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Azawad, Política Internacional

A independência de Azawad, a intervenção militar francesa e a jihad islâmica. Entenda o que realmente está acontecendo no Mali.


No dia 18 de janeiro de 2013 a França iniciou sua última aventura imperialista na África, bombardeando campos de treinamento das milícias islâmicas que se rebelaram contra o Governo do Mali. Apesar do uso de armas modernas, e crescente aumento de seu efetivo militar, a intervenção francesa não conteve o avanço dos rebeldes, que continuam controlando toda região norte do Mali e prometem arrastar a França para uma guerra longa e brutal. Em uma ousada contraofensiva, os islamitas tomaram a cidade de Diabaly, onde hoje já estão sendo travados ferozes combates contra as tropas francesas. Apesar das previsões otimistas de Paris, que julgam poder conter a revolução no Mali em poucas semanas, o fato é que a situação no país africano é muito mais complexa do que mostram a imprensa e a propaganda ocidental.

maliO Mali encontra-se entre os países mais pobres do mundo – como também o são grande parte das ex-colônias francesas na África, justamente em razão do modelo colonialista que escravizou, pilhou, dividiu e massacrou de forma selvagem os povos africanos. Ao contrário da Argélia, cuja guerra pela liberdade custou a vida de mais de um milhão de argelinos e foi marcada pelas atrocidades cometidas pelo Exército francês contra a população local, a independência do Mali resultou de um processo político entre lideranças malinesas e o colonizador francês, excluídos porém os povos do norte, que não foram integrados no novo governo, em razão do qual passaram a lutar por uma nação árabe tuaregue independente: Azawad (leia mais sobre a luta do povo tuaregue)

A primeira rebelião tuaregue aconteceu entre 1961 e 1964, e terminou com a ocupação pelo Exército Malines de grande parte da atuais regiões de Kidal, Gao e Timbuktu, onde foram cometidos massacres em cidades e aldeias habitadas por tuaregues desarmados, o que levou a uma grave crise de refugiados, com milhares de pessoas fugindo para países vizinhos. Ao final da rebelião, sem receber qualquer tipo de concessão, os tuaregues foram forçados a retornar para sua terra devastada. A ocupação militar, os assassinatos, as torturas e as prisões arbitrárias que se seguiram ao final da rebelião deixaram um profundo ressentimento em grande parte da população do norte do Mali, o que levou a novas rebeliões.

combatentes tuaregues do MNLA

Combatentes tuaregues do MNLA.
Foto copiada do perfil de Azawad (Facebook)

Em 1990 o MNLA – Movimento Nacional de Libertação de Azawad, organização criada em 1988 na Líbia por refugiados tuaregues – lançou uma campanha armada pela independência, o que resultou numa guerra civil que durou seis anos e resultou na criação de uma nova região autônoma em Kidal e nas promessas – nunca cumpridas – de uma maior integração da sociedade tuaregue do Mali.

Em abril de 2012, na sequencia de um golpe militar que derrubou o presidente do Mali, Amadou Touré, o MNLA declarou a independência de Azawad, assumindo o controle de várias cidades no norte do Mali. Nesta ocasião, contaram com o apoio armado de grupos radicais islâmicos como o Ansar Dine – que não tem entre seus objetivos a independência de Azawad, mas a introdução da lei islâmica em todo país, como ficou bem expressado pelo seu líder, Omar Hamaha em discurso proferido logo após a tomada de Timbuktu:

“Nossa guerra é uma guerra santa, uma guerra legal, em nome do islã. Somos contrários às rebeliões. Somos contra as independências. Somos contrários a todas as revoluções que não sejam em nome do islã. Viemos para praticar o islã, em nome de Alá. O que queremos não é Azawad. É o Islã! É o Islã! A independência é o Islã. Esta é a verdadeira independência. É a prática da sharia [lei islâmica], do nascer ao pôr do sol. Nosso combate é em nome do islã. Não é árabe ou tuaregue, branco ou preto. É em nome do Islã”.
 

Foi dentro desse contexto que se deu a intervenção francesa no Mali, após rebeldes islâmicos terem atacado a estratégica cidade de Konna, no centro-sul do país, aumentando o risco de uma ofensiva contra a capital, Bamako. Aviões e helicópteros franceses bombardearam posições rebeldes no norte do Mali, enquanto desembarcavam cerca de 800 tropas terrestres na capital, efetivo que aumentou gradualmente nos dias subsequentes e que deve chegar a 5.500 homens nas próximas semanas – incluindo as tropas da Ecowas – Comunidade Econômica dos Estados do Oeste Africano.

AS MOTIVAÇÕES FRANCESAS

Ao menos oficialmente, intervenção francesa no Mali tem por objetivo impedir que o país africano se torne um “Estado terrorista”, o que poderia ameaçar o restante da África e da Europa. O discurso francês alinha-se à doutrina da “guerra contra o terror” inaugurada por Geoge W. Bush após a ação jihadista de 11 de setembro, e que levou os EUA a travarem o mais longo conflito de sua história, a um custo estimado quase meio trilhão de dólares e mais de 1.600 americanos mortos, números que só têm aumentado, enquanto os EUA ainda hesitam em retirar completamente suas forças de ocupação do Afeganistão. Será este o mesmo destino da França no Mali?

Mas existe algo mais por trás desta ação militar do que simples autruísmo. Enfrentando baixíssimos índices de aprovação interna, e sentindo os graves efeitos da crise econômica, o enfraquecido François Hollande buscou na guerra contra o radicalismo islâmico um artifício para recuperar os índices de popularidade e neutralizar a oposição ao seu Governo, no que a princípio obteve resultados satisfatórios. latufffrancamaliOutro motivo não declarado são os interesses econômicos em torno dos recursos minerais existentes na região e que desde o período colonial tem sido objeto da ganância das potências européias. O Mali é o terceiro maior produtor de ouro da África. Suas reservas de urânio estão estimadas em mais de 5.200 toneladas, sendo o Mali o único fornecedor deste minério à França. Recentemente foram descobertos trinta filões quimberlíticos na região de Kayes, dos quais oito mostraram traços de diamantes. O Mali ainda possui recursos significativos, mas ainda não explorados, de ferro, manganês, bauxita, cobre e lítio, além de um potencial petrolífero que tem sido documentado desde a década de 1970, quando pesquisas sísmicas revelaram indicações prováveis de óleo. Essas informações não tem sido veiculadas na mídia ocidental, mas certamente são motivos determinantes para uma intervenção militar que venha a garantir o acesso desses valiosos recursos ao colonizador ocidental.

A ILEGITIMIDADE DO ATUAL GOVERNO DE MALI

Após sua independência em 1960, o Mali passou grande parte da sua história (de 1968 a 1991) sob regime ditatorial, depois que Moussa Traoré comandou um golpe militar (1968) e assumiu o controle do país com o apoio do Exército. Em 1991 um novo golpe de estado derrubou Traoré e após um breve governo de transição e a realização de uma nova constituição, foi implantado no país um regime democrático. Em 1992 Oumar Konaré vence as as primeiras eleições presidenciais democráticas, sendo reeleito em 1997. Em 2002, foi substituído por Amadou Touré, que governou até março de 2012, quando também foi derrubado por um golpe militar, sob pretexto de que não tinha sido capaz de conter com eficácia as revoltas do norte do país, especialmente o movimento separatista tuaregue, comandado pelo MNLA. A declaração de independência de Azawad ocorreu poucas semanas após o golpe, aproveitando-se do hiato de poder e do caos que se instalou em Bamako. Sob pressão externa os golpistas “devolveram” o governo aos civis, sendo nomeado presidente o líder do Parlamento malinês, Dioncounda Traoré, de 70 anos e aliado do presidente deposto (que por essa razão é visto com desconfiança pelos malineses). A verdade é que hoje o Mali não possui um governo legítimo nem um exército capaz de combater os extremistas islâmicos ou os separatistas tuaregues. A presença francesa no país pode parecer conveniente aos malineses do sul nesse momento de incerteza, mas é difícil acreditar que as tropas de ocupação francesas ou de outros países africanos serão aceitas por muito tempo no Mali.

Se a verdadeira intenção dos franceses é afastar a “ameaça terrorista” no Mali, a melhor alternativa seria costurar um acordo político com o MNLA – única força capaz de conter o avanço jihadista – que contemplasse o reconhecimento internacional à independência de Azawad e a garantia de imediata e total desocupação de suas terras por tropas estrangeiras após o conflito. Em contrapartida, o exército tuaregue combateria contra os extremistas em conjunto com o contingente de paz centro-africano e militares franceses.

Soldado frances morto no mali

O tenente Damien Boiteux foi o primeiro militar francês morto no Mali. Voltou para casa em um esquife e recebeu homenagens do primeiro-ministro em cerimônia solene. E quando os corpos começarem a chegar às dezenas, centenas? E quando os aviões desembarcarem centenas de feridos e mutilados? O que farão as autoridades francesas?

Por outro lado, também existe a possibilidade de um acordo semelhante entre o MNLA e os jihadistas islâmicos, que dividiria o Mali em dois países: Azawad ao norte, sob controle tuaregue e um califado islâmico ao sul, governado pelo Ansar Dine. Ou pode não haver acordo algum, o que levaria o país a uma guerra interminável, de todos contra todos, que se espalharia pelos países vizinhos e agregaria elementos jihadistas que até o momento encontram-se “adormecidos” (o atentado ao campo de gás da BP na Argélia é um exemplo trágico desse fenômeno). Nesse caso, os franceses devem esperar por uma guerra longa, custosa e sangrenta, “uma armadilha mais perigosa que o Iraque, o Afeganistão ou a Somália“, que vai deteriorar a já combalida economia francesa e provocar enormes estragos no seu estabilishment político, na medida em que os corpos de seus soldados mortos começarem a chegar em sacos pretos ou quando ações terroristas banharem de sangue as ruas de Paris.

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