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Política Internacional, Síria

Conflito na Síria. Uma avaliação independente (entrevista com a jornalista Anhar Kochneva)


Anhar Kochneva fala do conflito nas ruas de Damasco.

A jornalista independente Anhar Kochneva vive e trabalha na Síria há mais de dez anos. Ela é russa, fala árabe fluentemente e seus amigos e vizinhos são sírios comuns. Ela caminha pelas mesmas ruas de Damasco e vai às compras nas mesmas lojas que qualquer outro residente da capital síria. Eis o que Anhar tem a dizer sobre a situação na Síria:

Os protestos pró-democracia. Como começou a crise na Síria?

– “Primeiramente, não havia sinais de qualquer crise há um ano. Nada de extraordinário aconteceu em março de 2011. A coisa toda começou como um caso de atividade criminosa. Eu sempre fico furiosa quando os jornalistas escrevem que “tumultos e manifestações de massa foram ocorrendo na Síria durante os últimos meses”. Não é verdade. Eu tenho vivido permanentemente na Síria durante os últimos sete meses, e vi apenas três chamadas “manifestações”. Digo chamada, porque haviam muito poucas pessoas e a “manifestação” foi claramente encenada como uma performance para os jornalistas. “Protestos” foram filmados em vídeo por cinco ou dez minutos, após o qual as pessoas dispersam rapidamente. Em algumas cidades, onde os bandidos tomaram o controle temporariamente, as pessoas eram forçadas a ir às manifestações. Eu vim à Síria no final dos anos 90. Para dizer a verdade, eu não gostava do país. No tempo em que vivi neste país pude observar como ele mudou. A vida mudou, as pessoas mudaram. As pessoas começaram seus próprios negócios, pois eles têm sua própria propriedade. Portanto, as pessoas talvez tenham apoiado um movimento de protesto há 10 anos, mas agora não. Agora as pessoas querem estabilidade. Há caos desnecessário, algumas desordens. Eles estavam acostumados a viver em um país pacífico. A Síria é um dos países mais seguros da região. Aqui você pode deixar um saco com dinheiro na rua, retornar dois dias depois, e encontrá-lo no mesmo lugar. Agora, infelizmente, não é mais assim. Agora as pessoas têm medo”.

Quem está planejando as explosões, atirando em pessoas e destruindo edifícios?

– “Algumas semanas atrás eu estava em Homs. Eu estava no tristemente conhecido bairro de Baba Amr, distrito de Homs. A maioria dos moradores deixaram suas casas. Meus amigos vivem a 800 metros da Baba Amr. Eles me disseram que os bandidos dispararam contra suas casas. Não é o Exército. O exército sírio não mata pessoas. Eles só respondem quando a situação é extrema. A maioria das vítimas nos últimos meses são soldados do Exército sírio. Se você ver fumaça preta em um vídeo “feito pelo celular”, não é o resultado de fogo de artilharia do exército, é fumaça da queima de pneus. Um mês atrás eu estava em Zabadani, no sudoeste da Síria. Os bandidos mantiveram a cidade inteira com medo. Muitas vezes ouvimos e lemos na mídia sobre a catástrofe humanitária na Síria. A catástrofe humanitária começa quando uma cidade cai nas mãos de bandidos. Em Zabadani, eu e meus colegas fomos capturados por bandidos. Eles nos mostraram um tanque enferrujado e disseram que o tanque disparou na cidade. Mas as duas casas em ruínas estavam no meio do bairro. Eu não acho que o tanque poderia disparar a partir do ar ou de trás da esquina. Eles reuniram uma dezena de pessoas e organizaram uma manifestação especialmente para nós. Neste momento eu olhei para o rosto das pessoas. Só vi o medo e o ódio nos rostos. Eles estavam com medo dos bandidos e os odiavam.”

Soldados da fortuna – Quem são os rebeldes que combatem o regime de Assad?

– “Há um monte de soldados da fortuna entre os bandidos. Eles são chechenos, romenos, franceses, libaneses e afegãos. Além disso, houve um acidente muito engraçado com soldados afegãos. Alguns afegãos foram capturados e foram perguntados: – “O que você está fazendo aqui?”. Eles responderam: – ” Fomos informados de que chegamos a Israel, e à noite, estamos atirando em ônibus israelenses. Estamos lutando com o inimigo para libertar a Palestina”. Pode parecer engraçado, mas é verdade. Os caras estavam realmente surpresos, “Estamos na Síria? Pensávamos que estávamos em Israel!”. Criminosos sírios também fazem parte dos grupos armados. Estes são os verdadeiros criminosos que deveriam estar na prisão. Tais pessoas podem ser encontradas em qualquer país. É muito comum que quando assumem o controle de uma cidade, eles imediatamente destroem os arquivos criminais. Existem esses tipos de pessoas, em qualquer sociedade … as pessoas que gostam de desfrutar do poder, que não querem trabalhar mas querem ter dinheiro. Temos cada vez mais casos de roubo. Seu número não é grande. Por outro lado, não é necessário um grande número de pessoas para aterrorizar a cidade. Dois atiradores armados podem paralisar a vida nas ruas. O que a oposição quer é o caos e não as reformas”.

As eleições parlamentares ocorreu em 07 de maio de 2012. A oposição participou?

“Sim, a campanha foi muito ativa. Todas as paredes das principais ruas de Damasco estavam cobertas de cartazes dos candidatos. Eles disseram que 7.200 candidatos estavam competindo por 250 lugares. Por que você tem certeza que o voto não era democrático? Quem diz isso? Os líderes da oposição síria? Eles estão vivendo no exterior, na Europa, durante décadas. O que eles sabem sobre a Síria real? O que eles sabem sobre as nossas necessidades? O povo sírio é quem deve decidir o seu futuro. Os principais partidos da oposição que atuam na Síria participaram das eleições parlamentares. Três dias atrás, o filho do chefe do Partido Sírio Nacional foi morto. Ele vinha  recebendo ameaças para que o partido não participasse das eleições, mas o partido recusou e então o cara estava morto. Quem é responsável por isso? O governo ou os que não querem as mudanças positivas na Síria? Os bandidos não precisam de reforma, apenas necessitam de desestabilização e do caos no país.

A quem interessa o conflito na Síria?

“Tragicamente, a Síria é um obstáculo para os EUA em sua tentativa de mudar o equilíbrio político no Oriente Médio. Leia o livro “Onde invadir em seguida”, editado por Stephen Elliott, e você vai entender muito sobre a Primavera Árabe. Graças aos meios de comunicação globais, nós todos vivemos na realidade da mídia. O mundo inteiro está assistindo a um filme sobre algo que não existe de fato, é ficção sob o disfarce de eventos reais. Esta é uma manipulação da opinião pública. Observadores da ONU, vejam vocês mesmos! Qual é a atitude em relação ao plano de Annan na Síria? Uma opinião é que esta é uma tentativa de dar os bandidos tempo para se reagrupar. Por outro lado, há a segunda versão: a de que os EUA querem sair desta situação sem perder a pose. Através do veredito da ONU, eles reconheceriam o fato de o Governo da Síria estar certo e suspenderiam a ajuda aos bandidos para não agravar a situação. Eu prefiro a segunda versão. Eu acho que é verdade, porque é impossível não ver a verdade. Pode se enganar uma vez e ainda duas vezes, mas é muito difícil de enganar todo o tempo. Estou certo de que os 300 observadores da ONU vão ver a verdade. Forçá-los a mentir – é difícil. Em janeiro, uma missão da Liga dos Estados Árabes deu um relatório detalhado sobre os acontecimentos em Damasco. Eles relataram que a conduta da polícia em Homs foi uma reação às atividades das gangues armadas. Até agora, o relatório da comissão da Liga não foi publicado. Espero que o pessoal da ONU sejam pessoas decentes, que irão analisar objetivamente a situação”.

Você apoia o Governo da Síria?

–  “Eu? Eu não conheço ninguém do governo. Eu apoio o povo da Síria. Ninguém mais”.

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Discussão

2 comentários sobre “Conflito na Síria. Uma avaliação independente (entrevista com a jornalista Anhar Kochneva)

  1. Parabens pela forma como essa brilhante reportagem foi feita, podemos ver uma grande dose de verdade nas palavras desta brilhate profissional da verdade…o que interessa-nos e a segurança das pessoas que querem a paz e a verdade… chega de facismo capitalista pelo petroleo.

    Publicado por Maurico | 2013/05/30, 12:52

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