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Extremismo Islâmico

Je ne suis pas Charlie! A França deve pagar o preço por seus pecados!


Ferido é retirado da redação do Charlie Hebdo. Ataque que deixou 12 mortos e 11 feridos foi motivado pela publicação de charges ofensivas ao Islã. Revista satírica representa bem o que é a França hoje: uma piada de mau-gosto.

Ferido é retirado da redação do Charlie Hebdo. Ataque que deixou 12 mortos e 11 feridos foi motivado pela publicação de charges ofensivas ao Islã. Revista satírica representa bem o que é a França hoje: uma piada de mau-gosto.

Stéphane Charbonnier era diretor do jornal satírico francês Charlie Hebdo desde maio de 2009. Em 2013 teve seu nome incluso numa lista de personalidades “procuradas mortas ou vivas, por crimes contra o Islã”, em razão da publicação de caricaturas do Profeta Maomé, passando a viver sob proteção policial.

Naquele mesmo ano, em entrevista ao jornal “Le Monde”, o caricaturista francês reagiu com desdém às ameaças que vinha recebendo: – “Pode soar um pouco pomposo, mas eu prefiro morrer de pé a viver de joelhos”, disse Stéphane Charbonnier. No último dia 07 de janeiro de 2015 seu desejo foi realizado: ele e mais 11 pessoas, entre as quais dois outros ícones da caricatura na França, Jean Cabut e Georges Wolinski, foram assassinadas por dois homens armados que invadiram a redação do Charlie Hebdo. Segundo seus próprios algozes, uma vingança pelas ofensas cometidas pelo jornal contra o Profeta Maomé e a fé islâmica. “Charlie Hebdo morreu“, teria dito um dos criminosos.

Dois dias depois, após uma mega-operação policial e mais um incidente envolvendo supostos “terroristas islâmicos”, os autores do atentado, identificados como sendo os irmãos Sarif e Chérif Kouachi, foram mortos por homens do Grupo de Intervenção da Polícia Francesa (GIGN), após invadirem e tomarem reféns numa gráfica em Dammartin-en-Goële, no nordeste de Paris.

Assim como aconteceu após o atentado ao WTC em 11/09, os teóricos da conspiração não tardaram em lançar dúvidas quanto aos verdadeiros autores e as razões para o ataque ao Charlie Hebdo. Em suas versões fantasiosas, os terroristas seriam na verdade agentes do serviço secreto francês, da CIA ou do Mossad, cujo objetivo seria o de fomentar a islamofobia na Europa para justificar o aumento da presença Ocidental no Oriente Médio e na África islâmica, em nome da “guerra contra o terror”. Outros ainda buscam responsabilizar Tel-Aviv e Washington pelo atentado de “falsa-bandeira”, identificando na ação “o primeiro episódio de um processo visando criar uma situação de guerra civil”. Mais à direita, xenófobos e racistas de toda a Europa experimentam delírios orgásmicos  ao atribuírem o atentado à ação de terroristas ligados à organizações extremistas islâmicas, no que são satisfeitos pela estupidez oportunista de uma destas organizações, o braço iemenita da Al Qaeda, que tardiamente (14/01) divulgou um vídeo assumindo a responsabilidade pelo ataque. Na gravação, o líder da Al Qaeda na Península Arábica (AQAP), Nars al-Ansi, diz textualmente: – “Fomos nós que escolhemos o alvo, financiamos a operação e recrutamos o chefe. (…). A operação foi realizada por ordem de nosso emir Ayman al-Zawahiri e de acordo com a vontade póstuma de Osama Bin Laden“.

Com quem está a VERDADE?

Nesse ponto, uma pausa para reflexão. Imagine uma cena cotidiana da vida selvagem. Um bando de macacos foge assustado do ataque de um predador, um gavião, por exemplo. Em sua desabalada carreira, alguns macacos sacodem o galho de uma árvore que pende sobre o rio. No galho, alguns filhotes de pássaros caem dos ninhos e antes mesmo que se afoguem são devorados por outro predador, um peixe carnívoro. De quem é a culpa? Alguns dirão que a culpa é do gavião, porque foi sua ação de caça que deu início à sequencia de fatos que provocou a morte dos pássaros. Outros dirão que a culpa é dos macacos, porque foi sua desastrada fuga que derrubou os filhotes dos ninhos. Outros dirão ainda que a culpa é do peixe carnívoro, porque autor direto da morte das aves. Quem está com a razão? Como se pode observar, a interpretação dos fatos depende sempre do ponto de vista de quem os observa. Mas o que não é aceitável é acreditar que o gavião, os macacos e o peixe carnívoro conspiraram para derrubar as aves do ninho, e que toda trama teria sido calculada, premeditada, para que gerasse aquele resultado. Então, ao invés de buscarmos as razões dos fatos em teorias conspiratórias, que tal lançar um olhar sem filtros e sem pré-conceitos – simples em sua essência, mas esclarecedor em sua análise – sobre o ocorrido?

Zombar do Islã e dos muçulmanos é uma velha tradição da França. Esta estampa retrata muçulmanos decapitados em Marrocos pelos franceses e utilizadas como selo francês. 1922

Zombar do Islã e dos muçulmanos é uma velha tradição da França. Esta estampa retrata muçulmanos decapitados em Marrocos pelos franceses e utilizadas como selo francês. 1912

A França de hoje é uma caricatura do outrora poderoso império colonial que partilhou a África. a Ásia e as Américas com outras potências europeias. Desde então, em sua trajetória decadente, escreveu os mais tristes episódios da história africana e deixou um legado de injustiças, miséria e morte. O sistema colonial francês, fundado na superexploração, trabalhos forçados das populações nativas e expropriação de terras, produziu os países mais pobes e degradados do Continente Africano, além de ser racista e claramente discriminatório contra as populações muçulmanas: enquanto cristãos e judeus locais eram considerados franceses perante a lei, os muçulmanos não tinham o mesmo status, sendo muitas vezes julgados por códigos legais destinados às populações nativas. Crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos pelos colonos franceses e seus exércitos de ocupação foram marcantes durante o processo de independência de suas ex-colônias, em particular no caso da Guerra de Independência da Argélia, onde as tropas francesas recorreram de forma banal à execuções sumárias, massacres* e torturas. Veja o que diz o historiador Pierre Vidal-Naquet: -“ficou patente que na Guerra da Argélia (os franceses) rasgaram a Convenção de Genebra (…). Essa convenção, um marco na história dos direitos humanos, virou letra morta na Argélia. Não era essa uma preocupação dos militares franceses naquele momento. Obcecados por um racismo que desumanizava os autóctones, árabes muçulmanos, eles disseminavam preconceitos para estigmatizar os argelinos“.

Devido ao seu passado colonial, não surpreende que a França é o país com a maior comunidade muçulmana da Europa, com cerca de 6,2 milhões de fiéis (aproximadamente 10% da população francesa). São, na maioria, imigrantes das ex-colônias, que entretanto não encontraram a acolhida que esperavam, sendo marginalizados e discriminados. Grande parte dessas pessoas é pobre, legada à condição de “cidadão de segunda classe” e vítimas de preconceitos e exclusões, num país onde a xenofobia tem crescido na mesma proporção em que se agrava a crise econômica. E a história já mostrou que a exploração populista do nacionalismo xenófobo pode trazer consequências desastrosas para os países que trilham esse caminho.

Entretanto, apesar de contabilizar mais de 3,5 milhões de desempregados,  ausência de crescimento,  e a perda de competitividade de sua economia, o já desacreditado governo francês continua sonhando em recuperar o prestígio imperial, gastando centenas de milhões de euros para manter cerca de 8 mil soldados em diferentes intervenções militares, na África, Ásia Central e Oriente Médio, onde colabora com os EUA em sua guerra contra o Estado Islâmico, além de atuar ativamente na operação da OTAN contra a Síria, introduzindo mercenários e armas.

Chérif Kouachi e Said Kouachi, autores do ataque à revista 'Charlie Hebdo' (Foto: Reuters)

Chérif Kouachi e Said Kouachi, autores do ataque à revista ‘Charlie Hebdo’ (Foto: Reuters)

Ora, os irmãos Kouachi eram cidadãos franceses, descendentes de argelinos, moradores da periferia de Paris. Tinham histórico de uso de drogas, violência, passagens pela polícia e não tinham emprego fixo. Em outras palavras, eram desajustados – vítimas da marginalização e da discriminação contra imigrantes – vivendo num país desajustado. A partir de 2003, Cherif Kouachi passou a seguir os cursos religiosos de um jovem “emir”, chamado Farid Benyettou, e foi se convertendo ao islamismo, o que o levou a parar de fumar maconha. Preso em 2005, foi libertado em 2010. Em 2011 viajou para o Iêmen com seu irmão Sarif, onde, segundo fontes da inteligência iemenita, receberam “treinamento militar”. – “Esses dois irmãos chegaram em Omã em 25 de julho de 2011, e de Omã eles entraram ilegalmente no Iêmen, onde permaneceram por duas semanas. (…) Eles encontraram com Anwar al-Awlaki (líder da Al Qaeda) e foram treinados por três dias nos desertos de Marib sobre como atirar uma arma. Eles retornaram a Omã e deixaram Omã em 15 de agosto de 2011, voltando para a França.”

Ter uma Bíblia na cabeceira não faz de ninguém um cristão, assim como ter frequentado “cursos religiosos” não fez de Cherif Kouachi um muçulmano. Da mesma forma, três dias de “treinamento” no Iêmen não transformaram os Kouachi em perigosos assassinos. Resta claro então que o ataque ao Charlie Hebdo não foi uma ação orquestrada e executada por uma organização islâmica extremista, nem os Kouachi eram terroristas, embora claramente influenciados pelo discurso jihadista de seu mentor na França. O ataque foi um ato de loucura, talvez uma vingança, não apenas pelas ofensas ao Islã e ao Profeta Maomé, mas fundamentalmente uma vingança contra a o país e a sociedade que lhes impôs a marginalização, a discriminação e a exclusão dos quais eram vítimas, franceses de “segunda classe” porque descendentes de imigrantes muçulmanos.

Os “terroristas” não eram agentes da CIA ou do Mossad, nem tão pouco militantes da Al Qaeda. Eram apenas jovens franceses marginalizados, sem perspectiva de futuro, que se deixaram seduzir pelo discurso jihadista. Mataram para “vingar o profeta”, mas poderiam tê-lo feito por qualquer outro motivo. Talvez se os milhões de dólares gastos pelo governo francês para manter suas operações militares no Mali, no Afeganistão, na Síria e no Iraque fossem investidos para amenizar os efeitos da crise econômica sobre as famílias mais pobres da França – muitas delas de imigrantes muçulmanos – o ataque ao Charlie Hebdo não tivesse acontecido.

O verdadeiro culpado pelo massacre é portanto o Governo francês. Culpado por ação (ao intervir politica e militarmente no Oriente Médio e na África, provocando a ira dos fundamentalistas islâmicos) e culpado por omissão (ao não praticar uma política de inclusão social e econômica em relação aos imigrantes e outras minorias). Seja como for, os 12 mortos em Paris nem de longe se equivalem aos milhares de muçulmanos massacrados por Renaud de Châtillon durante as Cruzadas. Nem de longe se equivalem aos milhares de africanos escravizados e expulsos de suas terras pelos colonizadores franceses. Nem de longe se comparam aos milhares de afegãos, sírios, iraquianos e tuaregues, que ainda hoje lutam contra a sanha imperialista do “pigmeu da Europa”. A França cometeu muitos crimes no passado e insiste em repeti-los no presente. E se é assim, que pague o preço por seus pecados. O ataque ao Charlie Hebdo é apenas o começo!

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2 comentários sobre “Je ne suis pas Charlie! A França deve pagar o preço por seus pecados!

  1. 1) Esse cartão postal são de rebeldes bérberes decapitados em 1922 na Guerra do Rife (Marrocos) pelos espanhóis. A França só entrou nessa guerra em 1925. Ou…
    2) Como diz nesse site: http://www.libertaire.fr/2015/01/les-decapitations-d-otages-occidentaux-actes-irrationnels-d-une-radicale-alterite.html – são marroquinos decapitados pelos franceses em 1912.

    Publicado por Sandro Molina | 2015/11/25, 18:35

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