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Oriente Médio, Política Internacional

O que de fato vem acontecendo na Síria? Como as potências ocidentais tem manipulado informações para justificar uma intervenção na Síria, parte de uma conspiração para conter o fortalecimento do Irã


Vitaly Churkin, representante russo no Conselho de Segurança, ergue o braço sinalizando veto contra resolução sobre a Síria Foto: AP

Recentemente, a Rússia vetou uma Resolução que vinha sendo preparada no Conselho de Segurança da ONU que pedia a renúncia do presidente Bashar al-Assad e abria a possibilidade de uma ação militar na Síria nos moldes do “bombardeio humanitário” que a OTAN promoveu na Líbia. O noticiário concentrou-se nas reações “indignadas” dos representantes das potências ocidentais e de Israel, que acusaram a Rússia de facilitar ao governo sírio uma “licença para matar”, responsabilizando-a pela escalada nos “atos de matança e genocídio”.

Às vésperas da votação da Resolução, a França acusou o Governo Sírio de bombardear com tanques e artilharia pesada o populoso bairro de Khadiliya, em Homs, matando mais de 200 pessoas. Sem qualquer tipo de investigação ou confirmação dos fatos a imprensa mundial (inclusive a brasileira) não hesitou em divulgar a notícia, acusando o Governo Sírio de praticar “crimes contra a humanidade”.

Mas o que de fato acontece na Síria? Seriam verdadeiras as informações provindas de fontes duvidosas, apontadas genericamente por “ativistas”, publicadas na grande imprensa, ou existe uma outra verdade, cuja divulgação não encontra espaço na mídia por contrariar os interesses das potências ocidentais e do sionismo? Para entender a realidade é preciso conhecer alguns fatos:

A população da Síria é formada por ampla maioria sunita, mas governada pelo Partido Ba’ath, cujos membros são praticamente todos alawitas (xiitas), que ainda controlam o alto escalão das forças armadas. Basicamente as manifestações e protestos que deram início à violência na Síria foram reflexos do sectarismo presente na relação entre estas duas correntes do islamismo, principalmente a insatisfação das lideranças sunitas em razão do pouco espaço político dentro do regime de Assad.

Assim como fizeram na Líbia os serviços de inteligência do Ocidente potencializaram os protestos através do financiamento e apoio logístico à oposição, esperando a reação do governo para justificar uma intervenção sob o pretexto de “proteger a população civil”.

O apoio mundial à uma operação militar vem sendo preparado através da divulgação de supostos “crimes humanitários” cometidos na repressão aos protestos. Os informes – sempre provenientes de fontes anônimas e pouco confiáveis – dão conta de que o exército sírio estaria atacando com artilharia e armas pesadas cidadãos comuns, que se defendem com paus e pedras, aos quais tem se juntado desertores das forças regulares.

As deserções são um fato comprovado, e tem ocorrido entre os soldados de origem sunita, que formam milícias armadas como as que se viram na Líbia e acolhem mercenários armados pelo Conselho de Cooperação do Golfo, leia-se Arábia Saudita e Qatar, países governados por elites sunitas. A ação destas milícias não obedece a um comando central, nem ao Conselho Nacional Sírio. Seu único objetivo tem sido matar soldados do exército regular e provocar o caos, para justificar a intervenção estrangeira com o apoio das monarquias sunitas para uma mudança de regime na Síria.

Milhares de pessoas saem às ruas em apoio a Bashar al-Assad

Uma perspectiva diferente da realidade pode ser encontrada na reprodução de trechos de um email escrito por um morador de Homs, cidadão sírio e cristão, enviada ao  mais famoso jornalista brasileiro em todo o mundo atualmente, Pepe Escobar, que classificou sua fonte de altamente confiável. Leia, e tire as suas própria conclusões:

Muitos sírios estão entusiasmadíssimos com o duplo veto, mas a situação em Homs é muito preocupante. A oposição espalhou notícias sobre um massacre pouco antes da votação, falando de centenas [de mortos]. É inacreditável, mas a mesma notícia foi repetida em todos os canais de televisão (todos sempre citando “ativistas”), sem qualquer verificação. (…) Nenhum canal de notícias mostrou bombardeios ou cadáveres ou gente ferida (…) só homens despidos ou vestindo só cuecas, e lavados para serem enterrados, com mãos e pés atados, e com sinal de tiro de execução na cabeça. Que arma incrível será essa, do arsenal do governo sírio, uma bomba tão inteligente que consegue despir e amarrar os inimigos e, em seguida, executa-os com um tiro na testa?!
O que se sabe com certeza absoluta é que não há presença militar em Homs. Meus pais deixaram a cidade e retornaram para lá no sábado pela manhã – dia do alegado massacre – e nada viram. Como fazem sempre, telefonaram para um número (115) que fornece informações sobre segurança nas estradas. O operador disse que podiam viajar tranquilamente para Homs, que não havia qualquer sinal de agitação ou combates, nem na cidade nem nos arredores. Mas quase toda a cidade, principalmente a parte antiga, está sob controle de milícias armadas. O bairro onde moram meus pais e onde eu cresci (o bairro cristão de Bustan al-Diwan) está completamente tomado pelas milícias.
Há vídeos em YouTube que mostram que o Exército Livre da Síria atacou e removeu os postos de vigilância que o exército mantinha em outro bairro próximo (Bab al-Dreib) e, em seguida, atacou e removeu o posto que protegia o nosso bairro. Pessoas que moram perto de nossa casa não viram qualquer sinal de agitação e não falam de qualquer tipo de agitação, embora todos saibam que alguns ‘revolucionários’ invadiram algumas casas cujos moradores partiram naqueles dias ou antes; e que também invadiram uma escola, a redação do jornal Homs Newspaper (operado pela igreja ortodoxa há mais de um século) e alguns restaurantes. Essas são as únicas reclamações que se ouvem por aqui. Quero dizer: se se considera o que esse Exército Livre da Síria tem feito contra os alawitas, a comunidade cristã está sendo muito bem tratada, até aqui.
O que se diz por aqui é que os corpos mostrados amarrados e que teriam sido mortos em Khalidiya (…), são, de fato, soldados do exército sírio que foram sequestrados. Há também alawitas sequestrados, que não foram libertados (em trocas de prisioneiros). Quando o Exército Livre da Síria começou a sequestrar pessoas, os alawitas também passaram a sequestrar, para ter o que negociar e conseguir libertar soldados presos pelas milícias. Nem sempre dá certo, e muitos que não foram “trocados” apareceram mortos em Khalidiya.
O que se pode garantir é que, até agora, não há qualquer tipo de ataque pelo exército sírio regular na cidade. Os rebeldes continuam a atacar outros postos de segurança do exército. Ninguém por aqui tem qualquer ideia sobre o que o governo pensa fazer em relação à situação em Homs.”

Curiosamente, as informações prestadas pela fonte de Pepe Escobar coincidem com o que escreveu o jornalista americano Nir Rosen, autor do “Aftermath: Following the Bloodshed of America’s Wars in the Muslim World”, sobre a situação em Homs:

“…estão acontecendo ataques das milícias armadas contra postos de controle do exército sírio na estrada; e o exército sírio ataca alguns dos bairros onde vivem as milícias armadas. Não há luta em Homs. O governo bombardeia algumas áreas onde suspeita que haja rebeldes (o que sugere que o regime não tenha meios para atacar Khalidiya) (…). Até agora não houve qualquer baixa entre os rebeldes. Em Khaldiyeh houve 130 mortos e 800 feridos (mas não eram combatentes). É muita gente, sim, mas se você assiste aos noticiários… Segundo os noticiários, Homs teria sido destruída pelo governo da Síria. Essa notícia é falsa. De fato, o ataque das milícias em Homs sugere que, ali, o regime está enfraquecido, sem meios para atacar as milícias.

Ambos os relatos apenas confirmam as alegações de Damasco, que negou as acusações de um massacre em Homs, afirmando ainda que as informações divulgadas pela imprensa ocidental fazem parte de uma histérica campanha de provocação e incitação ao derramamento de mais sangue sírio realizada por satélites de televisão de instigação, em parceria com grupos terroristas armados” –referindo-se ao canal al-Jazeera do Qatar e o Al-Arabiya da Arábia Saudita, bem como o Conselho Nacional Sírio, entidade que reúne os opositores do regime. Segundo a agência de notícias estatal SANA, as imagens de cadáveres ensangüentados exibidas na internet não mostram as vítimas de um ataque do governo, mas pessoas seqüestradas e mortas por grupos terroristas armados (refererindo-se ao Exército Lívre da Síria).

Ninguém com um mínimo de bom senso pode acreditar que não esteja havendo repressão por parte das forças policiais e do exército sírio contra os rebeldes entrincheirados em algumas das maiores cidades do país. Na verdade, qualquer governo, oriental ou ocidental, não poderia tolerar que grupos armados promovam a ocupação de bairros ou cidades inteiras, ameaçando a estabilidade do país e a segurança de sua população. Mas as notícias que recebemos da Síria através da grande imprensa falam em massacres e bombardeios que de fato, não vem ocorrendo. Tais informações nos fazem lembrar das publicações acerca do “arsenal de destruição em massa de Sadam Hussein”, que prepararam a opinião pública mundial para invasão do Iraque pelos EUA em 2003. Um arsenal que jamais foi encontrado, porque simplesmente não existia!

No caso da Síria, também a mentira e a propaganda midiática tem sido usados por aqueles que pretendem manipular a situação geopolítica do Oriente Médio, forjando uma opinião pública favorável a uma intervenção das potências ocidentais, repassando informações não comprovadas, que são obtidas de fontes não confiáveis. Mas com que objetivo?

A queda de Assad e a instauração de um novo regime pró-ocidente seria o passo final em direção ao verdadeiro objetivo: assim como a Líbia foi invadida para se dominar o petróleo daquele país, possibilitando o embargo do petróleo iraniano, a queda do regime sírio tem como finalidade estabelecer um cerco político e militar para conter o fortalecimento do Irã, cuja capacidade de produzir armas nucleares o tornaria praticamente inatingível no Oriente Médio e o transformaria numa potência regional com condições de controlar a região detentora das maiores reservas de petróleo do mundo. O prazo para queda do Governo Sírio foi determinado pela avaliação de que até o segundo semestre deste ano o programa nuclear iraniano alcançaria a chamada “zona de imunidade”, ou seja, o ponto em que uma ação militar será incapaz de provocar danos que impeçam sua continuidade. Dessa forma, caso não se dê rapidamente a queda de Assad, impossibilitando um cerco seguro ao Irã, Israel vai atacar o país persa, acreditando que o tempo beneficia os iranianos, dando-lhes condições de aperfeiçoar sua capacidade de lidar com a energia nuclear. Nos últimos meses, o premier de Israel, Binyamin Netanyahu, e o ministro da Defesa, Ehud Barak, têm dado indicações de que estariam prontos para levar adiante uma operação contra as instalações iranianas.

Talvez o fim do governo sírio seja o mesmo dos demais países do Oriente Médio que não sobreviveram às revoltas populares e as ações de agentes infiltrados em grupos opositores. Mas, caso isso ocorra, somente aumentará mais ainda a instabilidade na região, somando-se mais um estado caótico, como decorrência das intervenções que se tornaram hábito neste século. Iraque, Afeganistão, Líbia, Egito, Iêmen, e agora a Síria, passarão a conviver com instabilidades decorrentes de governos fracos que mal conseguem desarmar insurgentes que atuam dominando territórios nas fronteiras desses países.

As condições para uma nova guerra, de proporções incalculáveis, seguem sendo criadas. Embora seja difícil prever se isso de fato acontecerá, não resta dúvida que as ações políticas tem caminhado nesse sentido, e deixam claro que esse é o objetivo das grandes potências ocidentais. A Síria não é o alvo final.

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