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Política Internacional

Povo tuaregue declara a independência de Azawad


Tuaregues: de armas em punho pela independência de Azawad

A República do Mali é um país africano sem saída para o mar na África Ocidental. Ex-colônia francesa, tornou-se independente em 1960, e é um dos países mais pobres do mundo (quase metade de sua população vive abaixo da linha de pobreza, com menos de 1 dólar por dia). Quase 70% da população é analfabeta e 80% dela vive no campo. A economia baseia-se na pecuária e na lavoura, principalmente de algodão. O Mali é sucessor do Império Songhai, que nos séculos XV e XVI foi um dos principais centros de difusão da cultura islâmica e do Islamismo. 90% da população professa a fé muçulmana.

A região norte, na fronteira com a Argélia, é totalmente árida e compreende o Deserto do Sahara, enquanto o sul, verde, fértil e populoso, é banhado pelas bacias hidrográficas do Rio Niger e do Rio Senegal, região onde se concentra a maior parte da população.

Ao norte habitam os tuaregues (do árabe: الطوارق) um povo berbere constituído por pastores semi-nômades, agricultores e comerciantes. No passado, controlavam a rota das caravanas no deserto do Sahara.  Possuem uma cultura e língua próprias e um alfabeto peculiar, que chamam de tamasheq.

A luta dos tuaregues pela independência remonta ao período colonial, quando em 1916 Ag Mohammed Wau Tequidda Kaocen liderou uma força de mil homens, sitiou a cidade de Agadez e derrotou diversas divisões francesas. Kaocen tomou todas as grandes cidades de Air, incluindo Ingall, Assodé e Aouderase, e dominaram a região por mais de três meses. Mas em março de 1917, um exército francês libertou Agadez e passou a atacar o povo que deu proteção aos insurgentes. Kaocen fugiu para o norte, mas foi preso e enforcado em março de 1919.

Em 1960 o Mali tornou-se independente, mas tuaregues e outros grupos minoritários não foram integrados ao novo governo. Quando o governo passou a promover uma lei de reforma agrária que ameaçava as terras tradicionais das tribos tuaregues, estes rebelaram-se (1961) e mais uma vez lutaram pela independência de Azawad – como chamam a sua terra. No entanto, as tropas do Mali utilizaram de uma repressão brutal. Várias vezes foram cometidos massacres em cidades e aldeias habitadas por tuaregues desarmados o que levou muitos a fugir para países vizinhos. Os rebeldes, por falta de suprimentos, foram forçados a assinar um cessar-fogo em 1964. Os tuaregues não receberam quaisquer concessões e foram forçados a retornar à sua terra devastada.

Na década de oitenta um longo período de seca levou uma fome atroz ao povo tuaregue, que brutalmente reprimido e sem ter ajuda do governo, iniciou uma revolta pela autonomia ou a criação de um país independente. A rebelião ocorreu entre 1990 e 1995, e foi respondida novamente com uma repressão militar sangrenta. O conflito terminou com um acordo de paz negociado em Ouagadougou, em abril de 1995.

Sem que o governo cumprisse suas promessas, os tuaregues pegaram novamente em armas (2007) pela independência de Azawad. A guerra de guerrilha e a repressão militar provocou um êxodo em massa de refugiados para as capitais regionais, Kidal, no Mali e Agadez, no Níger. A Argélia ajudou a negociar um cessar-fogo em outubro de 2008.

 

Ag Mohammed Wau Teguidda Kaocen

Depois de quase uma centena de anos lutando por sua independência, o povo tuaregue viu o sonho de um Estado independente ganhar força após um golpe militar contra o governo do Mali no último dia 22 de março. Aproveitando-se da confusão em Bamako (capital do Mali), forças do Movimento Nacional pela Libertação de Azawad (MNLA), tomaram principais cidades da região, Gao, Kidal e a histórica Timbuktu, e no dia 06 de abril declararam a separação do Norte de Mali e a criação do Estado Independente de Azawad.

– “O Comitê Executivo do Movimento Nacional pela Libertação de Azawad pede que a comunidade internacional reconheça imediatamente, no espírito de justiça e paz, o Estado Independente de Azawad” disse em comunicado Billal Ag Acherif, secretário-geral do MNLA, prometendo respeitar as fronteiras vizinhas. Segundo Sherif, a decisão foi tomada após contatos com os diferentes órgãos representativos do movimento, que pegou em armas contra o poder central de Bamako em 17 de janeiro para exigir a autodeterminação de um território de 850 mil quilômetros quadrados. Na nota em que reivindicam seu direito a fundar um Estado de acordo com as leis internacionais, se comprometem a “trabalhar para garantir a segurança e avançar em direção à construção das instituições, para finalizar com a redação de uma Constituição democrática para um Estado Azawad independente”.

A declaração entretanto foi rejeitada pelas potências ocidentais, assim como não foi reconhecida pelos países vizinhos, que cogitam a formação de uma força conjunta para deter o avanço dos rebeldes. A posição dos países africanos é bastante compreensível, uma vez que além do norte do Mali, o povo tuaregue ocupa áreas na Líbia, Argélia, Niger e Burquina Faso, que temem que a criação de um novo Estado encoraje movimentos separatistas em seus territórios.

Quanto às potências ocidentais, hipocrisia é a melhor palavra para definir a rejeição à declaração de independência de Azaward. No rastro da chamada Primavera Árabe, Estados Unidos, França e Grã Bretanha não hesitaram em apoiar os rebeldes na Líbia e Síria, reconhecendo rapidamente o Conselho Nacional de Transição na Líbia e o Conselho Nacional Sírio como “legítimos representantes” daqueles países, tudo em nome do “direito à auto determinação dos povos”. Mas não o fazem em relação à Palestina e ao Tibete, assim como não farão em relação à Azawad.

Na verdade, o Ocidente é o grande responsável pela situação de instabilidade política e extrema pobreza em que vivem grande parte dos povos africanos. Foi o modelo colonial que pilhou da África suas riquezas naturais, que transformou homens em escravos e que formou Estados Nacionais sem considerar as diferenças culturais, linguísticas, étnicas e  religiosas dos povos africanos. Levaram em conta apenas seus próprios interesses políticos e econômicos, e até hoje apoiam ou rejeitam Governos, legítimos ou  não, segundo esses mesmos interesses.

Ainda é cedo para prever o futuro de Azawad. Não se sabe se resistirá a uma provável intervenção militar de seus vizinhos africanos, ou ao boicote internacional patrocinado pelas potências ocidentais. Se sobreviver, o Estado Independente de Azawad ainda terá que lidar com questões internas antes de consolidar um Governo de fato. Os líderes do MNLA, de orientação laica e moderada, terão que compor com os islamitas do Ansar Dine, liderados por Iyad Ag Ghaly, e de membros da Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) que também integram as operações militares da rebelião, mas se posicionam contrários à declaração de independência:  – “Nossa guerra é uma guerra santa, uma guerra legal, é em nome do Islã. Somos contra as independências. Somos contrários a todas as revoluções que não sejam em nome do Islã. Viemos para praticar o Islã, em nome de Alá. A independência é o Islã. Esta é a verdadeira independência. Nosso combate é em nome do islã. Não é árabe ou tuaregue, branco ou preto. É em nome do Islã”, disse um dirigente do Ansar Dine, Omar Hamaha.

Bandeira do Estado Independente de Azawad

Deus abençoe todos os que lutam pela Verdade, pela Justiça e pela Liberdade!

Salve o Estado Independente de Azawad!

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