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Estado Islâmico, Extremismo Islâmico, Iraque, Oriente Médio, Política Internacional

Uma Mensagem aos Estados Unidos da América


Blowback: a criatura se volta contra seu criador. Decapitação de jornalista americano em resposta aos ataques aéreos faz do Estado Islâmico mais um inimigo dos EUA no Oriente Médio e reacende o temor ao terrorismo global

Mapa do Estado Islâmico mostra as zonas que objetivam para a expansão de seu Califado.

Mapa do Estado Islâmico mostra as zonas que objetivam para a expansão de seu Califado.

Não há dúvidas que a criação de um Estado Islâmico sunita em territórios da Síria e do Iraque é parte de um antigo plano norte-americano para reconfigurar a geopolítica do Oriente Médio, e que até a unificação e a independência de áreas com predominância curda em ambos os países também encontrava-se previsto dentro desse processo de “reordenamento”. A invasão do Iraque, a rebelião na Síria, o estímulo aos conflitos sectários e o fortalecimento de organizações terroristas como a Al Qaeda e o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria) foram fatos promovidos por esta conspiração. Mas algo saiu fora do controle, e agora os estrategistas de Washington parecem estar lidando com algo muito próximo ao que se chama “blowback”, um termo utilizado pela CIA para descrever os efeitos inesperados ou indesejados das operações secretas realizadas por seus agentes em outros países (Blowback: the cost and consequences of American Empire, Chalmers Johnson, 2007).

A violência extremada, a brutalidade desmedida e a rapidez com que os jihadistas do ISIS conquistaram extensas áreas no Iraque e na Síria, proclamando a instauração de seu Califado e impondo um reinado de terror, perseguição e morte aos “infiéis” – xiitas, curdos, cristãos e outras minorias, como os yazidi – foram consequências indesejadas por Washington, que ao fomentar seu “exército por procuração” para levar adiante a guerra contra a Síria de Bashar al-Assad esperava apenas dotá-los de uma capacidade de combate limitada, mas capaz de sustentar uma guerra de atrito prolongada, buscando minar as forças de Damasco. As ações no Iraque – em especial a tomada de Mossul e a captura dos ativos militares do exército iraquiano – também foram facilitadas pela inteligência americana, que contava com o desvio desses recursos para a Síria. A ameaça a Bagdad serviria como isca para atrair o Irã, aliado do ex-premier Nouri al Maliki, a um “atoleiro militar”, nos mesmos moldes em que os EUA se meteram no Vietnã, no Afeganistão e no próprio Iraque.  Mas nem tudo saiu conforme os planos americanos…

Apesar da retórica e das demonstrações de apoio ao governo xiita de Maliki, o Irã acabou não se envolvendo militarmente no Iraque. Grande parte das armas e munições capturadas pelos extremistas – que deveriam ter sido levadas para Síria– permaneceram em território iraquiano, provendo com um poder de fogo descomunal sucessivas colunas de combatentes islâmicos que avançam sobre diversas cidades no norte do Iraque. Na Síria o Estado Islâmico não conseguiu nada além de consolidar o domínio em áreas que já estavam sob controle da oposição, tomadas à força dos chamados grupos “moderados”. E por não responderem a um comando estratégico submetido ao controle direto da inteligência norte-americana, os combatentes do Estado Islâmico passaram a investir contra o Curdistão iraquiano – cuja independência faz parte dos planos de Tel Aviv e Washington.

kurdistanOs curdos são cerca de 15% da população iraquiana, um grupo étnico com sua própria língua e cultura, diferentes das populações árabe, persa e turca predominantes na região, e vivem numa área autônoma de cerca de 40 mil km2 no norte do país, considerado um oásis de estabilidade em meio ao caos em que está mergulhado o Iraque. Eles obtiveram autonomia após a queda de Saddam Hussein. Em 1992, estabeleceu-se o Governo Regional do Curdistão, que tem um presidente (Massoud Barzani), um premiê (seu sobrinho, Nechirvan Idris Barzani), um Parlamento unicameral e mais de 20 ministérios. Esse governo regional controla três províncias de maioria curda no Iraque (Dohuk, Erbil e Sulaymaniyah), com aval da Constituição iraquiana de 2005. No final do mês de julho deste ano abandonaram o governo iraquiano, no qual tinham três ministérios. Seu exército conta com cerca de 200.000 homens, equipados com veículos blindados e reputação de temidos guerreiros.

A importância estratégica do Curdistão fica bem demonstrada nas palavras de Tom Hardie-Forstyth, assessor do Governo Regional do Curdistão (KRG), em entrevista à BBC: – “Falando como militar e como ex-presidente do Comitê da OTAN, podemos dizer, pragmaticamente, que, se você olhar para o mapa do mundo e para a Turquia e a Europa, esta pequena parte do Curdistão é, de fato, a fronteira sudeste da OTAN”.

Sua localização estratégica, a perspectiva de acirramento das tensões nos enclaves curdos na Turquia e no Irã e a riqueza em petróleo (reservas de 45 bilhões de barris) justificam o interesse americano em manter sob vigilância as pretensões de independência do povo curdo (que uniria minorias de quatro países vizinhos – Síria, Iraque, Turquia e Irã – que, com 20 milhões de pessoas, podem ser considerados o maior povo sem Estado), agora ameaçadas pelo avanço do Estado Islâmico. Esta ameaça – e não o alegado pretexto de conter o genocídio da minoria yazidi, isolados em montanhas no noroeste do Iraque, sem comida nem água, depois de terem fugido de suas casas – foi o que levou Washington a retomar suas ações militares no Iraque, quase três anos depois da retirada das suas tropas. Hoje, além das incursões aéreas, já ultrapassam de mil o número de soldados americanos no país mesopotâmico.

Com apoio dos bombardeiros americanos, forças iraquianas e tropas curdas recuperaram o controle da estratégica represa de Mossul, que fora tomada pelos combatentes do Estado Islâmico no dia sete de agosto, não por acaso um dia antes de o presidente Obama autorizar os ataques aéreos. A perda da represa de Mossul e duas cidades próximas, de maioria cristã, representou o maior revés do Estado Islâmico desde o início de suas ações no Iraque.

A reação dos extremistas não tardou: na última terça-feira (19/08) o Estado Islâmico publicou um vídeo na internet mostrando a decapitação do jornalista americano James Foley, que havia sido sequestrado por homens armados na Síria em novembro de 2012. No vídeo, intitulado “Uma Mensagem aos Estados Unidos”, os terroristas deixam claro um recado aos seus criadores: não seguimos as ordens de Washington e qualquer tentativa de interferência nos assuntos do Califado Islâmico “resultará em derramamento de sangue do seu povo”.

 

“Quem semeia vento colhe tempestade; quem semeia o mal recebe maldade e perde todo o poder que possuía” (Pv 22;18). Eis a resposta para as conspirações norte-americanas no Oriente Médio, que com o objetivo de reordenar a geopolítica da região segundo seus interesses, acabou por criar e fomentar uma monstruosa criatura que agora se volta furiosamente contra seu criador. A guerra contra o Estado Islâmico não se restringirá aos campos de batalha da Mesopotâmia, nem ao envio de bombardeiros e aviões não tripulados. O crescente aumento da presença militar americana no Iraque, que se anuncia nas palavras do presidente Barack Obama (“Os Estados Unidos da América continuarão a fazer o que têm de fazer para proteger o nosso povo. Seremos vigilantes e seremos implacáveis”) e do senador republicano John McCain (“Em primeiro lugar, (…) aumentar dramaticamente os ataques aéreos, que devem ser direcionados também à Síria (…) Temos que derrotá-los, não detê-los.”) são o reconhecimento do “blowback” e do fracasso norte-americano no Oriente Médio.

Uma Mensagem aos Estados Unidos

“Esse é James Wright Foley, um cidadão do seu país. Como você, seu governo tem estado a frente das agressões contra o Estado Islâmico. Vocês tem tramado contra nós e foram muito longe para achar motivos para interferir em nossos assuntos.”

“Hoje, sua força aérea militar tem nos atacado todos os dias no Iraque. Seus ataques tem causado casualidades entre muçulmanos. Vocês não estão mais lutando contra uma insurgência. Nós somos um Exército Islâmico e um estado que tem sido aceito por um grande número de muçulmanos no mundo inteiro.”

“Então efetivamente, qualquer agressão contra o Estado Islâmico é uma agressão contra muçulmanos de todos os lugares que aceitaram o Califado Islâmico como sua liderança. Então qualquer tentativa sua, Obama, de negar os direitos de viver em segurança dos muçulmanos sob o Califado Islâmico resultará em derramamento de sangue do seu povo.

As últimas palavras de James Foley: – “Eu liguei para meus amigos, família e pessoas amadas para se levantarem contra meu verdadeiro assassino, o governo dos EUA. Pois o que vai acontecer comigo é um resultado da sua complacência e criminalidade. (…) Eu queria ter mais tempo, eu queria poder ter a esperança da liberdade e ver minha família mais uma vez, mas esse navio já velejou. Eu acho acima de tudo, que eu queria não ser americano.

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