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Extremismo Islâmico, Oriente Médio, Política Internacional, Síria, Síria

Guerra na Síria vai chegando ao fim. Eleições presidenciais marcadas para 03 de junho tem Assad como favorito. O que a “grande mídia” não conta sobre a Síria!


Oficiais do Exército Árabe da Síria caminham em Yabroud logo após sua  libertação. (17/03/2014)

Oficiais do Exército Árabe da Síria caminham em Yabroud logo após sua libertação. (17/03/2014)

O referendo separatista da Crimeia e sua anexação pela Rússia, seguida pelas sanções promovidas pelos EUA e Europa e a evolução da crise política na Ucrânia, com as turbulências no leste e a eleição de um novo Governo em Kiev,  permitiram à “grande mídia” silenciar acerca dos sucessos militares que o Governo de Bashar al-Assad alcançou recentemente  em todo território sírio, em especial a reconquista da região de Qalamun, onde os grupos rebeldes que haviam se concentrado na cidade de Yabroud desde 2012 foram praticamente dizimados e a libertação de Homs, ocupada pelo Exército após a retirada de milhares de combatentes rebeldes, que estavam sob ameaça iminente de aniquilação.

De fato, os primeiros cinco meses de 2014 caracterizaram-se por um avanço sustentado do Exército Árabe da Síria sobre posições mantidas nas mãos dos terroristas armados, principalmente na região ocidental do país, a mais povoada. Após quatro meses de sangrentos combates, no qual os grupos rebeldes tentaram de todas as formas romper o cerco imposto pelas tropas governamentais, o exército sírio reconquistou a  cidade de Yabroud. Na batalha, cerca de 1.500 combatentes jihadistas foram mortos, entre eles muitos comandantes da Frente Al Nusra, do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), do chamado Exército Livre da Síria, além do líder do grupo sunita libanês Jundel Sham, Mahmud al Dandashi – mais conhecido por Abu Suleiman – cujo corpo identificado por jornalistas libaneses.

Em termos estratégicos, a retomada de Yabroud e de todo planalto de Qalamun foi um feito extraordinário, pois cortou a passagem dos comboios que abasteciam os terroristas com homens, armas, munições e alimentos vindos do norte do Líbano. Yabroud era também a principal área de retaguarda do movimento rebelde, onde vários grupos armados haviam organizado seu quartel-general para lançar ataques contra a capital Damasco. Por outro lado, a existência de um “Território Livre em Yabroud” vinha permitido ao grupo sunita libanês, Jundel Sham, do emir Mahmud al Dandashi, treinar e organizar novas células terroristas com as quais realizaram sangrentos atentados contra as instalações do Hezbollah, em Beirute, e no sul do Líbano. 

O presidente Bashar al-Assad visita o bairro de Baba Amr, antigo reduto rebelde na cidade de Homs

O presidente Bashar al-Assad visita o bairro de Baba Amr, antigo reduto rebelde na cidade de Homs

Igualmente ignorado pela mídia ocidental, a retomada de Homs – cidade símbolo da insurgência e última linha divisória entre as áreas controladas pelo Governo e aquelas sob domínio dos rebeldes – também foi uma vitória extraordinária, que praticamente incapacita aos rebeldes para a continuidade das operações militares em larga escala contra o Governo Sírio. Depois de dois anos de intermináveis batalhas – que literalmente destruíram a cidade – e um acordo fruto de complicadas negociações, cerca de dois mil homens armados deixaram o local sob a supervisão da ONU e de agentes do Ministério de Reconciliação Nacional, na primeira retirada em massa dos insurgentes de uma grande cidade síria desde o início do conflito, há três anos.

No rastro das vitórias no terreno militar, o Governo de Damasco vem avançando profundamente no processo de pacificação do país. Através do Ministério de Reconciliação Nacional acordos tem sido feitos com líderes rebeldes locais para o fim da insurgência, e a cada cidade libertada seguem os trabalhos para o restabelecimento da ordem, como a abertura das estradas, remoção das minas e o retorno dos refugiados às suas casas em troca da inclusão dos envolvidos na guerra na Lei de Anistia assinada pelo Presidente Assad. E como tais acordos não abrangem o perdão aos militantes envolvidos em massacres e crimes hediondos, isso tem feito com que os líderes locais os expulsem das cidades em direção aos últimos redutos ainda fora de controle, onde agrupados, tem sido alvos fáceis para a ação do Exército.

Crescem as manifestações de apoio ao presidente Bashar al-Assad, que apesar das enormes dificuldades reconhecidas por todos para uma eleição em um país em guerra, manteve firme o compromisso de realizar as primeiras eleições presidenciais multipartidárias da Síria, marcadas para o próximo dia 3 de junho.

Crescem as manifestações de apoio ao presidente Bashar al-Assad, que apesar das enormes dificuldades reconhecidas por todos para uma eleição em um país em guerra, manteve firme o compromisso de realizar as primeiras eleições presidenciais multipartidárias da Síria, marcadas para o próximo dia 3 de junho.

No aspecto político, crescem as manifestações de apoio ao presidente Bashar al-Assad, que apesar das ações terroristas em vários pontos do país e das enormes dificuldades reconhecidas por todos para uma eleição em um país em guerra, manteve firme o compromisso de realizar as primeiras eleições presidenciais multipartidárias da Síria, marcadas para o próximo dia 3 de junho. Segundo a Corte Constitucional Suprema, três candidatos se submeterão nas urnas à vontade popular: o atual presidente, Bashar al-Assad, o comunista Maher al-Hafiz Hayyar e Hassan Abd-Allah al-Nuri, do partido Iniciativa Nacional para a Mudança, os que de um total de 24 pré-candidatos foram os únicos a obter apoio de ao menos 35 parlamentares, como manda a lei eleitoral síria. E a julgar pelo extenso apoio popular como demonstrado em manifestações nas principais cidades da Síria, entre elas, Damasco, Izraa (Deraa), Tartous, Latakia e Sweida, o atual presidente deve ser reeleito com grande vantagem à frente de seus oponentes.

O conjunto dos fatos ocorridos na Síria nos últimos quatro meses – os quais a imprensa ocidental deu pouca ou nenhuma visibilidade – acaba por determinar a existência de um novo contexto político na relação entre o Governo deste país árabe e seus inimigos, internos e externos, declarados ou não.

Em primeiro lugar, a exigência dos insurgentes – com apoio das potências ocidentais – de que Bashar al Assad deixe o poder, cedendo à revolução, é cada vez mais remota, senão indesejável. De fato, até o final do ano passado, o principal pretexto apresentado pelos representantes do Conselho Nacional Sírio para exigir a deposição de Bashar al-Assad, era a existência de uma “linha vermelha” que dividia a Síria em termos geoestratégicos. Uma linha que partiria da fronteira do Líbano cruzando o planalto de Qalamun, para depois passar para a cidade de Yabroud e a localidade Krak, alcançando o eixo entre Damasco e Homs indo dali até a localidade de Latakia, perto da fronteira com a Turquia, ocupada pelo Exército Livre da Síria.

Essa “linha vermelha” não existe mais! Com a derrota em Qalamun e a retirada dos insurgentes de Homs, apenas algumas localidades na região de Latakia permanecem em poder dos rebeldes, onde também prossegue a ofensiva governamental. E se mesmo antes das sucessivas vitórias do Exército Sírio, o Ocidente tinha dificuldades em promover a união das muitas facções rebeldes para a consolidação de uma força de oposição que fosse política e estrategicamente viável, capaz de suceder o atual regime após a saída de Assad, agora este objetivo se torna inviável.

 

Soldados do Exército Árabe da Síria comemoram a conquista de Homs

Soldados do Exército Árabe da Síria comemoram a conquista de Homs

Apesar de continuar a dar apoio aos rebeldes sírios e extremistas islâmicos (os Estados Unidos reconheceram publicamente o envio aos grupos armados de foguetes antitanque TOW, enquanto o Reino Unido anunciou o fornecimento a esses grupos de uma ajuda militar “não letal”) o Ocidente sabe que as vitórias do Exército Sírio chegaram a um ponto de inflexão que nenhuma quantidade de apoio indireto fará retroceder, e que sua “guerra por procuração” foi efetivamente perdida. E pior: as forças sírias têm empurrado os extremistas para as fronteiras da Síria, uma porta aberta que ameaça seus aliados na região, como Israel, Jordânia e Turquia. Afinal, grande parte da insurgência é formada por grupos extremistas sunitas que defendem uma visão militante do Islã e são hostis para o Ocidente e simpáticos à Al Qaeda, que podem ser o estopim de uma onda de jihadismo contra os interesses ocidentais na região, estendendo-se para a Europa, de onde vieram centenas de militantes que se juntaram à Frente al-Nusra e ao ISIS.

Nesse contexto, resta ao Ocidente duas alternativas: forçarem um envolvimento direto na guerra, como fez a Turquia ao autorizar a realização de ataques aéreos em território sírio, para provocar a explosão de um “estado de guerra ampliado” a partir de uma reação de Damasco, com intervenções militares da OTAN e dos EUA; ou aceitar o fato de que os riscos de continuar financiando e armando grupos extremistas para combater uma guerra perdida extrapolam os limites do aceitável, e que há mais a ganhar trabalhando com o Presidente Bashar al-Assad do que contra ele, na medida em que a derrota os extremistas da Frente Nusra e ISIS vai se tornando um ponto de convergência entre os interesses do Governo Sírio e do Ocidente.

É claro que esta segunda hipótese não é admitida publicamente no Ocidente, mas no mês passado o ex-diplomata americano Ryan Crocker disse ao New York Times que era o momento “para começar a conversar com o regime de Assad novamente (…)  ele não é tão mau como os jihadistas que iriam assumir na sua ausência“. 

Apesar de os fatos mostrarem o contrário, os meios de comunicação ocidentais continuam retratando a situação na Síria como fluida, com o governo sírio oscilando diante a tenacidade das forças rebeldes. Na realidade, o desespero diante do triunfo de Bashar al-Assad já se instalou em Washington, Londres, Riyadh, e Tel Aviv

Mais que a frustração de ter interrompido o fluxo de seu planejamento estratégico para o Oriente Médio (afinal, como já dissemos antes, o alvo primário era e sempre foi o Irã, e a derrubada de Bashar al-Assad era apenas mais um elo na cadeia de acontecimentos que levariam ao confronto contra o país persa), o fracasso do Ocidente na Síria foi um indicador de que o seu poder e influência estão em declínio, tendo sua reputação e legitimidade prejudicados a tal ponto que qualquer iniciativa geopolítica após a Síria seria praticamente impossível. Essa tese tem se mostrado verdadeira no caso da Criméia e na evolução dos acontecimentos no leste ucraniano. Apesar das reiteradas ameaças, a reação ocidental não foi além de inócuas sanções…. 

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