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Ásia, China, Coréia do Norte, Japão

Coréia do Norte: esquizofrenia do “rato que ruge” o levou longe demais. Guerra na Península Coreana torna-se a cada ameaça mais provável, com a condescendência dos principais atores deste drama asiático.


Em 1959 a Highroad Productions lançou um filme, estrelado pelo fantástico Peters Sellers, chamado “O rato que ruge” (The Mouse That Roared). Contava a história de um país fictício da Europa, chamado “Grão-Ducado de Fenwick”, cuja economia encontrava-se à beira da falência depois que o vinho, seu único produto de exportação, passou a sofrer a concorrência de um produto similar mais barato criado nos EUA, seus antigos e únicos importadores. A solução encontrada pelos governantes é declarar guerra aos americanos, com o único propósito de perder e depois conseguir financiamento para a “reconstrução”, como acontecera com os países europeus ao final da Segunda Guerra Mundial. Fenwick envia então 22 homens armados de arcos e flechas para invadir Nova Iorque. O que acontece na sequencia é absurdamente hilário, culminando com a rendição dos americanos, que além do pagamento de uma “reparação de guerra” de um milhão de dólares é obrigado a reabrir seu mercado para seu vinho de Fenwick.

Guardadas as devidas diferenças, a política externa da Coréia do Norte sempre foi orientada pela postura lunática e esquizofrênica de um “rato que ruge”, a começar pela suposta “vitória” na Guerra de 1950/53, travada na verdade entre forças da ONU, comandadas pelos EUA, e o exército vermelho da China. O conflito terminou oficialmente em 27 de julho de 1953 com a assinatura de um termo de armistício entre o Comando das Nações Unidas, apoiado pelos Estados Unidos, a Coreia do Norte e o Governo chinês, que determinou um cessar-fogo imediato e garantias do status quo ante bellum. A guerra oficialmente acabou neste dia, porém nenhum tratado de paz foi firmado entre as duas Coréias.

Esquizofrenia: a Coréia do Norte consome 40% de seu PIB para manter e equipar seu exército. No entanto, depende de ajuda internacional para alimentar seu povo e mais de 6 milhões de coreanos estão prestes a morrer de fome.

Esquizofrenia: a Coréia do Norte consome 40% de seu PIB para manter e equipar seu exército. No entanto, depende de ajuda internacional para alimentar seu povo e mais de 6 milhões de coreanos estão prestes a morrer de fome.

Nas décadas seguintes, a Coréia do Sul foi se tornando um país moderno e industrializado, e hoje está entre as 15 maiores economias do mundo (por PIB PPA), tendo por base a exportação de bens manufaturados e de alta tecnologia. Por outro lado, a Coréia do Norte tomou o caminho do isolamento e da militarização, que consome cerca de 40% de seu PIB. Sua produção industrial e de energia estão estagnadas, e a escassez de alimentos é crescente. Somente a ajuda internacional permite que a Coreia do Norte escape da fome generalizada, mas a população continua a sofrer de subnutrição prolongada e más condições de vida – milhões já morreram de fome no país desde meados dos anos 1990. Não obstante tantos problemas, o regime de Pyongyang investiu num programa nuclear que levou à aplicação de sanções pela comunidade internacional, agravando suas condições econômicas.

Tornou-se então um fato comum as ameaças do Norte contra seus vizinhos do Sul e aliados, especialmente os EUA e o Japão, fato tratado com negligência pelo Ocidente, pouco interessado em provocar reações beligerantes da China – principal aliado de Pyongyang – ou alimentar desconfianças em Moscou, revivendo o clima da Guerra Fria travada com a antiga União Soviética.  Dessa forma, permitiu-se à Coréia do Norte desenvolver um arsenal capaz de promover algum estrago no perímetro de alcance de seus parcos e rudimentares mísseis. A cada sanção ou reprimenda imposta pelo Ocidente contra sua esquizofrênica corrida armamentista, a Coréia do Norte respondia com sua retórica ameaçadora, que sempre se aproximou mais de bravatas gratuitas do que de ameaças pra valer. Voltava-se então para a mesa de negociações, a Coréia acenava com concessões, o Ocidente retirava parte das sanções, e a Coréia não cumpria os termos do acordo. Novas sanções, novas ameaças, novas negociações…

Esse círculo vicioso, que fez da Coréia do Norte o Estado mais esquizofrênico do globo, deu certo no passado por uma razão bastante simples: a ninguém interessava uma guerra na Península Coreana. Mas hoje a situação é um pouco diferente, e os limites para a retórica agressiva dos coreanos são muito menores, uma vez que seus antagonistas poderiam estar dispostos a correr riscos calculados em troca da unificação das Coréias.

Coréia do Sul

Para a Coréia do Sul hoje a unificação não é apenas um objetivo político de longo prazo, mas uma imposição necessária para expansão de sua economia. Geograficamente, o país possui um relevo predominantemente montanhoso, a maior parte do solo não é cultivável e suas reservas minerais são insignificantes. Por outro lado, a Coréia do Norte possui importantes recursos naturais e é o 18º maior produtor de ferro e zinco do mundo, tendo a 22ª maior reserva de carvão do mundo. Também é o 15ª maior produtor de fluorita e o 12º maior produtor de cobre e sal na Ásia. Outras maiores reservas naturais em produção incluem: chumbo, tungstênio, grafita, magnesita e ouro. Segundo estudos recentes, o valor estimado dos recursos minerais norte-coreanos é quase 21 vezes superior ao da Coreia do Sul. A absorção da Coréia do Norte colocaria à disposição do Sul toda essa riqueza mineral, além de oferecer áreas cultiváveis e a abertura de novas fronteiras urbanas para realocar uma das mais densas populações do planeta. Não bastasse isso, outro fator pode ser determinante para que a Coréia do Sul não hesite diante de uma opção militar contra Pyongyang: A Coreia do Sul é o sexto maior produtor de energia nuclear do mundo e o segundo da Ásia, mas não tem permissão para desenvolver tecnologia de enriquecimento de urânio por conta própria devido à pressão política dos Estados Unidos. Dessa forma, e apesar do sucesso na exportação de eletricidade, geração de tecnologia nuclear e reatores nucleares que a Coreia do Sul conseguiu obter, o país não pode capitalizar instalações de enriquecimento nuclear e refinarias no mercado, impedindo-o de expandir ainda mais o seu nicho de exportação. Tal proibição sem dúvida passa pelas tensões na Península Coreana, tensões que se esvairiam com a unificação. 

Japão

Desde o fim da ocupação após a Segunda Guerra Mundial, a presença de bases americanas e o fim das limitações impostas pelo artigo 9 da Constituição Japonesa são um assunto controverso no Império do Sol Nascente. Entretanto, nos últimos anos, diante do crescente poderio bélico e da expansão econômica da China, as autoridades japonesas  tem aumentado consideravelmente seus gastos militares, tendo atingido uma cifra recorde de 250 bilhões de ienes no orçamento de 2012, “para se preparar para as mudanças no ambiente da segurança que cerca o Japão“. Por outro lado, crescem as insatisfações internas em relação à presença das bases militares americanas em território nipônico – consequência do acordo estabelecido ao término da Segunda Guerra Mundial, quando o Japão abdicou de contar com forças militares próprias para sua defesa – e que muitos japoneses rejeitam veementemente. Os EUA possuem 135 instalações por todo Japão, desde Hokkaido, no extremo norte, a Okinawa, no extremo sul. São instalações para garantir a presença de cerca de 54 mil soldados estacionados no arquipélago, mais milhares de familiares que também vivem no pais. Além das bases, são alojamentos, depósitos, tanques de combustível e materiais que fazem parte da logística americana, cujas despesas são pagos pelo governo japonês, na ordem de 4 bilhões de dólares por ano, cobrindo 75% dos custos de permanência. Um conflito na Península Coreana poderia ser o pretexto ideal para livrar o Japão das amarras que o impedem de realizar investimentos militares significativos, para transformar as atuais “Forças de Auto Defesa” num verdadeiro Exército, capaz de operar dentro e fora de seu território, colocando Tóquio como potência diplomática e militar de primeiro nível na cena regional e no plano internacional, sem deixar de conservar seus papel de aliado mais próximo e de pilar da estratégia norte-americana na Ásia.

China

A China já emite sinais de que sua aliança estratégica com a Coréia do Norte – determinada no passado pela questão histórica e ideológica, mas também para conter o avanço norte-americano na Ásia – já não é mais conveniente como outrora. Na verdade, a aliança com Pyongyang tem se revelado cara demais e constrangedora demais para uma nova China, cada vez mais integrada ao cenário econômico mundial. E a instabilidade provocada pelo destempero de seus aliados coreanos não faz nada bem aos mercados, que a China tanto busca conquistar. A China é o maior parceiro comercial da Coréia do Norte e principal fonte de alimento (70%), armas e combustível (80%). Os chineses sempre se opuseram às duras sanções econômicas internacionais na esperança de evitar o colapso do regime e um fluxo descontrolado de refugiados ao longo da fronteira entre os dois países, o que poderia provocar pressões econômicas para Pequim. Essa situação mudou recentemente, e a diplomacia chinesa passou a criticar abertamente a Coréia do Norte, apoiando sanções das Nações Unidas para conter Pyongyang. Hoje, segundo analistas, as lideranças chinesas – ainda que não abertamente – já consideram abandonar a Coréia do Norte, dando apoio à unificação. O alinhamento de uma Coréia unificada com Washington é uma preocupação ultrapassada que não faz sentido há décadas, e o temor de uma onda de refugiados também tem sido reavaliada, uma vez que a unificação ocorreria através da absorção do Norte pelo Sul. Resta a questão moral, uma vez que a China não poderia deixar de defender o Norte de um ataque da Coréia do Sul ou de seus aliados ocidentais. Mas a história seria outra se o primeiro ataque partisse da Coréia do Norte…

Estados Unidos

Mais de dez anos depois dos atentados de 11 de setembro, com a capacidade de endividamento esgotada e obrigados a emitir moeda para comprar os títulos de sua própria emissão, os EUA ainda andam às voltas com operações militares no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, além do estado permanente de alerta para um provável ataque ao Irã. A Coréia do Norte nunca foi prioridade para Washington, que somente inflou a “ameaça” norte-coreana a fim de racionalizar seu objetivo de possuir um sistema de defesa antimísseis, para justificar a capacidade de combater duas guerras simultaneamente, e para explicar a necessidade de manter cerca de 100.000 soldados na Ásia. A unificação das Coréias, somada à pretensão do Japão de assumir os custos e responsabilidades de sua própria defesa dariam um enorme alívio ao Orçamento americano, possibilitando ainda redirecionar seus recursos militares para áreas mais sensíveis, como o Oriente Médio.

Aconteça o que acontecer, algumas hipóteses podem ser consideradas como certeza absoluta, o que torna uma guerra na Península Coreana bastante viável:

1 – A Coréia do Norte não possui armas nucleares capazes de atingir os EUA ou o Japão. Uma coisa é realizar testes nucleares, outra coisa é miniaturizar uma bomba atômica, instalá-la num míssil de longo alcance e ser capaz de vencer as barreiras anti-mísseis para alcançar o seu alvo.

2 – Ainda que  Pyongyang inicie um ataque atômico, a retaliação ocidental seria convencional, completamente afastada a ideia da ameaça coreana de um Armagedom nuclear. Ademais, os ataques americanos e sul-coreanos não serão dirigidos contra a infra-estrutura norte-coreana (cidades, indústrias, mas ao centro do poder, visando neutralizar suas lideranças e as instalações militares.

3 – Kim Jong-un não poderá contar com a ajuda militar da China ou da Rússia

Sul-coreanos protestam contra a Coreia do Norte e queimam um boneco de Kim Jong-un no centro de Seul.

Sul-coreanos protestam contra a Coreia do Norte e queimam um boneco de Kim Jong-un no centro de Seul.

A estratégia ocidental passa agora pela provocação à Coréia do Norte, levá-la ao limite de sua esquizofrenia, para obrigá-la a iniciar uma guerra que, apesar dos rugidos ensurdecedores, não poderia nunca vencer e que vai representar o fim do seu regime. Ontem (15/04) um atentato terrorista matou três pessoas na tradicional Maratona de Boston, que faz parte das comemorações do “Dia do Patriota”. Não me surpreenderia se as investigações concluíssem que a ação terrorista teria partido de Pyongyang, que ontem comemorou o 101º aniversário de seu fundador. Nesse caso, bastaria aos americanos pressionarem por novas sanções e mover algumas de suas bases móveis de lançamento de mísseis para a Coréia do Sul para dar início ao conflito.

Só para reforçar meus argumentos, uma notícia de última hora: Ontem centenas de manifestantes sul-coreanos protestaram contra a Coréia do Norte e queimaram um boneco de Kim Jong-un no centro de Seul. A reação foi imediata, e hoje Pyongyang enviou um ultimato ao país vizinho ameaçando um ataque sem aviso prévio se não acabarem as manifestações hostis ao seu regime. A mensagem foi enviada por meio de comunicado, assinado pelo Comando Supremo da Coreia do Norte, e publicado na agência oficial de notícias do país. – “A nossa ação de represálias vai começar sem qualquer aviso, a partir de agora, enquanto os atos criminosos que ferem a dignidade do Comando Supremo da Coreia do Norte continuarem em Seul”, diz o texto.

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