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“O alvo do ocidente é o Irã, não a Síria” – Artigo do jornalista Robert Fisk para o The Independent


Desde o início dos conflitos na Síria vinhamos alertando para o fato de que o apoio ocidental aos rebeldes sírios não tinha Bashar al-Assad como alvo final. Dizíamos que a “Síria é o último obstáculo real para uma ofensiva contra o Irã. Uma eventual derrota de Bashar al-Assad transformaria a Síria em terra de ninguém – a exemplo do que ocorreu no Iraque e na Líbia – onde grupos extremistas armados e desorganizados passariam a se enfrentar pelo controle do país. E apesar de islâmicos, os rebeldes sunitas não teriam nem a vontade política nem os meios para deter, por exemplo, o uso do espaço aéreo sírio pela aviação israelense para um ataque contra o vizinho persa. Os acontecimentos recentes devem ser considerados como um ensaio oculto de próxima guerra entre Israel e o Irã, e Teerã compreende isso perfeitamente”. (in https://mkninomiya.wordpress.com/2013/05/08/conflito-na-siria-o-verdadeiro-inimigo-mostra-a-sua-face/)
Mais tarde, surgiram novas evidências, que relacionam a improvável aliança entre os EUA, Turquia, Israel, as monarquias do Golfo e a Al-Qaeda e o apoio deste grupo aos insurgentes, à geopolítica do petróleo, mais precisamente a disputa pela primazia dos novos gasodutos para abastecimento de gás à Europa. “Entende-se então claramente que o gás natural foi a razão pela qual o Ocidente e a Turquia se aliaram às monarquias do Golfo para insuflar a revolução na Síria. Uma guerra que está sendo travada pelos lucros bilionários” (…) onde “a Síria acaba sendo um elo fundamental” (…) “e como ele se inclina em favor do Irã e da Rússia, o Ocidente e as monarquias do Golfo decidiram que era hora de mudar o governo sírio”. (in https://mkninomiya.wordpress.com/2013/08/11/a-conspiracao-de-doha-vazamento-dos-termos-de-um-acordo-secreto-revela-a-identidade-e-as-reais-motivacoes-dos-inimigos-do-povo-da-siria/).
Fisk-2Esta semana o conceituado jornalista Robert Fisk publicou um excelente artigo no jornal “The Independent”, onde aborda o conflito na Síria, expondo a hipócrita dualidade das posições americanas.
Fisk é considerado como um dos maiores especialistas nos conflitos do Oriente Médio e contribuiu para divulgar internacionalmente os massacres na guerra civil argelina e nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano; os assassinatos promovidos por Saddam Hussein, as represálias israelenses durante a Intifada palestina e as atividades ilegais do governo dos Estados Unidos no Afeganistão e no Iraque.
 

O alvo do Ocidente é o Irã, não a Síria

Antes que comece a mais estúpida de todas as guerras ocidentais da história do mundo – falo, é claro, do ataque contra a Síria que ainda tenhamos de engolir – talvez se deva dizer que os mísseis cruzadores que tantos esperam, confiantemente, que chovam sobre as mais ancestrais cidades que a humanidade ergueu nada têm a ver, absolutamente nada, com a Síria.

Todos eles visam a ferir o Irã. Estão mirados contra a República Islâmica, agora que já tem novo e vibrante presidente e quando pode bem estar um pouco mais estável.

O Irã é o inimigo de Israel. Irã, pois, naturalmente, é o inimigo dos EUA. Assim, fogo nos mísseis contra o único aliado árabe do Irã.

Não se trata de defender o regime sírio. Nem me interessa absolvê-lo antecipadamente na questão das bombas de gás. Mas tenho idade suficiente para lembrar que, quando o Iraque – aliado dos EUA – usou gás contra os curdos de Hallabjah em 1988, nós não atacamos Bagdá. O ataque teria de esperar até 2003, quando Saddam já não tinha gás algum nem qualquer dessas armas que habitam nossos pesadelos.

Também lembro muito bem que a CIA inventou, em 1988, que o Irã seria responsável pelos ataques químicos em Hallabjah, mentira completa, focada no inimigo dos EUA contra o qual, então, Saddam lutava em nosso nome. E milhares – não centenas – morreram em Hallabjah. Mas, sabem como é. Mudam os tempos, mudam os critérios.

E acho que vale a pena lembrar que quando Israel matou mais de 17 mil homens, mulheres e crianças no Líbano em 1982, numa invasão supostamente provocada por uma tentativa de assassinato contra o embaixador israelense em Londres (supostamente levada a cabo por membros da OLP, mas quem organizou a matança foi o parceiro de Saddan, Abu Nidal, não a OLP, mas não importa), os EUA limitaram-se a pedir que os dois lados praticassem a “moderação”. E pouco antes daquela invasão, Hafez al-Assad – pai de Bashar – mandara seu irmão a Hama para varrer de lá milhares de rebeldes da Fraternidade Muçulmana, e ninguém achou ruim. Meu velho conhecido Tom Friedman falou, cinicamente, de “Leis de Hama”.

Seja como for, há hoje uma Fraternidade diferente – e Obama não conseguiu nem gritar “buuuuu”, quando o Irmão presidente eleito foi derrubado.

Ei, esperem! Mas o Iraque – quando era “nosso” aliado contra o Irã – também não usou gás contra o exército iraniano? Usou. Vi os feridos nesse ataque ensandecido, comandado por Saddam – e oficiais dos EUA, sim senhor, andaram depois pelo campo de batalha e informaram Washington -, e nós não dissemos sequer um palavrão contra aquilo. Milhares de soldados iranianos na guerra 1980-88 morreram envenenados por essa arma vil.

Viajei de volta a Teerã, à noite, num trem que transportava militares feridos e senti o cheiro, e abríamos as janelas dos corredores do trem, para nos livrar do fedor do gás. Aqueles jovens tinham feridas sobre feridas – literalmente. Sobre as feridas cresciam bolhas ainda mais dolorosas. Quase indescritível. E quando aqueles soldados chegaram a hospitais ocidentais para tratamento, os jornais chamavam aqueles feridos – apesar das provas muito mais convincentes que as que talvez se obtenham nos arredores de Damasco – de “supostamente atingidos por gás”.

Assim sendo, o que estamos fazendo, santo deus? Depois que milhares incontáveis morreram na horrenda tragédia síria, de repente – de fato, depois de meses, de anos de prevaricação -, começamos a nos perturbar por causa de umas poucas centenas de mortos. Terrível. Inconcebível. Indecente. Sim, é verdade. Mas já deveríamos estar traumatizados, horrorizados e em ação contra essa guerra desde 2011. E durante 2012. Por que agora?

Acho que sei por quê. Acho que o impiedoso exército de Bashar al-Assad está afinal derrotando os ‘rebeldes’ que nós secretamente armamos. Com a ajuda do Hizbollah libanês – aliado do Irã no Líbano -, Damasco quebrou os ‘rebeldes’ em Qusayr e pode já estar perto de quebrá-los no norte de Homs. O Irã está cada vez mais profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Assim, vitória de Bashar é vitória do Irã. E o ocidente não admite vitórias iranianas.

E já que falamos de guerra, o que aconteceu àquelas magníficas negociações palestino-israelenses de que John Kerry tanto falava? Enquanto manifestamos nossa angústia pelos terríveis ataques a gás na Síria, a terra palestina continua a ser roubada. A política likudista de Israel – negociar a paz, enquanto ganha tempo até conseguir roubar toda a terra dos palestinos – prossegue a passos rápidos, e esse é o pesadelo do rei Abdullah da Jordânia (pesadelo pior que as “armas de destruição em massa que inventamos em 2003), que só cresce: que toda a “Palestina” logo estará na Jordânia, não mais na Palestina.

Mas, a dar-se crédito aos absurdos que vêm de Washington, Londres e Paris e do resto do mundo “civilizado”, é só questão de tempo, e nossa espada vingadora degolará os damascenos.

Ver lideranças do resto do mundo árabe a aplaudir essa destruição é talvez a mais dolorosa experiência histórica pela qual a região jamais passou. E a mais vergonhosa. Exceto pelo fato de que estaremos atacando muçulmanos xiitas e seus aliados, sob aplausos de muçulmanos sauditas. Disso se faz a guerra civil.

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