Você está lendo...
Líbia

A guerra no Mali e a recolonização da África.


Embora o processo de ocupação territorial, exploração econômica, escravidão e domínio político do continente africano pelas potências europeias tenha começado no início no século XV, foi somente no princípio do século XIX que a África foi partilhada conforme os interesses estratégicos do imperialismo europeu, num processo histórico conhecido por neocolonialismo.

Africa

Nesse período as potências europeias se engajaram  numa “corrida à África” ocupando a maior parte do continente e criando inúmeras colônias. Em 1884 consolida-se a partilha da África com a Conferência de Berlim, que teve por objetivo organizar, em forma de regras, a ocupação do continente africano pelas potências coloniais e teve por resultado uma divisão geo-política que não considerou nem a história, nem as relações étnicas, religiosas e mesmo familiares dos povos africanos.
O modelo neocolonialista, além da expropriação dos recursos naturais da África, da devastação ambiental e da ruína social imposta aos africanos, é a causa direta dos inúmeros conflitos internos que até os dias de hoje assolam o continente negro. Isso porque, mesmo após o processo de “descolonização”, a partir dos anos 50, as potências ocidentais continuaram a manter o seu domínio através de ditaduras militares e governos corruptos alinhados aos interesses econômicos de seus ex-colonizadores. Na verdade, o único modelo possível aos interesses ocidentais naquele período de descolonização eram mesmo as ditaduras, uma vez que somente governos de força seriam capazes de manter a integridade territorial e um mínimo de estabilidade política necessária em razão de suas atividades econômicas nos países recém-independentes – que muitas vezes já nasciam em meio a guerras civis e conflitos sectários entre grupos étnicos e religiosos rivais que foram reunidos num mesmo território, por força da arbitrariedade da definição das fronteiras pela Conferência de Berlim.

african-union-gaddafi-007

Líderes da União Africana em visita à Trípoli, em abril de 2011. Fotografia: Mahmud Turkia / AFP / Getty Images

O fim da Guerra Fria, o processo de Globalização e a crise financeira no final dos anos 80 tiraram o foco das potências ocidentais da África. A partir da década seguinte, o líder líbio Muammar al-Gaddafi desencadeou uma revolução cultural, social e econômica que opôs a Líbia aos interesses ocidentais na África, quando utilizando-se da riqueza gerada pela exploração das grandes reservas de petróleo do país passou a investir bilhões de dólares para libertar os países africanos da dependência de seus antigos colonizadores. Nessa época também a China passou a exercer uma crescente influência econômica e política no continente, através de empréstimos bilionários e do aumento vertiginoso das relações comerciais. Com tudo isso, a influência da França e dos Estados Unidos sobre o continente africano diminuiu drasticamente, privando as potências ocidentais dos vantajosos contratos de exploração dos recursos naturais africanos, partilhas de produção e royalties que marcaram o neocolonialismo até os anos 80.

A reação ocidental a esta dupla ameaça foi violenta. Em 2007 os EUA criaram o AFRICOM (United States Africa Command), que sob pretexto de “proteger e defender os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos através do reforço da capacidade de defesa dos Estados africanos e as organizações regionais”, vem realizando intervenções políticas e militares na Africa Central e Oriental, destinadas a reforçar o poder dos EUA através da instalação de regimes fantoches, o estabelecimento de bases militares e a formação e doutrinação de forças militares mercenárias, apelidadas de “parceiros de cooperação”.  Desde então as potências ocidentais já conseguiram obter a esperada cisão do Sudão (tirando a maioria dos campos de petróleo do país), ocuparam os campos de petróleo da Nigéria, de acordo com as regras da Corte Internacional de Justiça, ocuparam a Líbia como resultado de uma intervenção militar direta (leia mais em https://mkninomiya.wordpress.com/2012/07/03/veja-porque-a-guerra-contra-a-libia-foi-uma-guerra-contra-a-africa-inteira/), e a Costa Marfim foi ocupada através de ação militar conduzida sob os auspícios das Nações Unidas. Maneiras diferentes, mas o mesmo resultado. O processo de recolonização tem ganhado impulso em toda África.

Mas depois de intervenções militares de sucesso duvidoso no Afeganistão e no Iraque, Washington tem se valido da economicamente débil e politicamente desesperada França – com promessas de apoio para fazer renascer o seu antigo império colonial africano – para fazer seu “trabalho sujo”.

É dentro deste contexto que Paris levou a cabo a operação militar no Mali em janeiro deste ano, uma guerra preparada desde o final do conflito na Líbia, quando os próprios franceses agiram para levar ao Mali as armas líbias capturadas após a queda de Gaddafi, potencializando o poder de fogo de grupos extremistas islâmicos, assim como os movimentos nacionalistas para independência de Azawad, que ao voltarem-se contra o Governo malinês deram o pretexto necessário para a ocupação daquele país africano.

Família malinesa num campo de refugiados. O conflito no país africano já produziu mais de meio milhão de refugiados que ameaçam desestabilizar países vizinhos.

Família malinesa num campo de refugiados. O conflito no país africano já produziu mais de meio milhão de refugiados que ameaçam desestabilizar países vizinhos.

De acordo com as estimativas do secretário-geral das Nações Unidas, a ocupação da parte norte do país pelos radicais islâmicos produziu cerca de meio milhão de refugiados e mais de 200.000 imigrantes no país. O desastre humanitário se espalhou para todos os países vizinhos. Todos os santuários muçulmanos de Timbuktu e outros antigos centros históricos do Saara foram destruídos. Os combates entre os jihadistas e os nacionalistas tuaregues, assim como os ataques às cidades controladas pelo Governo do Mali tinham por objetivo  “forçar” a comunidade internacional a aceitar uma intervenção militar. Este foi o ambiente certo para levar a cabo o golpe de Estado que teve lugar no Mali, em março de 2012, poucos dias antes da eleição presidencial, quando o Presidente Amadou Toumani Touré (contrário a uma intervenção militar ocidental) foi deposto. Em 11 de janeiro, tropas francesas desembarcaram em Bamako.

A África vive hoje um processo de recolonização, que coloca como atores principais os EUA e seus aliados ocidentais de um lado e a China de outro. A China usa a expansão econômica, enquanto as potências ocidentais baseiam seu domínio através das ações militares.

Hoje, a comunidade internacional saúda a invasão francesa para libertar o Mali. Aparentemente uma missão militar era necessária. Mas o país enfrenta uma escolha difícil: islamitas ou tropas francesas. O Mali vai pagar um preço alto pela “liberdade”: abdicar da sua soberania, dos seus enormes recursos minerais e da independência de muitos anos. Não é em vão que o presidente deposto, Amadou Touré, disse que Paris é mais perigoso do que Timbuktu! Mas certamente Touré não sabe que ambos são instrumentos de uma mesma conspiração!

Anúncios

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Estatísticas

  • 41,757 visitas
%d blogueiros gostam disto: