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Líbia, Oriente Médio, Política Internacional, Síria

Crises no Oriente Médio dominam os discursos na abertura da 67ª Assembléia Geral das Nações Unidas


A abertura da 67ª Assembléia Geral das Nações Unidas, que reuniu os líderes mundiais entre os dias 25 e 29 de setembro, foi marcada pela crescente preocupação com as crises no Oriente Médio. Além da conspiração estrangeira que alimenta a guerra civil na Síria ocuparam lugar de destaque a questão nuclear iraniana, a onda de violência no mundo árabe contra o filme islamofóbico e o apoio à questão palestina.

EGITO – Mohamed Mursi

Foi também a estréia do presidente egípcio Mohamed Mursi, primeiro líder da primavera árabe a discursar no plenário. Falando da guerra civil na Síria, Mursi reiterou o compromisso de buscar uma solução regional para o conflito, opondo-se firmemente a uma intervenção militar estrangeira na Síria.

– “A guerra civil no país vizinho precisa ser resolvida pelo povo sírio em sua unidade. (…) (Acreditamos) em uma solução que envolva todas as facções do povo sírio sem discriminação racial, religiosa ou sectária e poupe a Síria de uma intervenção militar estrangeira, a qual somos contra” (…) “É evidente que o Egito se manifestará contra a realização de tal operação militar”.

O discurso de Mursi foi uma resposta ao líder do Catar, Hamad Bin Khalifa Al-Thani, país que apóia com armas e dinheiro os rebeldes sírios. No dia anterior, Al-Thani fez declarações propondo que as potências mundiais deveriam “colocar um fim às violências na Síria” e não esperar pela resolução do Conselho de Segurança sobre o assunto.

O Presidente do Egito disse ainda que seu país defende “uma liberdade de expressão que não permita a discriminação religiosa e criticou o que chamou de “islamofobia” no Ocidente.

– “Os muçulmanos são vítimas de abusos de direitos humanos em vários países, e os ataques cruéis às suas crenças são inaceitáveis. Nós não podemos aceitar os ataques ao profeta Maomé. Não permitiremos que ninguém faça isso” (…) “Os ataques ao Islã vão contra os princípios da ONU, e tem nome: islamofobia. Devemos lutar contra a discriminação com base em religião ou raça. A Assembléia Geral e o Conselho de Segurança têm responsabilidade nesse tema que claramente afeta a segurança internacional”.

Suas declarações faziam referência ao trailer do filme “Innocence of Muslims”, que satiriza o profeta Maomé e foi estopim de uma onda de protestos contra os Estados Unidos. – “Nós nos opomos a qualquer um que se opõe a Maomé, descrito no Alcorão como um homem de grande humanidade”.

Mursi condenou as ameaças ao  Irã e pediu o “fim de programas nucleares no Oriente Médio sem exceções“, referindo-se a Israel, que possui bombas atômicas. “A única solução é acabar com todas as armas de destruição em massa no Oriente Médio”, afirmou o presidente egípcio, que defendeu, porém, o uso de energia nuclear para fins pacíficos. Ele também denunciou uma “falsa estabilidade na região que responde aos interesses de algumas nações” e reclamou, assim como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, da política de “dois pesos e duas medidas” na ONU. O presidente egípcio aproveitou ainda a atenção recebida em seu discurso de 40 minutos para defender a causa palestina e pedir cooperação da ONU.

– “Muitas longas décadas passaram desde que os palestinos expressaram desejo de restaurar todos os seus direitos e construir um estado com Jerusalém como capital. Israel, no entanto, considera a capital indivisível. É vergonhoso que assentamentos continuem a ser construídos nas terras do povo palestino. Eu peço à comunidade internacional que termine com todas as formas de ocupação nas terras árabes. Peço ações sérias para o fim da colonização e ocupação dos territórios palestinos. Eu peço por uma paz que permita a criação de um estado palestino. Peço que vocês apoiem os palestinos assim como apoiaram as revoltas árabes”.

IRà– Mahmoud Ahmadinejad

Em seu último discurso na condição de chefe do governo iraniano, Mahmoud Ahmadinejad afirmou que sua nação está comprometida com a paz global e culpou outras potências, como Estados Unidos e Israel, de participarem de uma corrida armamentista e de provocarem o povo iraniano com bravatas. Ele defendeu sua visão de uma nova ordem mundial livre da “hegemonia da arrogância”, e afirmou que o Irã está vivendo sob a ameaça contínua de uma ação militar. Como de praxe, as delegações dos Estados Unidos e de Israel boicotaram seu discurso na Assembléia Geral da ONU.

– “A corrida armamentista e a intimidação pelas armas nucleares e de destruição em massa por parte das potências hegemônicas tornou-se preponderante. (…) A ameaça persistente dos sionistas incivilizados de recorrer a uma ação militar contra nossa grande nação é um claro exemplo desta amarga realidade”.

Em resposta ao discurso do premiê israelense Benjamin Netanyahu, Ahmadinejad prometeu retaliação em caso de ataques estrangeiros:

“O Irã tem a força necessária para se defender e se reserva o direito de responder com toda sua força contra qualquer ataque”.

Outro assunto tratado por Ahmadinejad, no que foi longamente aplaudido, foi o aumento da desigualdade social:

 – “A pobreza é imposta às nações e as ambições e as metas das potências são buscadas seja por meio de artifícios ou pelo recurso à força. A situação abissal atual do mundo e os incidentes amargos da história se devem principalmente ao gerenciamento errôneo do mundo e dos auto proclamados centros de poder que se entregaram à maldade”

Para Ahmadinejad, o mundo atual tem sido regido pelos interesses materiais, não por valores morais. Ele também pediu uma reforma na organização das Nações Unidas:

“A ONU pertence a todas as nações. Se uma nação é discriminada, isso é um insulto a todas as nações”, disse ressaltando que a desconfiança rege as relações entre os países. “Não há dúvidas de que o mundo precisa de uma nova ordem e um novo modo de pensar (…) em que todos sejam iguais perante a lei, em que não exista dois pesos e duas medidas”.

O Irã enfrenta uma crescente pressão internacional sobre seu programa nuclear, que as potências ocidentais asseguram ter objetivos militares. Teerã, no entanto, nega com veemência essa possibilidade e denuncia um possível ataque de Israel contra suas instalações nucleares.

Ahmadinejad disse que o Irã é capaz de evitar e neutralizar operações de sabotagem às suas instalações nucleares e repetiu que o país está aberto para o diálogo com os Estados Unidos. “Estamos abertos para o diálogo e para a resolução de problemas. Nunca tivemos nenhum problema com o povo dos EUA”.

Na véspera, o presidente americano, Barack Obama, prometeu em seu discurso aos líderes mundiais reunidos na ONU que seu país fará tudo que for necessário para impedir que o Irã obtenha armas nucleares.

ISRAEL – Benjamin Netanyahu

 A posição norte americana avaliza a política israelense para o Oriente Médio, no que ficou claramente demonstrado no discurso do premier israelense  Benjamin Netanyahu, que protagonizou uma cena patética, ao demonstrar com um desenho de uma bomba com o pavio aceso, o risco do programa de enriquecimento iraniano.

Em seu discurso Netanyahu, exigiu da comunidade internacional o estabelecimento uma “linha vermelha clara” nas pretensões nucleares do Irã, advertindo que o futuro do mundo depende de impedir que a República Islâmica obtenha a bomba atômica.

“Está ficando tarde, muito tarde”, alertou Netanyahu, ao dizer que o programa nuclear iraniano já avançou 70% no processo de enriquecimento de urânio necessário para a bomba atômica.

“O Irã deve ser interrompido antes que atinja 90% do desenvolvimento de seu programa nuclear”, disse Netanyahu, no discurso em que ele usou um gráfico de uma bomba com o pavio aceso, representando o programa de enriquecimento iraniano.

A hipocrisia israelense não o permitiu mencionar porém que quem cruzou a “linha vermelha” há muitos anos foi Israel, que mantêm um arsenal de armas nucleares não declaradas e que jamais assinou – ao contrário do próprio Irã – o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Ao comentar o discurso de Netanyahu, o ministro da Defesa do Irã, general Amad Vahidi, foi enfático:

“Se possuir a arma nuclear significa cruzar a linha vermelha, o regime sionista, que possui dezenas de ogivas nucleares e armas de destruição em massa, cruzou há vários anos a linha vermelha, e temos que detê-lo. (…) Quem é mais perigoso, o regime de ocupação e agressor sionista, que possui armas nucleares, ou o Irã, que não tem armas nucleares e que é o país que mais insiste no desarmamento nuclear, e busca unicamente dominar a energia nuclear com fins pacíficos dentro das regras internacionais?”

Falando sobre a questão palestina, Netanyahu afirmou que o discurso do presidente palestino, Mahmoud Abbas, feito antes do seu na mesma tribuna, era “calunioso”.

PALESTINA – Mahmoud Abbas

De fato, o discurso do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas foi bastante crítico em relação ao Estado Judeu, mas longe de ser calunioso retratou a triste realidade vivida por milhares de palestinos diariamente em sua resistência contra a política expansionista do governo israelense:

“Os ataques de milícias terroristas dos colonizadores israelenses se tornaram uma realidade diária, com ao menos 535 ataques já este ano”, afirmou Abbas sobre os assentamentos judaicos na Palestina.

Abbas denunciou que a população palestina é alvo de uma “limpeza étnica” e classificou os assentamentos israelenses nos territórios ocupados de “catastróficos” e “racistas”.

“Trata-se de uma campanha de limpeza étnica contra o povo palestino através da demolição de suas casas (…) Concluímos, portanto que o Estado de Israel rejeita a solução de dois Estados. Não pretendemos deslegitimar um Estado já existente, entenda-se Israel, e sim fazer valer os direitos de um Estado que deve se formar. (…) Nós não tentamos deslegitimá-los. Eles tentam nos deslegitimar.”

Mas Abbas disse que ainda acredita em uma solução de dois Estados para resolver a crise regional, e pediu que o Conselho de Segurança da ONU “adote rapidamente uma resolução que assente as bases para uma solução para o conflito israelense-palestino que sirva de referência vinculante e de guia” para um acordo de paz com base em “dois Estados, Israel e Palestina”.

No ano passado a Autoridade Nacional Palestina havia buscado o reconhecimento de Estado soberano nas Nações Unidas. Esse pedido ambicioso tinha que passar pelo Conselho de Segurança da ONU, mas não conseguiu reunir votos suficientes diante da dura pressão dos EUA, aliado histórico de Israel. Neste ano, requereu à Assembleia Geral da ONU que o país seja reconhecido como “Estado não membro” da entidade, o que significaria, na prática, o reconhecimento, por parte das Nações Unidas, do Estado Palestino.

Abbas disse esperar que “a Assembleia Geral adote uma resolução considerando o Estado da Palestina como um ‘Estado não membro’ das Nações Unidas durante essa sessão“, que termina em setembro de 2013, e foi bastante aplaudido.

RUSSIA – Sergei Lavrov

Em outro discurso bastante esperado, a Rússia, representada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, também colocou a situação no Oriente Médio no foco de suas preocupações, afirmando que “é um verdadeiro teste para a comunidade internacional em relação aos Estatutos da ONU.”

– “Os que estão interessados na estabilidade da região do Oriente Médio e no mundo em geral devem se apoiar nos Estatutos da ONU. Estes princípios fundamentais não autorizam em hipótese alguma fazer a substituição de regimes. Portanto, é inadmissível impor aos povos as estruturas políticas dos seus países.”

Lavrov acusou o Ocidente de agravar a situação na Síria por não aplicar o acordo de Genebra, formulado em 30 de junho deste ano, em Genebra, Suíça, pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e pelos representantes da Liga Árabe para uma transição pacífica no país, enquanto os Estados Unidos anunciaram novas ajudas à oposição civil.

“Propusemos adotar no Conselho de Segurança uma resolução que aprove o Comunicado de Genebra como base para conversações sobre o início do período de transição, mas esta proposta foi bloqueada. Aqueles que se opõem à aplicação do comunicado de Genebra assumem uma responsabilidade enorme perante o mundo. Insistem em um cessar-fogo que seria imposto apenas ao governo e incentivam a oposição a intensificar as hostilidades. Ao fazer isto, empurram a Síria ainda mais profundamente à guerra civil”.

Concluindo o seu pronunciamento, o Ministro Sergei Lavrov frisou que há muitos assuntos importantes a serem debatidos e resolvidos pela comunidade internacional, como as discussões envolvendo o Irã, a situação entre Israel e a Autoridade Nacional Palestina, a chamada Primavera Árabe e os conflitos em países da África.

ZIMBABWE- Robert Mugabe

E veio da África um duro e certeiro golpe de transparência contra a hipocrisia das potências ocidentais. O presidente de Zimbabwe – país que também enfrenta sanções por muitos países ocidentais – Robert Mugabe, acusou o Conselho de Segurança de empunhar um “apetite insaciável para a guerra”, e condenou a campanha da OTAN que ajudou a derrubar Muammar Gaddafi da Líbia.

 – “A hegemonia militar da OTAN na Líbia mostrou como os membros da aliança são inspirados pela crença arrogante de que eles são os mais poderosos entre nós.”

Mugabe disse aos líderes mundiais:

 – “Posso prefaciar meu discurso com referência ao discurso mais brilhante e mais comovente que ouvi de um presidente dos Estados Unidos, para que todos condenassem a trágica morte do embaixador dos EUA na Líbia. Tenho certeza de que todos nós fomos convencidos, concordamos que foi uma morte trágica e a condenamos. Mas há um ano, vimos a morte bárbara e brutal do chefe de Estado da Líbia, um representante de seu país, membro da União Africana. Sua morte ocorreu no contexto em que a OTAN estava operando supostamente para proteger os civis. Como nossos espíritos se juntam aos Estados Unidos na condenação de morte de Stevens, da mesma forma os Estados Unidos também se juntará a nós na condenação da morte bárbara do chefe de Estado da Líbia, Kadafi? (…) A morte de Kadafi foi uma grande perda para a África, uma perda trágica para a África. (…) A missão da OTAN era estritamente para proteger os civis, mas descobriu-se que havia uma caçada, uma caçada brutal para matar Kadafi e sua família. Eles foram procurados, a OTAN os encontrou e eles sofreram as mortes brutais que nós conhecemos. (…) O Conselho de Segurança ignorou as tentativas de acabar com as disputas pacificamente. Ao contrário, parece haver um apetite insaciável para a guerra, embargos, sanções e outras medidas punitivas”.

Um discurso inesperado, verdadeiro, transparente, vindo de uma pequena e pobre nação africana, mas que retrata bem o que hoje a ONU representa, e porque falha em alcançar o que deveria ser sua missão precípua, um instrumento para alcançar a paz mundial. A ONU hoje não passa de fantoche das potências hegemônicas ocidentais e do sionismo.

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