foi capaz de melhorar a situação econômica e social de seu povo, provocando o acúmulo de uma grande insatisfação de caráter nacionalista e islâmico.

No final dos anos 1960 uma onda de manifestações tomou corpo no país, e em 1969 as tribos da Tripolitânia dão apoio ao golpe de Estado promovido pelo então capitão Muammar al Gaddafi – à época com 27 anos. Era o fim da Monarquia e o início de uma nova era para Líbia.

Os revolucionários implementaram um amplo programa de nacionalização de empresas, bancos e das riquezas naturais – petróleo – permitindo que a Líbia se livrasse do jugo e da exploração promovida pelas potências ocidentais. Muammar al-Gaddafi conduziu a Líbia por 42 anos, e durante este tempo o país experimentou um excepcional crescimento econômico e social, porque grande parte das enormes rendas provenientes do petróleo foram conduzidas para a implementação de programas sociais, que levaram a Líbia a ter o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente africano e a menor dívida pública do mundo. Entretanto, nem mesmo a prosperidade econômica e os avanços sociais foram capazes de neutralizar completamente as rivalidades e desavenças tribais, que ficaram latentes até 2011, quando foram utilizadas como catalizador para inflar os protestos contra o Gaddafi, culminando na eclosão de uma guerra civil que arrasaria o país.

A Revolta dos Ratos

A revolução líbia foi dessa forma uma revolução tribal, ou uma “revolução de ratos”, como a ela se referiu Muammar Gaddafi.  Ao contrário de outras “Primaveras Árabes” vividas em outros países, na Líbia não foram os jovens intelectuais, nem os operários, nem a classe média urbana, que iniciaram a rebelião contra o governo instalado, mas sim parte desse poder: as tribos.

As tribos da Cirenaica controlaram a Monarquia enquanto esta durou, de 1951 a 1969, e o próprio Gaddafi é oriundo de uma pequena tribo do mesmo nome, da Tripolitânia, e foi como cabeça das tribos da Tripolitânia que ele derrubou a monarquia. A revolução líbia repetiu esse quadro, ao contrário, com a rebelião tendo sido liderada pelas principais tribos da Cirenaica, em especial os Warfallah.

Não por acaso a rebelião teve início em cidades como Benghazi, Al Bayda’ e Derna, controladas pelas tribos Warfallah e Misrata. Aos rebeldes rapidamente se juntaram grupos extremistas islâmicos, como o Ansar al- Sharia e a Al Qaeda, que financiados pelas agências de inteligência das potências Ocidentais não tiveram dificuldade em cooptar líderes de outras tribos para sua “revolução”. Das tribos mais importantes, juntaram-se aos rebeldes os Margaha (que em 1993 já haviam tentado uma rebelião), Awlad Ali, dos territórios próximos à fronteira do Egito, e os Az Zawiyya, que controlam regiões petrolíferas na Cirenaica. Ao lado de Gaddafi ficaram os Barasi, Taruna e os Zentan, além dos tuaregues, que mais tarde sofreriam terrível perseguição pelas milícias rebeldes (https://mkninomiya.wordpress.com/2012/06/04/caos-na-libia-tuaregues-fogem-para-a-argelia-em-meio-a-relatos-de-limpeza-etnica/).

Com as vitórias no campo militar garantidas pela intervenção direta das potências ocidentais, os líderes rebeldes reuniram-se no chamado Conselho Nacional de Transição (CNT), logo reconhecido pelo Ocidente e alçado à “único representante de toda a Líbia”. Ao final da revolta, o CNT  assumiria de forma oficial o governo do país. Sintomaticamente, a bandeira da “nova” Líbia é a bandeira da antiga monarquia…

A Líbia envolta em caos

A vitória dos rebeldes e a morte de Muammar al-Gaddafi não representaram o fim da violência, nem o restabelecimento da ordem, nem o surgimento de instituições nos moldes da “democracia” ocidental, como preconizaram Washington e Londres ao anunciarem o apoio da OTAN à insurgência na Líbia. Pelo contrário, agora livres do poder “moderador” exercido por Gaddafi, as lideranças tribais procuraram garantir – através das armas – sua hegemonia no novo governo, buscando consolidar e até mesmo ampliar suas posições nos “territórios libertos”. Foi assim que, enquanto discutiam politicamente a formação de um novo Governo, milícias tribais ocupavam as cidades líbias, lutando entre eles pela supremacia e a obtenção do mais amplo controle territorial possível, algumas delas com o apoio de extremistas que hoje seguem as diretrizes do Estado Islâmico e que ameaçam tomar conta de parte do país.

As perspectivas para o futuro são sombrias. É muito possível que a Líbia desapareça e se demarquem territórios auto-governados, controlados pelas tribos, como no Afeganistão e na Somália. Seja lá o que for que venha acontecer, não parece haver meio de evitar que a Líbia seja partida em territórios tribais, nem que parte deste território caia nas mãos de extremistas islâmicos para fazer parte do grande califado anunciado pelo Estado Islâmico.

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