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Isso é o Brasil

Chuvas: um ano depois, a incompetência e a corrupção ameaçam novamente a população das cidades serranas.


Janeiro de 2012. Um ano depois da maior tragédia climática da história do Rio de Janeiro, que arrasou as cidades da Região Serrana do Estado, a população continua vivendo em clima de medo, prevendo, com as chuvas de verão, novas enchentes, enxurradas e deslizamentos. E não é prá menos. A ansiedade tem razão de ser: em Nova Friburgo, por exemplo, cidade mais atingida pela tragédia, quase nada foi feito para evitar a repetição do que ocorreu um ano atrás. Obras de contenção de encostas não foram realizadas, não houve a remoção das famílias que moram em áreas de risco e o Rio Bengala, que cruza a cidade, encontra-se assoreado, com muito mato e lixo acumulado em suas margens.

Um ano depois da tragédia. Um dos principais pontos turísticos de Nova Friburgo, a Praça do Suspiro, ainda tem muita lama e pontos destruídos, como é o caso da Capela de São Antônio, da Fonte do Suspiro e da Praça dos Trovadores. A tradicional fonte do Suspiro simplesmente desapareceu do mapa.

Mas enganam-se os que acham que faltaram verbas para recuperação e obras de prevenção nas cidades atingidas. Logo após a catástrofe, o Governo Federal anunciou a liberação de R$ 780 milhões para o atendimento às vítimas, programas de habitação e realização de obras de prevenção. Posteriormente, mais R$ 79,5 milhões em verbas federais foram destinados ao Governo do Estado para obras de reconstrução das pontes destruídas pelas enchentes de 2011.

Hoje, às vésperas de uma nova temporada de chuvas, o retrato da realidade não poderia ser mais assustador: dos R$ 780 milhões liberados pela União, pouco mais de R$ 100 milhões foram efetivamente aplicados. Não bastasse a flagrante incapacidade de mapear, projetar e executar obras de habitação e contenção de encostas, muitas das cidades atingidas foram alvo de escândalos de corrupção no uso dos recursos. Teresópolis e Nova Friburgo tiveram verbas bloqueadas por problemas na prestação de contas, levando ao afastamento dos prefeitos destas cidades.

2012 – Bairro Córrego D`Antas, um dos mais atingidos pelas fortes chuvas de janeiro de 2011. Um ano depois, nada mudou. O cenário de destruição e descaso continua o mesmo de logo após a tragédia

Quanto aos recursos destinados ao Estado para reconstrução e reforço das pontes, das 75 previstas para dez cidades do interior fluminense apenas uma obra está pronta, ainda assim em meia pista, porque a construção, em Bom Jardim, não foi totalmente concluída. Também em relação ao uso desta verba, técnicos do governo federal encontraram irregularidades nos projetos.

Ou seja, ao longo de um ano tudo o que as prefeituras e o Governo do Estado têm a oferecer às populações da Região Serrana são “planos de emergência” e sirenes instaladas em algumas localidades para avisar aos moradores sobre um risco iminente de deslizamentos. E ainda assim – é preciso lembrar – o pouco que foi feito só o foi em razão de ações do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, que obrigaram as prefeituras a adotarem tais medidas.

O roto falando do rasgado – Pouco mais de um mês da tragédia, em fevereiro de 2011, a Assembléia Legislativa do Rio instaurou uma Comissão Parlamentar  de Inquérito para apurar as responsabilidades dos órgãos públicos em relação à tragédia na Região Serrana. O relatório final da CPI citou como principais causas da tragédia: “A falta de um plano de contenção de encostas instáveis, o abandono total da política de uso do solo, onde diplomas fajutos de posse eram dados em regiões de risco, a política errada de as concessionárias ligarem água e luz em imóveis que estão em área de risco e a falta de um sistema estruturado de Defesa Civil profilática, preventiva, não apenas para atender mortos e feridos”. A estas causas, o relator acrescenta a “corrupção endêmica”….

Provavelmente, em janeiro de 2013 as manchetes dos jornais irão estampar, mais uma vez, notícias sobre inundações, deslizamentos e perda de vidas na Região Serrana e em outras regiões do Estado sujeitas a este tipo de acidente climático. Apesar das causas serem amplamente conhecidas, a omissão, a incompetência e a corrupção não permite que medidas efetivas sejam tomadas para evitarem-se as tragédias. E o que é pior, as pessoas vão se acostumando com isso, atribuindo apenas às causas naturais e à vontade divina as razões de seus infortúnios. Passam a considerar “normal” a ineficácia, a ineficiência, a incompetência dos poderes públicos…

Março de 2011. Um terremoto de 9º Richter – considerado o quarto maior registrado no mundo – atinge a costa noroeste do Japão, seguido de outros abalos menores e uma tsunami com ondas de mais de 10 metros de altura, causando uma devastação até então inimaginável, até mesmo para os japoneses, habituados a esse tipo de desastre natural. Horas após a catástrofe equipes já removiam os destroços e davam início a recuperação da infra-estrutura das cidades atingidas. Em cerca de 10 dias a vida começava a retornar ao normal. Em três meses muitas das localidades devastadas já haviam sido em grande parte recuperadas. Hoje, 10 meses depois, o terremoto vive apenas na lembrança, pois as cidades encontram-se plenamente reconstruídas, e à exceção das conseqüências do acidente nuclear na usina de Fukushima, nenhuma seqüela restou da catástrofe. Uma imagem bastante impressionante divulgada na época retrata magistralmente a capacidade japonesa de recuperação: esta estrada, na província de Miyagi, foi completamente recuperada em menos de uma semana. A fotografia mostra o mesmo trecho, logo após o terremoto e seis dias depois. Isso é o que os japoneses consideram normal. O que faz a diferença entre o Brasil e o Japão?

Antes e Depois. Mas não se engane: o depois é a foto de baixo. A estrada foi recuperada seis dias após o maior terremoto da história do Japão. Um exemplo de competência e eficiência no trato da “res publica”.

Para ler mais sobre a corrupção no Brasil acesse:  http://mkninomiya.wordpress.com/2011/09/06/corrupcao/

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