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Meio Ambiente, Política Internacional

A Guerra pela Água – Parte IV – A guerra já começou!


Nos artigos anteriores expomos como o consumo excessivo, a poluição e o crescimento demográfico ameaçam esgotar as reservas de água doce do planeta, transformando o que aparentemente era uma dádiva inesgotável da Natureza em mercadoria de luxo, elemento estratégico para a sobrevivência das Nações. Mostramos também a privilegiada situação hídrica do Brasil e como isso torna o país alvo prioritário das grandes potências mundiais na Guerra pela Água.
Na continuação deste ensaio vamos expor fatos que tornam evidente que os primeiros passos em direção ao conflito já vem sendo dados a duas décadas…

Desde o início da década de 80 a tese da Internacionalização da Amazônia tem sido tema recorrente na agenda política dos chamados países do “Primeiro Mundo”. Sob o pretexto de proteger o bioma amazônico, considerado patrimônio da humanidade, líderes de grandes potências mundiais por mais de uma vez defenderam publicamente tal tese. As citações a seguir são uma pequena amostra desta linha de pensamento, todas registradas pela mídia da época (os grifos são nossos):

Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar suas dívidas, que vendam suas riquezas, seus territórios e suas fábricas“. (Margaret Thatcher, Primeira-Ministra da Inglaterra, Londres, 1983);

Ao contrário do que os brasileiros pensam a Amazônia não é deles, mas de todos nós“. (Al Gore, Vice-Presidente dos Estados Unidos, Washington, 1989);

O Brasil precisa aceitar uma soberania relativa sobre a Amazônia“. (François Mitterrand, presidente da França, Paris, 1989);

O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes“. (Mikhail Gorbachev, chefe do governo soviético, Moscou, 1992);

As nações desenvolvidas devem estender o domínio da lei ao que é comum a todos no mundo. As campanhas ecológicas internacionais que visam à limitação das soberanias nacionais sobre a região amazônica estão deixando a fase propagandística para dar início à fase operativa, que pode definitivamente ensejar intervenções militares diretas sobre a região“. (John Major, Primeiro-Ministro da Inglaterra, Londres, 1992.);

A liderança dos Estados Unidos exige que apoiemos a diplomacia com a ameaça da força“. (Warren Cristopher, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Washington, 1995);

Os países em desenvolvimento com imensas dívidas externas devem pagá-las em terras, em riquezas. Vendam suas florestas tropicais“. (George W. Bush, candidato à presidência dos Estados Unidos, em debate com Al Gore, Washington, 2000).

Há comerciais institucionais transmitidos pela televisão do primeiro mundo, inclusive a CNN, onde a pauta mostra as maravilhas da fauna e da flora amazônicas para, em seguida, apresentar cenas de devastação, sujeira e imundície, e concluir: “São os brasileiros que estão fazendo isso! Até quando? A Amazônia pertence à humanidade e o Brasil não tem competência para preservá-la!”

A retórica deu lugar a ações efetivas ainda no ano de 2000, quando foi criado o chamado “Plano Colômbia” que oficialmente se destinava a combater o narcotráfico naquele país. As operações militares de fato começaram em outubro daquele ano, quando o exército realizou um ataque em grande escala em Putumayo, ao sul do país, sob o pretexto de combater um foco da guerrilha supostamente ligado ao cartel das drogas. Desde então, o Governo dos EUA já aplicou mais de US$ 5 bilhões a título de “assistência militar” na Colômbia, cujo exército se tornou o maior e mais bem equipado, relativamente, da América do Sul. Para se ter uma noção do que estamos falando basta fazer uma simples comparação: com área de pouco mais de 1,1 milhões de quilômetros quadrados e população de 44 milhões de habitantes, a Colômbia possui um contingente militar de cerca de 208,6 mil efetivos, enquanto o Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados e mais de 190 milhões de habitantes, tem um contingente de somente 287,7mil (dados do ano de 2009).

Em junho de 2005 os EUA inauguraram a Base Marechal Estigarribia na província de Boqueron, no Chaco Paraguaio, nas proximidades da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, a um passo do Pantanal e do Mato Grosso do Sul. Esta base, atualmente ocupada por cerca de 400 efetivos, conta com uma pista de pouso para aviões de grande porte.

Em abril de 2008 o Governo Americano anunciou o retorno das operações da IV Frota, com o objetivo declarado de “garantir a segurança das águas internacionais na região, especialmente contra o tráfico de drogas e o terrorismo”. Estacionada na Base Naval de Mayport, na Flórida, a divisão conta com cerca de 15 mil homens e duas dúzias de navios e aeronaves embarcadas da marinha americana. A IV Frota dos Estados Unidos foi criada em 1943, durante a II Guerra Mundial para realização de missões de patrulhamento e ataque no Atlântico Sul, numa época em que submarinos alemães ameaçavam os comboios aliados ao largo da costa brasileira. Com o fim da guerra, foi absorvida pela Segunda Frota até ser totalmente desmobilizada em 1950. Hoje volta a navegar em águas sul-americanas, não mais como força de proteção, mas como elemento de dissuação.

A notícia causou grande inquietação entre os líderes sul-americanos, que cobraram explicações ao governo americano. Segundo Chaves, “o objetivo dos EUA é apropriar-se dos recursos naturais dos países da região”; no mesmo tom, o presidente da Bolívia, Evo Morales, criticou a atitude intervencionista dos americanos. A líder argentina, Cristina Kirchner, embora não tenha se referido diretamente à Quarta Frota, destacou a importância de os países da região defenderem seus recursos naturais, “na mira das grandes potências”. O governo brasileiro limitou-se a um “pedido de explicações”.

Em 2009 os EUA anunciaram um novo acordo de cooperação militar com a Colômbia, que deu ao exército, a força aérea e a marinha dos EUA acesso a um total de sete instalações espalhadas pelo país, por um período de até 10 anos.

A maior dessas instalações é a Base Aérea de Palenquero, localizada a 190 km ao norte da capital Bogotá. Essa base aérea pode albergar mais de 2.000 homens e possui uma série de radares, além de cassinos, restaurantes, supermercados, hospital e teatro. E a pista do aeroporto, a mais longa da Colômbia, tem 3.500 metros de longitude e permite a partida simultânea de até três aviões, sendo declaradamente parte de uma estratégia mais ampla dos EUA para estender o poderio militar americano por todo hemisfério. Em documento emitido pelo Comando de Mobilidade Aérea encontra-se textualmente a seguinte afirmação: “Até recentemente, as preocupações de segurança na América do Sul estavam focadas na missão anti-narcóticos. Essa missão não exigiu o uso de recursos aéreos estratégicos para sua execução. Recentemente, o USSOUTHCOM passou a se interessar em estabelecer uma localidade no continente Sul-Americano que pudesse ser usada (…) como uma localidade da qual operações de mobilidade pudessem ser executadas.”

Pelo documento, operações a partir da base de Palanquero com o avião militar C-17 podem cobrir metade do continente sem necessidade de paradas técnicas de reabastecimento, o que facilmente caracteriza que o objetivo da ampliação militar americana na Colômbia não é interno, para combate ao narcotráfico, mas externo, para aumentar a presença dissuasória no continente.

Além dessa base, são consideradas estrategicamente importantes: a base de Malambo, perto da cidade caribenha de Barranquilla e próxima da fronteira venezuelana, as bases da marinha dos EUA na cidade portuária caribenha de Cartagena e Bahia Malaga, na costa do Oceano Pacífico; a base na cidade meridional de Florência, próxima da fronteira com o Equador e a base de Apiay na Amazônia, na região fronteiriça com o Brasil, conhecida como Cabeça de Cachorro.

As forças armadas americanas já operam a partir de nove bases militares na Colômbia, com pessoal militar e empresas fornecendo auxílio aos militares colombianos. Na República do Peru, existem ainda duas outras bases norte-americanas, em Iquitos e Nanay, cujos efetivos operam na zona fluvial da Amazônia peruana.

Fica claro, portanto que o plano geral das posições militares americanas responde à uma estratégia de envolvimento e penetração que pretende “estabelecer uma dominação de espectro total” (Ceceña, Ana Esther, in Geopolítica Latino Americana, 2006), criando cercos ou zonas privilegiadas de acesso aos recursos naturais estratégicos – a mais importante deles a água – buscando intimidar, controlar ou destruir qualquer oposição a esses objetivos. Segundo Ceceña, “a atual proliferação de bases militares, soldados, equipamentos e forças de inteligência para a América Latina é produto de uma nova concepção estratégica sobre a região, contida na doutrina de segurança nacional estadunidense, nas iniciativas relacionadas com a articulação da força de segurança hemisférica e em sua concepção geral de guerra de quarta geração ou guerra simétrica. (…) A estratégia global passa a definir uma doutrina de guerra preventiva que justifica a utilização do poder bélico contra qualquer país, em nome de sua defesa”. Ora, o que é isso, senão a materialização dos princípios da Teoria do Espaço Vital, utilizada pela Alemanha Nazista para justificar seu avanço pela Europa?

A guerra já começou… E o que nós estamos fazendo?

 

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