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África, Guerra Civil na Somália, Somália

Milícia somali Al-Shabab ataca shopping em Nairóbi em retaliação à presença militar do Quênia na Somália. Ataque ocorre num momento em que vários grupos radicais ligados a Al-Quaeda, em diversos países da África, atacam alvos governamentais e interesses internacionais. Ocidente condena o atentado, mas segue fornecendo armas, dinheiro e apoio político aos mesmos terroristas na Síria.


WestgateShoppingNairobi

Pelo menos 62 pessoas morreram e 63 estão desaparecidas desde o início do ataque da milícia somali Al-Shabab ao shopping Westgate de Nairóbi, no Quênia, que começou na tarde do último sábado (21/09). Entre as vítimas estão cidadãos norte-americanos, britânicos, franceses e de países asiáticos, uma vez que o Westgate Mall é bastante frequentando por turistas, estrangeiros que trabalham no país e quenianos de alto poder aquisitivo. Além destes, o Exército queniano confirmou a morte de três soldados e ferimentos em outros 8.

Apesar das autoridades afirmarem que estão “no controle” da situação, até a manhã de hoje (24/09) ainda se podiam ouvir tiros e explosões no local. Pelo Twitter, o Al-Shabab afirmou que seus militantes continuam resistindo e que os reféns permanecem vivos. – “Há um grande número de corpos ainda espalhados dentro do shopping e os mujahideen resistem #Westgate“, disse o comunicado, acrescentando que “os combatentes estão serenos e percorrendo o shopping com bastante sangue frio“. Pessoas que antes ajudaram a retirar corpos do shopping disseram acreditar que ainda há muitos cadáveres no interior do prédio, o que sugere que o número oficial de mortos pode subir.

O ataque é o maior no Quênia desde que uma célula da Al Qaeda no leste da África bombardeou a embaixada dos Estados Unidos em Nairóbi em 1998, matando mais de 200 pessoas. Em 2002, a mesma célula militante atacou um hotel israelense e tentou derrubar jatos israelenses em um ataque coordenado. Ao assumir a autoria do atentado, o grupo islâmico Al-Shabab disse ter cometido o ataque como forma de retaliação pela presença militar queniana em seu país, e ameaçou lançar novos ataques no Quênia se o país não retirar suas tropas da Somália imediatamente.

– “Se não saírem da Somália, saibam que essa é apenas uma amostra do que vamos fazer… esperem dias negros“, disse o porta-voz do grupo Ali Mohamud Rage.

Para entender os fatos

Localizado no “Chifre da África” a Somália é um dos países mais pobres do planeta, que vem tendo sua economia e infra-estrutura continuamente devastada por uma guerra civil que já dura mais de 20 anos. É conhecida por ser um dos países mais corruptos do planeta, e tem uma das mais altas taxas de mortalidade infantil (35% das crianças morrem antes de completar os 5 anos de idade) e o maior número de subnutridos do mundo (75% da população), o que levou a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras a considerar a situação do país “catastrófica”.

Mas isso nem sempre foi assim!

Na Antiguidade, a Somália foi um importante centro comercial, de estreitas relações com egípcios, fenícios e babilônicos. Nos primeiros séculos do Islã houve a conversão pacífica da população somali por estudiosos muçulmanos, chegando Mogadíscio a ser conhecida como a Cidade do Islam, que controlou o comércio de ouro do Leste Africano durante vários séculos. Na Idade Média, vários poderosos impérios somali dominaram o comércio africano e o grau de civilização, riqueza e desenvolvimento da região chegava a ser superior a de muitos países europeus à época.

Estátua de Sayyid Mohammed Abdullah Hassan em Mogadiscio

Estátua de Sayyid Mohammed Abdullah Hassan em Mogadiscio

A história da Somália começou a mudar no final do século XIX, ao final da Conferência de Berlim, quando as potências europeias partilharam entre si o Continente Africano e para lá se dirigiram com suas tropas para colonizá-lo. Nesse momento surgiu em cena um dos maiores ícones da luta contra o imperialismo e o colonialismo, o líder islâmico Sayyid Muhammad `Abd Allah al-Hasan,  que reuniu soldados somalis de todo o Chifre da África e começou uma das mais longas guerras de resistência colonial, contra britânicos, italianos e etíopes. Em vários de seus poemas e discursos, al-Hasan disse que os britânicos infiéis “destruíram a nossa religião e fez os nossos filhos dos filhos” e que os cristãos etíopes em aliança com os britânicos estavam inclinados a saquear a liberdade política e religiosa da nação somali. Ele logo surgiu como “um defensor da liberdade religiosa e política do seu país, defendendo-a contra todos os invasores cristãos”. Ele emitiu um decreto religioso que qualquer cidadão somali que não aceitasse o objetivo da unidade da Somália e não lutasse sob a sua liderança seria considerado traidor. Com armas compradas ao Império Otomano, Sudão e outros países islâmicos, deu início à luta pela independência e pela unidade da Somália.

A Somália nunca foi formalmente colonizada, mas a superioridade militar das potências ocidentais e a morte de al-Hasan devido á  influenza, selaram seu destino, transformando-a em protetorado da Grã-Bretanha, condição em que permaneceu até a data de sua independência formal, em 1960. Governado pela ditadura corrupta de Siad Barre desde 1969, a Somália envolveu-se numa guerra contra a Etiópia pelo controle da região de Ogaden, que enfraqueceu o seu exército e a sua já precária economia, acirrando-se os conflitos internos até o colapso total do regime, em 1991. Desde então não houve mais nenhuma forma de governo central na Somália. Os chamados “senhores da guerra” tomaram conta do país e travam uma guerra civil intermitente, que já matou dezenas de milhares de pessoas, num país sem unidade nacional e fragmentado em regiões autônomas.

Curioso observar que pouco antes do colapso do regime somali em 1991, grande parte de seu território (cerca de 2/3) foi concedido a empresas dos EUA (Conoco, Amoco, Chevron e Phillips), país que liderou uma coalizão internacional de “forças de paz” para restaurar a ordem na Somália após a queda de Barre. Tais tropas desembarcaram em 1993 e após vários conflitos com milicias islâmicas somalis entre junho e outubro daquele ano – na chamada Batalha de Mogadiscio – que resultaram na morte de 24 soldados do Paquistão e 31 soldados dos Estados Unidos, foram forçadas a se retirar.

Mas as investidas norte-americanas continuaram. Em 2004, com apoio da CIA foi criado o Governo Federal de Transição, em Nairóbi, no Quenia. Em 2006, com o apoio dos EUA, forças etíopes invadiram a Somália para derrubar um governo islâmico estabelecido em Mogadíscio. Em janeiro de 2007 aviões americanos conduziram ataques diretos contra as forças islâmicas, o que levou à sua dispersão e o início de uma guerra de guerrilha contra as forças governamentais etíopes e somalis apoiadas pelos EUA. Essa é a origem da milícia Al-Shabab, que se define como combatentes contra os “inimigos do Islã”, uma resposta à intervenção estrangeira na Somália.

Em dezembro de 2008, a Etiópia se retirou da Somália, sendo suas forças substituídas pelas tropas da da União Africana (Amisom). Após a retirada das tropas etíopes, a metade sul do país rapidamente caiu nas mãos de rebeldes islâmicos, que em maio de 2009 capturaram grande parte da capital Mogadíscio, mas sem derrubar o governo, que manteve o controle sobre alguns poucos quilômetros quadrados da cidade. Em agosto de 2011 foram novamente atacados pelas forças da União Africana, lideradas pelo Quênia, sendo expulsos de Mogadiscio e forçados a abandonar o sul e o centro do país, mas mantendo uma presença importante em zonas rurais de onde continua a preparar ataques contra o governo somali e seus aliados. Por isso,o ataque do Al-Shabab contra um shopping em Nairóbi, capital do Quênia, já era esperado, uma retaliação direta à participação das tropas quenianas no combate contra a milícia Al-Shabab no sul da Somália.

Recentemente, o grupo atacou instalações da ONU em Nairóbi e também esteve por trás de um atentado contra o presidente da Somália, Hassan Cheikh Mohamoud, que escapou ileso. A milícia islâmica tem escolhido como alvos as organizações internacionais e ONGs que trabalham no país.

O ataque ocorre num momento em que vários grupos islâmicos radicais ligados a Al-Quaeda, em diversos países da África, atacam alvos governamentais e interesses internacionais, aproveitando-se de insatisfações locais. O mais perturbador entretanto é a reação ocidental aos fatos, que condena a violência praticada no Quênia, enquanto fornece armas, dinheiro e apoio político aos mesmos terroristas na Síria.

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