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Azawad, Política Internacional

O Mundo tem uma profunda dívida em relação à África – oriunda da escravidão e da exploração colonialista – que jamais será adequadamente compensada. Reconhecer o direito inalienável do povo de Azawad à auto-determinação pode ser um passo importante para a reconciliação moral do Ocidente com o Continente Africano.


   English Version 
(by http://www.microsofttranslator.com)
 

Quando o povo tuaregue declarou a independência de Azawad, a reação do Governo Americano foi típica: rejeitou a declaração e defendeu a “integridade” do território do Mali. A leitura da carta transcrita mais abaixo, escrita por um cidadão americano e dirigida à secretária de estado Hillary Clinton, é bastante esclarecedora quanto às circunstâncias políticas e históricas que levaram à declaração de independência.

De tudo que se depreende resta a conclusão óbvia que os grandes responsáveis pela situação miserável pela qual passa grande parte do continente africano são as potências colonialistas, que desde o século XV vem agredindo a África através da exploração desenfreada de seus recursos — incluindo a sua população, transformada em escravos que foram levados para servi-los no resto do mundo.

No fim do século XIX, início do XX, muitos países europeus foram até a África em busca das riquezas presentes no continente. Esses países dominaram as regiões de seu interesse e entraram em acordo para dividir o continente. França, Grã Bretanha, Itália, Portugal, Espanha, Alemanha e outros países europeus partilharam o território africano entre si (veja sobre a partilha da África – Conferência de Berlim em 1884), de forma arbitrária, sem respeitar as características étnicas, culturais e territoriais de cada povo, formando assim os atuais “países africanos”, muitos deles existentes ainda hoje e que vivem sérias situações de conflito interno em razão desta irresponsável demarcação de fronteiras, que dividiu povos por territórios diferentes ou uniram no mesmo território povos inimigos. No início da Primeira Guerra Mundial, 90% do território africano já estava sob domínio da Europa.

Mesmo após o processo de descolonização, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, as potências ocidentais – às quais se juntaram os EUA – tentaram manter o seu domínio através do apoio a grupos políticos aliados, levando à formação de governos fantoches – geralmente sob forma de ditaduras sanguinárias – que continuaram a servir os interesses de seus antigos “senhores”, numa nova e odiosa forma de colonialismo.

Essa é a realidade ainda hoje presente em muitos países africanos, o que levou à formação de inúmeros movimentos separatistas, entre os quais o Movimento Nacional de Libertação de Azawad. O que estes movimentos representam é a ação de povos oprimidos no sentido de exercerem seu direito à auto-determinação, o direito de ocupar seus territórios – não aqueles determinados pela farsa colonial, mas os que historicamente sempre pertenceram aos seus antepassados – e o direito de viverem segundo suas crenças religiosas, seus costumes e tradições.

O Mundo tem uma profunda dívida em relação à África – oriunda da escravidão e da exploração colonialista – que jamais será adequadamente compensada. Reconhecer o direito inalienável do povo de Azawad à auto-determinação pode ser um passo importante para a reconciliação moral do Ocidente com o Continente Africano.

Segue abaixo a transcrição da carta e sua tradução para o português. Os grifos são nossos.

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The Secretary of State
U.S. Department of State
2201 C Street NW
Washington, DC 20520
Madam Secretary,
I was a bit surprised by the latest press releases issued by the State Department stating “We do not recognize the statement by the National Movement for the Liberation of the Azawad (MNLA) announcing independence as valid, and we reiterate our support for the territorial integrity of Mali.” As an American who is proud of the American Revolution, I would like to ask you what makes the people of Azawad different from us ?
The majority Berber Tuareg who inhabit the unforgiving land of Azawad is just a small portion if the larger Tuareg or more properly called Tamasheq people who inhabited the central Sahara region for thousands of years. The Tamasheq themselves are part and parcel of the Amazigh people who are the indigenous people of North Africa (extending from the Siwa Oasis in Egypt to the Canary Islands in Atlantic and from the Niger River to the Mediterranean) until various invaders and colonialism have scattered them into the harshest corners of this great land. The integrity of Mali rests on borders drawn by the French for its own interests splitting the Tamasheq people among at least five countries : Algeria, Mali, Niger, Libya, Burkina Faso. They suffered a great deal at the hands of the French and their territory has been carved and fed to puppet governments that continue to serve those same colonial masters.
The people of Azawad, much like the people of Air in Niger have fought against the policies of the states that colonialism imposed on them. The newly created states have marginalized these populations, exploited their land and treated the local people with contempt, racism and murder. To many people in Azawad the Malian army is an army of occupation for the simple reason that it is the only thing that they see from the Malian government.
The Tamasheq have been forced into a bad marriage by the French to a spouse (Mali) that has done nothing but exploit their land and murder them. I am sure you know of all their rebellions and the many times they pleaded for justice and respect (1963, 1976, 1990, 2006, 2010).
Madam Secretary, the Tamasheq are pleading for divorce. Divorce from discrimination, occupation, and murder. Don’t the Tamasheq deserve their own tea party ? They want to be free. What is so bad about freedom Madam Secretary ? It wasn’t bad for Kosovo, the Sudan or the USA. Let us support the freedom of Azawad. Peace will be back to the area when these people are left in peace. I am also sure that our government is well aware of how Al-Qaida operates in the Sahel region. Experts who are familiar with the Tamasheq people know quite well that Al-Qaida and Tamasheq don’t mix. Al-Qaida was brought in this area by those who are using it for their own political and economical gains. If and when the Azawad gains its freedom, Al-Qaida in the Azawad will be a thing of the past.
Madam Secretary, I urge you to hold a neutral position and support the inalienable right of the people of Azawad. Please send a strong signal to both parties to stop fighting and discuss their new relationship, one that is built on mutual respect and collaboration as separate entities because marriage has not worked. I am convinced that the US can work with the Tamasheq and whatever interests the US has in the region can be safe as long as the US holds a fair position in this conflict.
Respectfully
Hsen Larbi, PHD, PE
Philadelphia, USA
April 11, 2012
_____________________________________________________________________
 

À Secretária de Estado
Departamento de Estado dos EUA
2201 C Street NW
Washington, DC 20520
Senhora Secretária,
Fiquei um pouco surpreendido com os últimos comunicados de imprensa emitidos pelo Departamento de Estado afirmando que “Nós não reconhecemos a Declaração do Movimento Nacional para a Libertação da Azawad (MNLA) anunciando a independência como válido, e reiteramos nosso apoio à integridade territorial de Mali.” Como um americano que se orgulha da Revolução Americana, gostaria de lhe perguntar o que faz com que as pessoas de Azawad sejam diferentes de nós?
A maioria berbere Tuareg que habita a terra implacável de Azawad é apenas uma pequena parcela do povo Tuareg, ou mais apropriadamente chamado Tamasheq, pessoas que habitavam a região do Saara central por milhares de anos. O Tamasheq são parte do povo Amazigh, povos indígenas que viveram no norte da África (que se estende do Oasis Siwa, no Egito, até as Ilhas Canárias, no Atlântico e do Rio Niger ao Mediterrâneo) até que vários invasores e o colonialismo espalharam-nos para os mais duros cantos desta grande terra. As fronteiras do Mali foram desenhadas pelos franceses em seu próprio interesse, e dividiu o povo Tamasheq entre pelo menos cinco países: Argélia, Mali, Níger, Líbia e Burkina Faso. Eles sofreram muito nas mãos dos franceses e seu território foi esculpido e entregue aos governos fantoches que continuam a servir os mesmos mestres coloniais.
O povo de Azawad, muito parecido com o povo de Ar no Níger, lutou contra as políticas dos Estados que o colonialismo lhes impôs. Os Estados recém-criados tem marginalizado essas populações, explorado as suas terras e tratada a população local com racismo, desprezo e assassinato. Para muitas pessoas em Azawad o exército do Mali é um exército de ocupação, pela simples razão que é a única coisa que eles vêem do governo do Mali.
O Tamasheq tem sido forçado a um casamento ruim pelos franceses com um cônjuge (Mali), que não fez nada, mas explora suas terras e os matam. Tenho certeza que você sabe de todas as suas rebeliões e as muitas vezes que implorou por justiça e respeito (1963, 1976, 1990, 2006, 2010).
Senhora secretária, o Tamasheq está pedindo o divórcio. Divórcio da discriminação, do assassinato e da ocupação. O Tamasheq não merece o seu próprio ‘tea party” (expressão que se refere ao protesto dos colonos norte-americanos contra a coroa britânica em 1773)? Eles querem ser livres. O que a Senhora Secretária entende por ruim na liberdade? Não foi ruim para o Kosovo, o Sudão ou os EUA. Vamos apoiar a liberdade de Azawad. A Paz estará de volta para a região, quando essas pessoas forem deixadas em paz. Tenho também a certeza que o nosso governo está bem ciente de como Al-Qaeda opera na região do Sahel. Especialistas que estão familiarizados com a população Tamasheq sabem muito bem que a Al-Qaeda e Tamasheq não se misturam. Al-Qaeda foi trazido a esta área por aqueles que estão usando-na para seus próprios ganhos políticos e econômicos. Se e quando o Azawad ganhar a sua liberdade, Al-Qaeda no Azawad será uma coisa do passado.
Senhora secretária, exorto-vos a manter uma posição neutra e apoiar o direito inalienável do povo de Azawad. Por favor, envie um forte sinal para ambas as partes para pararem de brigar e discutirem o seu novo relacionamento, que será construído no respeito mútuo e colaboração, como entidades separadas, porque o casamento não deu certo. Estou convencido de que os EUA podem trabalhar com o Tamasheq e que os interesses que os EUA têm na região estarão seguros, desde que os EUA mantém uma posição justa neste conflito.
Respeitosamente
NESH Larbi, PHD, PE
Filadélfia, EUA
11 de abril de 2012.

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