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Ocupação chinesa no Tibete, Política Internacional

A Guerra pela Água e a questão tibetana


Sob pressão internacional, é até possível que a China possa no futuro abrir concessões sobre os direitos do povo tibetano. Mas é muito pouco provável que ela conceda uma independência ao Tibete. Por que razão? Os recursos naturais. A região do Tibete, com cerca de 2,5 milhões de km2, é muito rica em recursos naturais, de madeira a minérios, e tem um enorme potencial hidrelétrico.

Estima-se que em 1959 o Tibete tinha cerca de 25,2 milhões de hectares de florestas. Em 1985, esta área havia sido reduzida para 13,5 milhões de ha. Hoje o Tibete tem a maior extensão de florestas do território chinês, cobrindo cerca de sete milhões de ha e avaliadas em dois bilhões de metros cúbicos de madeira. Considerando-se que grande parte das reservas de madeira em território chinês já foram exauridas, a reserva tibetana tem um valor ainda maior para uma China ávida por madeira.

Mas são nos recursos minerais e hidrelétricos que se entende a importância estratégica do Tibete para a China. A mineração em larga escala na região do Tibete pelos chineses começou no final da década de 1960. Sete dos 15 principais minerais da China devem se esgotar nos próximos 10 anos, forçando um aumento na extração das reservas destes minerais no Tibete. Metade das reservas mundiais de urânio de alta qualidade do mundo estão nas montanhas ao redor da capital Lhasa e o Tibete tem 40% das reservas de minério de ferro da China, além de grandes reservas de carvão mineral, ouro, chumbo, bórax e petróleo.

Em fevereiro de 2007, as autoridades chinesas anunciaram com grande pompa a descoberta de mais de 600 novas jazidas de cobre, minério de ferro, chumbo e minério de zinco no platô tibetano. Estudos preliminares estimam reservas de 30 a 40 milhões de toneladas de cobre, 40 milhões de toneladas de chumbo e zinco e uma enorme quantidade de minério de ferro. A produção de cobre na China deve aumentar em 30% com estas descobertas. Hoje, cerca de 90% das reservas de minério de ferro da China são de baixa qualidade, mas as descobertas no platô tibetano apontam minério de alta qualidade. Especialistas estimam que as reservas minerais no Tibete valham, no mínimo, 82 bilhões de dólares. Reservas promissoras de petróleo também foram encontradas na região. A extração já ocorre e dutos já escoam a produção de gás e óleo no platô tibetano.

O histórico de total desrespeito ao meio-ambiente pela China é repleto de exemplos. Os que ousam protestar contra este cenário são censurados e “desaparecem”. Em junho de 2007, centenas de tibetanos protestaram contra a exploração da montanha Yala, uma das nove montanhas consideradas sagradas pelos budistas. O que se seguiu foi o desaparecimento de vários dos manifestantes. Um bom exemplo de como funciona a liberdade de expressão na China.

O uso do Tibete como depósito de lixo tóxico, incluindo lixo nuclear, pela China também é uma questão ambiental que atrai cada vez mais a atenção de outros países. Em 1984, a China já oferecia receber e estocar no Tibete lixo radioativo de outros países ao preço de 1500 dólares por quilo. O platô tibetano também é local de instalações nucleares secretas chinesas. O primeiro míssil nuclear chegou em 1971 e há 10 anos, acreditava-se que a China tinha 17 estações secretas de radar, 14 bases aéreas, oito bases de mísseis no Tibete.

A lista de acusações sobre o desrespeito ambiental pelos chineses no Tibete é longa e passa ainda pela sobre-pesca em lagos considerados sagrados pelos budistas, contaminação de corpos d´água, substituição de vegetação nativa por pastagens e posterior desertificação de áreas, e a super-utilização e degradação de pastagens nativas. Para garantir a ocupação do território, a China estabeleceu ainda um programa de incentivo de migrações de chineses para o platô tibetano, realizando a construção de estradas e ferrovias, permitindo o relaxamento do controle de migração (rigoroso em outras áreas), facilitando a instalação de empreendimentos privados e concedendo subsídios aos migrantes. A China concluiu a construção da ferrovia Gormo-Lhasa, a um custo de 6,2 bilhões de dólares, a fim de permitir os escoamento de recursos naturais do platô tibetano para a China e encorajar a migração de chineses para o Tibete.

Mas são os recursos hídricos que talvez melhor expliquem a insistência da China em manter a região sobre o seu controle. O Tibete concentra as nascentes de vários dos mais importantes rios da Ásia, incluindo o Brahmaputra, Indus, Mekong, Yangtsé e Rio Amarelo. Estes rios fluem por países como China, Índia, Paquistão, Nepal, Butão, Bangladesh, Burma, Tailândia, Laos, Vietnã e Camboja. A disponibilidade de água doce no Tibete coloca-o entre os maiores depósitos do mundo e é cerca de 40 mil vezes maior do que as reservas em território chinês. A região de Amdo, onde se originam os dois maiores rios da China (Yangtsé e Amarelo) concentra metade da população chinesa e dois terços de suas plantações. O desperdício de água associado ao mau uso da irrigação tem gerado problemas que chamam a atenção do governo de Pequim. Projetos que incluem o desvio de rios, a abertura de longos canais e a transferência de água entre bacias existem e alguns estão sendo colocados em prática. A falta de água é uma questão crônica na China e entre as 640 maiores cidades chinesas, 300 experimentam racionamento de água e em 100 a falta de água pode ser considerada severa.

As nascentes e o relevo acentuado do Tibete, com os rios correndo em profundas gargantas, gera um potencial gigantesco para a geração de energia elétrica, essencial para manter o crescimento econômico da China. Cerca de dois terços do potencial hidrelétrico da China estão dentro ou imediatamente ao redor do Tibete e existem dezenas de projetos de construção de usinas hidrelétricas. A construção de barragens alteraria o fluxo destes rios e também a quantidade de sedimentos à jusante, fator essencial para a agricultura de vários países, como Índia e Bangladesh, que experimentam os regimes de monções. É dessa forma que a ocupação chinesa no Tibete, além das questões envolvendo os direitos humanos e as liberdades individuais e religiosas, também se insere no contexto mundial de uma “Guerra pela Água”.

Embora exista no mundo contemporâneo um consenso cego acerca da conveniência na separação entre Estado e Religião, é bastante interessante imaginar um Tibete livre e governado segundo os preceitos budistas. Para o budismo os seres vivos e o seu ambiente são dois fenômenos independentes, porém unos em sua existência fundamental. Considera inegável o fato de que o homem e o seu ambiente são inseparáveis, e formam uma vida única e completa, onde nenhum pode existir separadamente. Entre os passos que conduzem à Verdade de Buda, estão o “Pensamento correto” (A pessoa deve renunciar todo prazer através dos sentidos e o mau pensamento), a “Linguagem correta” (A pessoa não deve mentir, enganar ou abusar de ninguém), o “Comportamento correto” (A pessoa não deve destruir nenhuma criatura, ou cometer atos ilegais) e o “Modo de vida correto” (O modo de vida não deve trazer prejuízo a nada ou a ninguém).

É bastante reconfortante imaginar a existência de um país dotado de tantos recursos naturais que soubesse utilizá-los sem expô-los à sanha de uma visão puramente econômica, modelo criado pelo mundo judaico-cristão, que acredita no “crescimento infinito” e a qualquer custo, um modelo desumano e imoral que já provou ser incompatível com a preservação do meio-ambiente. Os tibetanos tem muito a nos ensinar a respeito de preservação ambiental, direitos humanos e humanidade. Não admira que mesmo sua luta pela independência passa pelo princípio da ahimsa (não violência).

De um lado, a neo-capitalista China, campeã nas violações aos direitos humanos e agressões ao meio-ambiente; de outro o Tibete e os princípios budistas. De que lado nós queremos ficar?

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