Você está lendo...
Brasil

Brasil, 1964 – Golpe que marcou o início da Ditadura Militar ou Revolução Redentora? No que você acredita?


1964

Hoje, passados 50 anos, talvez ainda não seja possível fazer uma análise isenta dos acontecimentos daquele 31 de março e dos anos que seguiriam. Foram os “anos de chumbo”, de perseguições, torturas e prisões arbitrárias. Mas foram também os anos do Milagre Econômico, uma fase de crescimento e modernização, sob todos os aspectos, inigualáveis na história do país, e que consolidou as bases do Brasil do século XXI.

Eu acredito que o Golpe Militar de 1964 foi um evento histórico que salvou o Brasil dos próprios brasileiros.  Jango não era comunista, mas era um fraco. Incapaz de resistir às pressões provenientes dos setores mais conservadores – que já haviam tentado dar um golpe em Juscelino e forçaram a renúncia de Jânio – Goulart buscou apoio nas “massas”, nos movimentos sindicais, nas ligas camponesas, estes sim impregnados de agentes comunistas.

Isso precipitou a reação dos militares e a eclosão da Revolução de 1964. E mais uma vez Jango mostrou sua fraqueza: contando com o apoio de Leonel Brizola, Governador do Rio Grande do Sul, do Terceiro Exército, comandado pelo general Ladário Teles e da aviação comandada pelo brigadeiro Teixeira, ele poderia ter resistido, mas decidiu fugir para o Uruguai.

Aproveitando-se do quadro de instabilidade, a extrema-esquerda pegou em armas e ensaiou sua própria Revolução. Um movimento que não tinha por fim a restauração da ordem democrática e constitucional, mas a implantação da “ditadura do proletariado”, nos moldes stalinistas.  Veja o que diz Daniel Aarão Reis, ex-militante do MR-8, professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense, em seu livro “Ditadura Militar, Esquerda e Sociedade” : “Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura (socialista) revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentassem como instrumento da resistência democrática“.

É preciso lembrar que tudo isso ocorre no contexto da Guerra Fria, no auge das tensões entre os EUA e a URSS, com a crise dos mísseis em Cuba, a Guerra do Vietnã e a invasão da Tchecoeslováquia. Nesse momento histórico ainda não havia lugar para a ideia de um “socialismo democrático”. Até então, todas as experiências bem sucedidas para a implantação de regimes comunistas haviam sido feitas através de Revoluções armadas: Rússia, China e Cuba, mais emblematicamente.  Nessa época também Che Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana, pregava abertamente a necessidade de estender a luta armada revolucionária a todo o Terceiro Mundo, o que começou a fazer através da instalação de grupos guerrilheiros em vários países da América Latina. Estas eram, pois, as referências que tinham os comunistas brasileiros, cuja organização e atuação remontavam ao começo do século e já haviam proporcionado a experiência do levante de 1935.

Os militares sempre foram protagonistas na história da República, que, aliás, nasceu de um golpe militar. Mas suas intervenções nos Governos civis nunca tiveram por finalidade o controle total do Estado, atuando as Forças Armadas como elemento “pacificador” nos momentos de grave crise institucional, agindo, via de regra, em nome da opinião pública. Foi assim em 1930, no impedimento da posse do presidente eleito Júlio Prestes, que resultou na ascensão ao poder de Getúlio Vargas; ou em 1945, quando ao depor o mesmo Vargas, o Exército deu fim à ditadura do Estado Novo; ou em 1955, quando o Marechal Lott garantiu a posse de Juscelino Kubitscheck. Em nenhuma destas ocasiões os militares tomaram e mantiveram o poder. Era para ser assim em 1964.

Entre os golpistas haviam dois grupos bem definidos. Um deles reunia-se em torno do General Castelo Branco, “que acreditavam poderiam arrumar a casa e voltar para o quartel o mais rápido possível” (palavras do General Newton Cruz, em entrevista ao jornal Zero Hora, em 26/07/2008). O outro, liderado pelo General Costa e Silva, do qual faziam parte oficiais cooptados pela inteligência norte-americana após a II Guerra Mundial em torno da Doutrina de Segurança Nacional e da idéia de defesa continental contra o comunismo.

1964bMas as ações terroristas, roubos a bancos, sequestro de embaixadores e o início da “resistência armada”, que volto a lembrar, não objetivava a restauração da democracia, mas tratava-se de uma revolta para instauração de um Estado Comunista no Brasil, acabou por fortalecer a argumentação da “linha-dura” do Exército. Embora Castelo Branco não concordasse, em 1967 Costa e Silva assumiria a Presidência da República e verdadeiramente instalaria uma Ditadura Militar a partir de 1968 com o Ato Institucional Número 5. Segundo as palavras do General Nilton Cruz, “Castelo Branco permitiu que Costa e Silva o sucedesse porque temia que um enfrentamento causasse um racha no Exército, o que poderia culminar com um enfrentamento militar, reduzindo ainda mais a soberania nacional….”.

Instalada a Ditadura, os militares fizeram exatamente o que se poderia esperar de um governo de exceção, em qualquer parte do mundo, dentro daquele contexto histórico: perseguiram, prenderam, mataram, cometeram abusos e cercearam as liberdades civis, mas mantiveram a segurança e a continuidade das Instituições.

Será que os crimes atribuídos aos militares teriam seriam evitados se a guerrilha triunfasse? É sempre temerário fazer suposições, mas elas são inevitáveis em qualquer análise histórica. Imaginemos, portanto que os movimentos de esquerda tivessem tido o apoio da população brasileira (o que não houve, e isso é fato) e de parte do Exército. E que ao final de uma guerra civil que contasse às centenas de milhares o número de vítimas, fosse finalmente vitoriosa uma República Comunista, nos moldes da URSS, da China ou de Cuba. O que haveria a seguir seria a implementação das reformas estruturais, a reforma agrária, a estatização do setor produtivo, a desapropriação do capital privado, entre outras. E nada disso poderia ser feito sem a utilização de força, como a História nos mostrou antes e depois de 64 na implantação dos Regimes Comunistas. Haveria sim, expurgos, perseguições, prisões e assassinatos, mas as vítimas seriam os “outros”, a classe burguesa, os proprietários rurais e a “classe média alienada”, que resistiriam à ideia de “compartilhar” seus bens com o “camarada povo”.

Valas comuns do Comunismo. Massacres promovidos por Stalin levaram à morte milhões de pessoas.

Valas comuns do Comunismo. Massacres promovidos por Stalin levaram à morte milhões de pessoas.

Ora, os mortos e desaparecidos no Brasil durante a Ditadura Militar são contados às centenas. Um número infinitamente menor que as 43 milhões de vítimas do stalinismo, ou dos mais de 65 milhões de chineses assassinados pelo regime de Mao Tsé Tung. Aliás, o comunismo é pródigo em ditadores sanguinários: Pol Pot matou cerca de 1/3 da população do Camboja – cerca de 2 milhões de pessoas – entre 1976 e 1979, quando foi presidente daquele país; Josip Tito governou a Iugoslávia entre 1945 e 1980, tendo sido diretamente responsável por cerca de 1,5 milhão de mortes; Kim II Sung , “Grande Líder” da Coréia do Norte, tem em sua conta cerca de 5 milhões de pessoas que morreram em decorrência da opressão e da fome.

Nasci em 1964 e assim como milhões de brasileiros da minha geração e das gerações que se seguiram,  não temos estórias de horror para contar acerca da Ditadura Militar.  Lamento por aqueles que as tem, mas como disse um grande amigo, “ hoje olhamos a história pelo retrovisor, e isso nos dá um tremendo conforto em saber o que foi, mas não o que poderia ter sido…”

Linha de montagem da VW. Foi no Regime Militar que se consolidou as bases da moderna indústria brasileira

Linha de montagem da VW. Foi no Regime Militar que se consolidou as bases da moderna indústria brasileira

Hoje, 50 anos depois, eu acredito que o Golpe de 1964 cumpriu um importante papel na História de nosso país. A reação dos militares diante da inépcia e da fraqueza de Jango representou o fim do Populismo e o início da modernização do Brasil. No plano econômico trouxe conquistas inegáveis. Entre 1967 e 1973, o Brasil viveu seu Milagre Econômico, alcançando índices de crescimento de até 14% ao ano, sem desemprego e sem inflação, elevando o Brasil do 48º lugar no ranking econômico das nações para o 8º lugar. Foi durante o Governo Militar que foram criadas a Eletrobras, a Nuclebras, a Embratel, o Banco Central e os estímulos às indústrias aeronáutica, naval e automobilística. A Petrobras consolida-se como uma das grandes empresas mundiais. Houve aumento das exportações, modernização do parque industrial brasileiro e expansão do mercado de trabalho. O governo militar criou o Banco Nacional da Habitação (BNH), o Fundo de Garantia sobre Tempo de Serviço (FGTS), o PIS e o PASEP. E não dá para imaginar o Brasil de hoje sem estas realizações! E apesar das restrições às liberdades civis, o Regime Militar contava com o apoio da população. Em julho de 1971 uma pesquisa do IBOPE apontava um índice de 82% de aprovação para o Governo Médici.

Olhando para o retrovisor sinto um conforto tremendo em saber o que foi, pois foi somente em razão da dureza dos militares que o país não se tornou uma ditadura sanguinária como a da Coréia do Norte, nem uma república de bananas como Cuba. Na menos pior das hipóteses, eles impediram que o Brasil passasse pelo que passa a Colômbia e o Peru, que até hoje combatem guerrilhas comunistas associadas ao tráfico de drogas, o que poderia ter sido…

Anúncios

Discussão

Um comentário sobre “Brasil, 1964 – Golpe que marcou o início da Ditadura Militar ou Revolução Redentora? No que você acredita?

  1. Excelente artigo.
    Tenho 43 anos e me lembro muito bem, apesar de ser criança à época, dos governos do Médici e Geisel. Foi um tempo maravilhoso, de muita liberdade, estabilidade, educação de qualidade e segurança, mesmo com algumas restrições impostas, necessariamente, pelo regime.
    Tenho não só o meu testemunho pessoal, mas dos meus pais e parentes, que vivemos um dos melhores períodos do Brasil, principalmente no início dos anos 70.
    Como diz um tio meu: ”o regime militar só fui ruim para os subversivos”.

    Publicado por Christian Lagreca | 2014/09/11, 11:23

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: