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Política Internacional

Ofensas ao Islã desencadeiam protestos anti-americanos no mundo muçulmano


Cinco dias após a divulgação de um filme norte-americano que ofende o Islã e ridiculariza o profeta Maomé, uma violenta onda de protestos, que começou no Egito e na Líbia, continua alastrando-se por todo mundo muçulmano, chegando a países na África e na Ásia.

No dia 11/9 manifestantes invadiram a embaixada americana no Cairo, arrancaram a bandeira dos EUA e a substituíram por um pavilhão islâmico. Na Líbia manifestação semelhante teve um desfecho mais trágico, com a morte de quatro americanos, entre eles o embaixador Christopher Stevens, que durante a revolta contra Kadhafi atuou como enviado especial dos EUA para auxiliar os rebeldes.

No mesmo dia houveram manifestações diante das embaixadas americanas na Tunísia, no Marrocos  e na Cidade de Gaza. Nos dias seguintes a onda de protestos alastrou-se por todo mundo muçulmano, atingindo o Sudão, Iêmen, Irã, Kuwait, Líbano, Argélia, Nigéria, Somália, Síria, Jordânia, Afeganistão, Paquistão, Índia, Qatar, Sri Lanka, Ilhas Maldivas, Caxemira, Indonésia e Bangladesh. Até mesmo na Europa registraram-se manifestações contra os EUA. No Reino Unido cerca de 200 pessoas queimaram bandeiras americanas diante da embaixada em Londres.

A polêmica em torno do filme “A inocência dos muçulmanos” começou depois que trechos foram divulgados através da internet e publicamente promovidos pelo pastor americano Terry Jones e pelo ativista egípcio Morris Sadek. Produzido na Califórnia, o filme apresenta uma versão satírica e ofensiva ao profeta Maomé, questionando ainda sua figura como mensageiro da palavra de Deus. Segundo declarações do diretor Sam Bacile, o filme teria custado cerca de US$ 5 milhões, e foi pago através de recursos arrecadados junto a doadores judeus.

Apesar das declarações da Secretária de Estado Hillary Clinton, de que “o governo dos EUA não tem absolutamente nada a ver com esse vídeo”, a verdade demonstrada pelos fatos históricos é muito clara, e nos permite atribuir categoricamente toda responsabilidade pelo ocorrido à política racista, preconceituosa e conflituosa com que os EUA se relacionam com o mundo islâmico.

A forma como o Islã e o profeta Maomé foram retratados nesse filme representa o estereótipo criado pelos EUA em relação a todo mundo muçulmano, que dessa forma interessa ao Governo seja entendido pelos americanos. Assim, torna-se politicamente aceitável junto ao seu público interno gastar bilhões de dólares para “proteger” Israel de “terroristas” palestinos; ou invadir e ocupar o Afeganistão em nome de uma “guerra contra o terrorismo”; ou atacar o Iraque em razão de uma ação preventiva contra um país que possuiria “armas de destruição em massa”; ou ainda ajudar, com dinheiro, armas e homens, grupos rebeldes e mercenários a desestabilizarem e deporem governantes, como aconteceu na Líbia e está acontecendo na Síria.

Essa visão estereotipada é responsável também pelo surgimento de extremistas como o  pastor Terry Jones, que em 2010 ameaçou queimar edições do Alcorão, ou pelo comportamento bárbaro de soldados americanos que foram flagrados urinando sobre corpos de combatentes talibãs. Em 2004 imagens de prisioneiros iraquianos em  Abu Ghraib humilhados por militares americanos escandalizaram o mundo. Em fevereiro deste ano militares americanos queimaram cópias do livro sagrado dos muçulmanos, e mais recentemente um integrante da força especial que assassinou Osama Bin Laden revelou em livro que seus restos mortais não foram tratados segundo os preceitos islâmicos e que durante o vôo até o local onde seria atirado ao mar um soldado americano viajou sentado sobre o cadáver.

Apesar da desfaçatez e do tom muitas vezes conciliador do presidente Obama, a verdadeira face dos EUA se evidencia nas palavras do candidato republicano Mitt Romney, que se pronunciou favorável a uma intervenção militar direta na Síria e no Irã, além de defender “prioridade para Israel na política externa”.

Exatamente o que seguidos governos americanos tem feito nos últimos cinquenta anos: um histórico de intervenções armadas, apoio a governos títeres como os de Hosni Mubarak e a realeza saudita, e o comprometimento incondicional com a causa sionista.

Não há dúvida de que o filme de Sam Bacile constitui um crime contra a humanidade e deve ser repudiado não apenas pelos muçulmanos como também por todas as pessoas sensatas do mundo, independentemente de sua religião, mas é preciso entender que não foi somente o filme o que causou toda esta fúria no mundo islâmico. As verdadeiras – e justas – razões são as históricas, que alimentam um sentimento anti-americano cultivado em anos de humilhação, invasões armadas e apoio irrestrito a Israel e disso, os Governos americanos, do passado e do presente, são responsáveis.

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