Você está lendo...
Síria, Turquia

Protestos contra Erdogan tomam as principais cidades da Turquia. Manifestantes pedem a renúncia do primeiro-ministro, que começa a pagar a conta pelos seus pecados. Entre os motivos da crescente insatisfação popular está o apoio do governo aos terroristas que lutam contra Bashar al-Assad.


Pôster com foto do premier turco, Recep Tayyip Erdogan, queimado durante protesto antigoverno em Istambul

Pôster com foto do premier turco, Recep Tayyip Erdogan, queimado durante protesto em Istambul

“Ó fiéis, não tomeis por aliados os judeus nem os cristãos; que sejam aliados entre si. Porém, quem dentre vós os tomar por aliados, certamente será um deles; e Deus não encaminha os iníquos”. Alcorão 5:51
 

O Governo do primeiro-ministro Erdogan está começando a pagar o preço pelos seus pecados.

Ex-aliado do presidente Bashar al-Assad, o premier turco Recep Tayyip Erdogan acabou cedendo às pressões de Israel, dos EUA e seus aliados da OTAN, e em setembro de 2011 passou a desempenhar o papel de principal crítico do governo Sírio, a quem acusava de reprimir com extrema violência um movimento pacífico de protesto do povo sírio.

Em novembro do mesmo ano, em discurso transmitido pela televisão, apelou a Bashar al-Assad para que “escutasse” os protestos e renunciasse.

Para o bem do seu próprio povo e da região, deixe o lugar, declarou Recep Tayyip Erdogan dando exemplos do sucedido com Muammar Kadhafi e Adolf Hitler: -“Se quer ver quem lutou até à morte contra o seu próprio povo, olhe para a Alemanha nazista, olhe para Hitler, Mussolini, Nicolae Ceausescu na Romênia  Se não consegue tirar daqui quaisquer lições, olhe para o líder líbio que foi morto há apenas 32 dias“, declarou arrogantemente.

A partir de então a Turquia rompeu as relações diplomáticas com o país vizinho e tornou-se a ponta-de-lança da ofensiva sionista-ocidental contra a Síria, abrigando o auto-denominado “Exército Livre da Síria”, oferecendo aos terroristas uma zona de segurança e uma base de operação, e juntamente com a Arábia Saudita e o Catar, passou a fornecer armas e outros equipamentos militares aos insurgentes. Também vieram da Turquia as primeiras propostas de sanções econômicas contra o governo de Bashar al-Assad, assim como a criação de uma “zona de exclusão aérea” e mais recentemente, as acusações de que os militares sírios estavam utilizando armas químicas no confronto contra os terroristas.

Embora sem dados oficiais, estima-se em milhões de dólares os gastos realizados pelo governo turco para apoiar e armar os terroristas na Síria. Apesar de sua pujante economia, a Turquia não escapou da crise européia, e nos últimos anos tem visto cair suas taxas de crescimento, enquanto  aumentam o desemprego e a violência nos grandes centros urbanos. Isso sem mencionar o agravamento dos problemas sociais resultantes do desequilíbrio entre a parte ocidental do país – com nível de vida europeu – e a parte oriental, subdesenvolvida, e as tensões étnicas entre curdos e turcos. Tudo isso, somado ao viés autoritário que tem caracterizado o governo do premier Erdogan, tem levado os turcos a uma crescente insatisfação, que se materializou nos protestos iniciados na segunda-feira, 27 de maio, e que já duram 10 dias, tendo se alastrado por grande parte do país. Hoje, 05/06, milhares de pessoas responderam à convocação de dois sindicatos e saíram às ruas em toda a Turquia para exigir a renúncia do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan.

protestos turquiaOs protestos em larga escala foram desencadeados pelo uso desproporcional da força policial contra um pequeno grupo de pacifistas que se manifestavam para impedir um projeto imobiliário para substituir o parque Gezi, situado na praça Taksim e uma das únicas áreas verdes do centro de Istambul, por um centro comercial. Durante vários dias e várias noites, cerca de 50 pessoas levaram a cabo um protesto que envolvia piqueniques, música e leituras. Quando a polícia usou canhões de água e ateou fogo às tendas para dispersar os manifestantes, mais pessoas se juntaram ao protesto. E quanto maior o número de manifestantes, maior o nível de violência policial. Nos dias seguintes, milhares de pessoas, convocadas através das redes sociais (uma vez que os meios de comunicação turcos tem se silenciado em relação aos protestos e à violenta repressão policial, o que contribuiu significativamente para a intensificação do mal-estar da população), aderiram aos protestos e começaram a encher as praças de outras cidades turcas. Nas áreas residenciais gente de todas as idades saiu para a rua a bater em tachos e panelas.

A "mulher de vermelho" atingida por gás lacrimogêneo tornou-se símbolo das jovens turcas .

A “mulher de vermelho” atingida por gás lacrimogêneo tornou-se símbolo das jovens turcas .

Apesar da magnitude dos protestos, Erdogan procurou minimizar os acontecimentos, designando os manifestantes como um “pequeno grupo de delinquentes, marginais com ideias terroristas, chegando mesmo a ameaça-los com a pena de morte, abolida na Turquia em 2002.

O premier turco deveria seguir o conselho que presunçosamente  dirigiu ao presidente da Síria: “Para o bem do seu próprio povo e da região, renuncie”. Porque é certo que protestos desta dimensão nunca poderiam ter como causa única a questão do parque Gezi. Muito mais que um punhado de “delinquentes, marginais com ideias terroristas” as milhares de pessoas que têm ocupado as ruas e praças da Turquia são cidadãos comuns, expressando seu descontentamento com o governo. E no lugar do diálogo, da conciliação, das perspectivas de mudanças, os manifestantes têm tido como resposta a intolerância e a intransigência de Edorgan, materializada na violência policial extremada, e a desconsideração dos meios de comunicação. E assim, mais e mais pessoas saem das suas casas para se juntarem à multidão.

São inúmeras as razões para a revolta popular. Entre elas, o autoritarismo do governo, sua intolerância à crítica política e as constantes intromissões do Estado na vida privada dos cidadãos e na paisagem urbana de Istambul. E também é preciso frisar que as atuais manifestações não são um fato isolado de descontentamento, mas seguem o rastro recente de outros atos públicos de protesto.

Em setembro de 2012 cerca de 5.000 pessoas se reuniram na praça Taksim para protestar contra o envolvimento da Turquia no conflito sírio, no mesmo dia em que o Parlamento aprovava o envio de tropas para a Síria se o Governo turco achasse necessário. Os manifestantes protestaram contra a possibilidade de uma declaração de guerra da Turquia à Síria entre gritos de o povo sírio é nosso irmão! Segundo as agências de notícias, alguns cartazes diziam: “Não à guerra“, “AKP, tire suas mãos da Síria” e “Estados Unidos, assassinos, saiam do Oriente Médio ”. A polícia recorreu a gás lacrimogêneo para controlar a multidão.

Em dezembro do mesmo ano, houve manifestações contra a demolição de Ince Pastanesi, uma confeitaria histórica em Istambul, para ser substituída por um shopping center. Apesar das repetidas manifestações públicas no local, nada conseguiu impedir que o prédio fosse demolido. Em abril de 2013, manifestantes reuniram-se para protestar contra a demolição do histórico Teatro Emek, em Istambul, também demolido para dar lugar a um shopping center. Na ocasião, como de costume, a Polícia respondeu com violência.

Poucos dias antes do início das manifestações no Parque Gezi, dia 25 de maio, casais turcos protestaram contra os esforços para proibir manifestações públicas de afeto nos trem do metrô. O jornal Huffington Post comentou: “Dúzias de casais participaram de um ‘beijaço’ numa estação do metrô em Ancara, capital da Turquia, para protestar depois que autoridades do metrô advertiram um casal que se beijava em público.”

E há também a questão da recente proibição de bebidas alcoólicas. Dia 24 de maio, o Parlamento turco aprovou lei que cria várias restrições à venda, divulgação e consumo de bebidas alcoólicas. Um jornalista turco descreveu as novas proibições como forma de pressão contra os cidadãos, as quais, essencialmente, restringem a liberdade de as pessoas agirem livremente em espaços públicos:

“Na Turquia, enfrentamos um processo de engenharia social ideologicamente motivado, extremamente conservador e socialmente opressivo, que é parte da agenda islamista para o governo do AKP. Esse projeto não tem qualquer legitimidade democrática, porque é violação clara de direitos e das liberdades dos turcos”.

É pouco provável que a crise na Turquia degenere num conflito armado entre o governo e o seu povo. Ao final das contas deve prevalecer uma solução institucional, que pode passar pela renúncia ou não do premier Erdogan. Mas o fato é que a Turquia jamais será a mesma. Assistimos ao final de uma década de domínio do AKP e das ambições autocráticas do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e seu governo. Erdogan deveria seguir seus próprios conselhos: “Para o bem do seu próprio povo e da região, renuncie”.

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: